Genocídio de cristãos atinge “patamar alarmante”

Por Raymond Ibrahim*

Muitos dos cristãos mais perseguidos do mundo não têm nada a ver com colonialismo, tampouco com os missionários. Os que mais se deparam com a ameaça de genocídio, como os assírios da Síria e do Iraque ou os coptas do Egito, já eram cristãos séculos antes que os ancestrais dos colonizadores europeus se tornassem cristãos e se pusessem a missionar.

A reportagem da BBC destaca o “politicamente correto” como fator particularmente responsável pela indiferença do Ocidente…

Entre os piores perseguidores de cristãos se encontram os que governam de acordo com a Lei Islâmica (Sharia), que professores universitários como John Esposito da Universidade de Georgetown insistem em afirmar ser equitativa e justa. No Afeganistão (que ocupa a 2ª posição no ranking), “o cristianismo sequer pode existir”.

A perseguição aos cristãos atinge níveis próximos do genocídio“, segundo reportagem da BBC de 3 de maio, referindo-se a um amplo estudo de caráter urgente encomendado pelo secretário de Assuntos Exteriores Jeremy Hunt e conduzido pelo Reverendo Philip Mounstephen, bispo de Truro.

Segundo a reportagem da BBC, uma em cada três pessoas ao redor do mundo padece de perseguição religiosa, sendo os cristãos “o grupo religioso mais afetado”. “A religião corre o risco de desaparecer em algumas regiões do planeta”, segundo a reportagem e “em certas regiões, a escala e a natureza da perseguição, comprovadamente, estão perto de atingir a definição internacional de genocídio, de acordo com a adotada pela ONU.”

Segundo consta, o chanceler britânico Jeremy Hunt se manifestou sobre o porquê dos governos ocidentais estarem “adormecidos”, termo por ele usado, em relação a essa epidemia que não para de aumentar:

“Acho que há uma preocupação equivocada de que seja algo do tipo colonialista falar sobre uma religião (cristã) que era ligada às potências coloniais e não aos países que invadimos como colonizadores. Isso talvez tenha criado certo constrangimento em abordar essa questão, o papel dos missionários sempre foi polêmico e acho também que levou algumas pessoas a se distanciarem desse tema.”

Sejam quais forem os méritos dessa maneira de pensar, o fato é que muitos dos cristãos mais perseguidos do mundo não têm nada a ver com colonialismo nem com os missionários. Os que mais se deparam com a ameaça de genocídio, como os assírios da Síria e do Iraque ou os coptas do Egito, já eram cristãos séculos antes que os ancestrais dos colonizadores europeus se tornassem cristãos e se pusessem a missionar.

A reportagem da BBC destaca a “correção política” como fator particularmente responsável pela indiferença do Ocidente, citando mais uma vez Hunt em relação a isso: “o que nós esquecemos em meio à atmosfera de correção política é que na realidade os cristãos que estão sendo perseguidos perfazem uma parcela dos mais desafortunados do planeta.”

Embora a reportagem da BBC tenha a manchete inteira dedicada ao impacto da “correção política”, ironicamente ela também se rende a esse mal contemporâneo do Ocidente. Até aqui ela (BBC) fez um trabalho satisfatório ao destacar o problema, não disse nada sobre suas causas, nem uma palavra sobre quem está perseguindo os cristãos, nem o porquê.

A maioria esmagadora dos casos de perseguição aos cristãos, como não poderia deixar de ser, ocorre em nações de maioria muçulmana. Segundo a World Watch List 2019 (WWL) da Open Doors, que realiza levantamentos das 50 nações onde há a maior perseguição de cristãos, “a opressão islâmica continua impactando milhões de cristãos”. Em sete das piores dez nações, a “opressão islâmica” é a causa da perseguição. “Isso significa que para milhões de cristãos, particularmente para aqueles que foram criados como muçulmanos ou nasceram em famílias muçulmanas, seguir abertamente a Jesus pode resultar em consequências desastrosas”, entre elas a morte.

Entre os piores perseguidores de cristãos se encontram os que governam de acordo com a Lei Islâmica (Sharia), que professores universitários como John Esposito da Universidade de Georgetown insistem em afirmar ser equitativa e justa. No Afeganistão (que ocupa a 2ª posição no ranking), “o cristianismo sequer pode existir” ressalta o WWL 2019, porque “é um estado islâmico segundo a constituição, ou seja: as autoridades governamentais, líderes de grupos étnicos, autoridades religiosas e cidadãos são hostis em relação” aos cristãos. Na mesma linha, na Somália, (3ª posição no ranking), “a comunidade cristã é pequena e sob constante perigo de ataque. A Lei Islâmica (Sharia) e o Islã estão consagrados na constituição do país e a perseguição aos cristãos quase sempre envolve violência.” No Irã (9ª posição no ranking),” a sociedade é governada pela lei islâmica, o que significa que os direitos e possibilidades profissionais dos cristãos são fortemente limitados.”

É por demais sugestivo que 38 das 50 nações que fazem parte do WWL 2019 sejam de maioria muçulmana.

Quem sabe a BBC tenha sucumbido ao silêncio no que diz respeito às raízes da perseguição cristã, isto é: sucumbido à “atmosfera da correção política” que ironicamente destacou porque a sua própria reportagem não se baseia no WWL. O problema dessa interpretação é que o estudo no qual a BBC se baseia, o do bispo de Truro, está repleto de troca de ideias sobre as verdadeiras raízes da perseguição cristã. Nesse quesito, as palavras “Islã” e “islamista” aparecem 61 vezes; “muçulmano” aparece 56 vezes nessa análise sobre cristãos perseguidos.

A seguir estão algumas das considerações mais significativas do estudo do Bispo de Truro:

  • “A atual perseguição aos cristãos talvez seja a mais execrável que ocorre na região do berço do cristianismo, Oriente Médio e Norte da África.”
  • “Em países como Argélia, Egito, Irã, Iraque, Síria e Arábia Saudita, a situação dos cristãos e outras minorias atingiu um patamar alarmante”.
  • “A erradicação de cristãos e de outras minorias pela ‘espada’ ou outros meios violentos revelou ser o objetivo específico e declarado dos grupos extremistas (islâmicos) na Síria, Iraque, Egito, nordeste da Nigéria e Filipinas.”
  • “Há violência em massa que via de regra se manifesta por meio de atentados à bomba em igrejas, como tem sido o caso em países como o Egito, Paquistão e Indonésia”.
  • “A maior ameaça aos cristãos da Nigéria… veio do grupo militante islamista Boko Haram. Relatórios da inteligência dos EUA de 2015 indicavam que 200 mil cristãos corriam risco de serem mortos… Entre os mais atingidos se encontram mulheres e meninas cristãs raptadas e forçadas a se converterem ao Islã, a se casarem contra a vontade, a sofrerem abusos sexuais e torturas”.
  • “A intenção de apagar todas e quaisquer evidências da presença cristã (na Síria, Iraque, Egito, nordeste da Nigéria e Filipinas) é patente, visto a remoção de cruzes, a destruição de igrejas e símbolos da Igreja. Os assassinatos e sequestros do clero representaram um ataque direto à estrutura e liderança da Igreja.”
  • “O cristianismo agora enfrenta a possibilidade de ser varrido de regiões do Oriente Médio onde suas raízes remontam ao passado mais longínquo. Na Palestina, o número de cristãos se encontra abaixo de 1,5%; na Síria a população cristã despencou de 1,7 milhão em 2011 para menos de 450 mil e no Iraque, de 1,5 milhão antes de 2003 para menos de 120 mil de hoje. O cristianismo corre o risco de desaparecer, representando um grande revés para a pluralidade na região. “

A BBC deveria ser elogiada por (finalmente) relatar essa questão premente, ainda que esteja três anos atrasada. Conforme observa corretamente o estudo Truro, “em 2016, diversos órgãos políticos, incluindo o Parlamento do Reino Unido, o Parlamento Europeu e a Câmara dos Representantes dos EUA, declararam que as atrocidades do ISIS cometidas contra cristãos e outros grupos religiosos minoritários como os yazidis e xiitas preenchem os requisitos para serem consideradas genocídio”.

Na melhor das hipóteses, parece que a BBC parou de procurar minimizar o espectro da perseguição cristã a exemplo de 2013, quando a situação estava apenas começando a chegar ao ponto de ebulição.

 

* Raymond Ibrahim, autor do novo livro Sword and Scimitar, Fourteen Centuries of War between Islam and the West, é Ilustre Colaborador Sênior do Gatestone Institute e Membro do Instituto de Pesquisa Judith Friedman Rosen do Middle East Forum.


 
 

1 thought on “Genocídio de cristãos atinge “patamar alarmante”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *