Chernobyl: o acidente como resultado

Matheus Bazzo*

“In a true tyranny, everyone lies about everything all the time. And that’s why it’s hell” — Jordan Peterson

 

A negação da realidade é uma bomba relógio prestes a explodir. A série Chernobyl da HBO revela mais sobre nossa atualidade como civilização e sobre a estrutura da realidade humana do que qualquer cientista social ou professor universitário jamais poderia. É uma obra-prima do universo das séries que não pode passar desapercebida aos olhos dos genuinamente curiosos e dos interessados por aquilo que sempre moveu o espírito humano e que hoje em dia está fora de moda: a Verdade.

O título da série poupa descrições genéricas, já sabemos do que se trata. Chernobyl foi criada, escrita e produzida por Craig Mazin, que também escreveu dois dos três filmes da sequência “Se Beber Não Case” (sim). Esqueçam qualquer estranhamento que uma transição da comédia hollywoodiana para o drama histórico poderia causar. Mazin é um mestre da arte da roteirização e tem um podcast sobre o assunto com mais de 300 programas gravados. Seu talento é indiscutível. Outra informação técnica interessante é que a trilha sonora foi toda gravada dentro de usinas nucleares. A trilha é propositalmente agoniante e, por isso, muito marcante. É uma assinatura da série. Na verdade, essa descrição técnica pouco importa: só o simbolismo importa e o veremos em seguida. Acrescento essa descrição pois ela é uma obrigação formal de toda crítica e, por mais que essa não seja minha profissão, não pretendo desprezar a prática costumeira. Vamos ao que interessa.

A primeira coisa que precisamos saber sobre a série é que ela se passa em Pripyat, na Ucrânia, uma cidade desenvolvida pelo planejamento centralizado do governo soviético. A cidade foi criada para ser abrigo das famílias dos trabalhadores da usina nuclear de Chernobyl. Um paraíso na Terra para o imaginário socialista. Uma cidade concebida pelo Estado onde os trabalhadores vivem para alimentá-lo e promovê-lo. Não há igrejas. Chernobyl é o como a estrela do socialismo, o símbolo da perfeição da ideologia. É a inauguração do futuro da humanidade. Ao menos era até o núcleo da usina nuclear explodir, dizimando quase toda a vida no local, seja ela humana, animal ou vegetal. A magnitude da catástrofe ultrapassa a fronteira da cidade e até hoje não se sabe quantas mortes foram causadas pela explosão do núcleo da usina. Os casos de mortes por câncer aumentaram substancialmente em toda Ucrânia e também em países vizinhos. A estrela soviética inverte-se e o pentagrama invertido revela a verdadeira inspiração das ideologias modernas. O acidente não foi um acidente. O acidente foi um resultado.

O acidente é a quebra do controle planejado. O sistema de usinas nucleares era motivo de orgulho para os soviéticos. Com mais usinas do que qualquer outro país, seus sistema de energia nuclear representava a suposta perfeição do socialismo. A explosão do reator da usina vem inaugurar a queda dessa narrativa. Hoje se sabe que o regime é medalhista em genocídio, sendo responsável pelo assassinato de mais de 100 milhões de pessoas em um espaço de menos de 100 anos. Recordista mundial em mortes, mesmo que sejam somadas todas as guerras, doenças e catástrofes da humanidade, ainda assim não chegaremos ao número de pessoas assassinadas sob os regimes socialistas. A Ucrânia ainda foi especialmente selecionada pelos soviéticos. O documentário “The Soviet Story” (2008) mostra que muitos oficiais do regime soviético viam o povo ucraniano como inferior e por isso estigmatizavam o país com seus experimentos sociais mais macabros. Foi nesse país que aconteceu o Holodomor, a maior crise de fome da história da humanidade, com quatro milhões de mortos em menos de três anos. A esses desastres, soma-se a explosão de Chernobyl.

Porém, do ponto de vista simbólico, Chernobyl nos chama mais atenção do que Holodomor. O próprio Mikhail Gorbatchov reconheceu isso quando afirmou que o acidente da usina foi provavelmente a maior razão para a destituição do sistema soviético (o que não quer dizer a destituição do sistema socialista). Por que isso seria verdade? Pelo poder simbólico. Holodomor não foi motivo de propaganda. Chernobyl foi. A usina representava a perfeição do sistema soviético e a explosão do seu reator foi como a voz da realidade gritando contra as elucubrações da mentalidade revolucionária. O acidente provou que a ideologia é um castelo de cartas e quanto mais ela se desenvolve, mais estrondosa é sua queda. “Nosso poder vem da percepção do nosso poder” diz o personagem de Gorbatchev na série. O poder de uma ideologia é o poder das aparências. Ao passo que o poder da verdade é o poder em si mesmo. É um poder que não pode ser teatralizado. Como a força de uma usina nuclear que não pode ser mimetizada por nenhuma outra fonte de energia. É o olho do sol.

A série narra com profundidade história de Chernobyl, mostrando como o acidente da usina foi resultado de uma série de mentiras escalares. Os operadores da sala de controle mentiram uns aos outros, aceitando a autoridade inconveniente do seu carrasco Anatoly Dyatlov, os superiores de Dyatlov mentiram no cronograma de testes da usina e, por fim, toda a concepção do projeto de usinas nucleares soviético era uma grande mentira. As usinas foram desenvolvidas de maneira insegura, sem possibilidade de desligar os reatores. Os cientistas responsáveis mentiram diante de toda comunidade científica internacional e por isso conseguiram aprovação para realização do seu projeto. É como a inversão dos arcos de uma catedral, que começam imensos e vão se reduzindo um após o outro na medida que a parede da igreja sobe verticalmente. As mentiras vão do microcosmo ao macrocosmo do sistema socialista. Seu resultado é a explosão do núcleo da usina. Valery Legasvo, personagem principal da série, magistralmente interpretado por Jared Harris, foi um dos responsáveis pela mentira do projeto de usinas nucleares. Provavelmente movido pela culpa, também foi ele o responsável por investigar e reparar os danos em Chernobyl.

Chernobyl prova que o simplório caminho bidirecional entre a verdade e a mentira, tão bem defendido pelos nossos avós, nunca deixou de existir. Um homem diante desses dois caminhos tem não mais do que duas opções: aceitar ou se sacrificar. A aceitação levará também ao sacrifício inevitável — todos morreremos. Não há segunda opção. Já o sacrifício nos leva ao sofrimento consciente e, por assim dizer, amoroso. O sacrifício que optamos e carregamos como uma cruz. Esse é outro mérito da série. Ela prova que a única maneira de se salvar é aceitando o drama da realidade que grita a partir de seu núcleo. Valery Legasov e Stellan Skargard, Vice-Primeiro Ministro da União Soviética, foram os primeiros a aceitar a realidade da explosão e o inevitável adiantamento de suas mortes pelo contato com a radioatividade. Isso também nos prova que o poder de ação efetivo parte somente daqueles que estão preocupados com a Verdade ou com o valor das vidas humanas.

“Você já trabalhou com mineiros? Meu conselho: diga a verdade. Esses homens trabalham no escuro. Eles veem tudo.” — fala de Stellan Skargard na série.

As representações simbólicas na série são incansáveis. Em dado momento a série narra a heroica ação dos mineiros que escavaram o solo da usina e construíram uma estrutura que freou a ação radioativa do núcleo. Essa estrutura impediu que o núcleo derretesse o solo e chegasse ao lençol freático, o que poderia contaminar toda água do continente europeu. Os únicos capazes de estabilizar a ação mortal do núcleo são os mineiros, os homens que habitam no escuro e que não suportam a mentira. A série mostra bem como esses homens se importam com a vida uns dos outros e procuram a verdade em cada uma de suas palavras. São também os homens com força para o trabalho ilimitado. Os homens que não aceitam as mentiras oficiais das autoridades comunista. Eles podem se submeter à ordem das autoridades, mas jamais deixam a mentira entrar em suas consciências. O calor das escavações era tão grande que eles tiveram que trabalhar pelados para poder suportar. Isso não inibiu sua dignidade. Eles não têm vergonha de ficar nus em frente ao mundo e às suas autoridades. Na verdade, eles já estavam nus antes mesmo de tirarem suas roupas pois vivam pela verdade. Com isso entendemos que é necessário retornar ao núcleo do nosso ser para reestabelecer nossa centralidade. É necessário morrer para chegar ao núcleo da realidade e reestabilizá-lo. Não há estabilidade na periferia da verdade.

O fechamento da série se dá por um monólogo de Legasov. O diretor da série, Johan Renck, consegue manter nossa atenção boquiaberta durante a descrição do funcionamento de uma usina em um tribunal socialista, uma situação que facilmente nos faria cair no sono. Talvez por nunca usar plano fixo, sempre apresentando um leve movimento de câmera, talvez pelo cenário e pela direção de arte que ressaltam a precariedade da estética soviética, talvez pela nossa ansiedade para ouvir o julgamento final, tudo isso nos prende em uma tensão digna de um filme de Hitchcock. O texto final de Legasov beira a perfeição. Seu início é memorável: “Nossos segredos e mentiras são praticamente o que nos define. Quando a verdade ofende, nós mentimos e mentimos, até que não nos lembremos mais que ela existe, mas a verdade ainda existe. Cada mentira que contamos gera uma dívida com a verdade. Cedo ou tarde essa dívida deve ser paga.”

Craig Mazin é um roteirista consciente de sua arte. Não podemos nos dar o luxo de acreditar que ele escolheu as palavras que fecham sua obra sem dar a devida atenção. “Quando a verdade ofende, nós mentimos”. Mas a série prova que a mentira é impossível. A mentira é somente o atraso de uma cobrança inevitável da realidade. Toda verdade que hoje acreditamos ser ofensiva, toda pergunta inconveniente que deixamos de fazer, tudo é somente o atraso de uma revolta do Real. Como não pensar em nossa civilização que cada vez mais constrói suas instituições, sua linguagem, seus símbolos de poder baseado no politicamente correto e nas mentiras ideológicas?

Em uma das últimas cenas, vemos uma pintura em uma parede da uma velha escola que está representando uma mulher com um bebê no colo. A parede está descascada e a boca da mulher está em ruínas. É como um alerta sobre o silêncio e sobre nossa passividade destrutiva. E se nossa rendição ao politicamente correto, à linguagem ideologicamente viciada, aos termos marxistas de descrição da realidade, aos pronomes de gênero indefinido quando isso é algo ainda amplamente discutido pela ciência, pela psicologia e pela filosofia, enfim, a todos os termos que achamos inconvenientes e ofensivos a determinadas minorias, e se tudo isso é apenas uma nova maneira de negligenciar o núcleo do reator? O desleixo e a irresponsabilidade com nossa linguagem podem gerar uma implosão civilizacional da mesma magnitude nuclear de Chernobyl. E se esse processo for conscientemente orquestrado por aqueles que não conseguimos nomear por estarem demasiadamente escondidos nas estruturas de poder? Eu não tenho a resposta para essas perguntas, mas viver sem perguntá-las seria ceder espaço à mesma espiral de silêncio que causou a morte de milhares de pessoas em Chernobyl.

– O átomo nos torna mais humildes.

– Não, o átomo nos humilha.

(Diálogo da série)

O desenvolvimento narrativo da série presta um grande serviço ao nos colocar diante desses acontecimentos utilizando a arte cinematográfica para sensibilizar nosso olhar. Essa sensibilidade nos abre para as realidades simbólicas e metafísicas dos acontecimentos. A radioatividade, a usina nuclear, a explosão, Pripyat. Nada é por acaso. Vejam a relação entre a radioatividade e a Verdade transcendente. A verdade é aquilo que, apesar de invisível, não pode jamais deixar de ser visto a longo prazo. É aquilo que transpassa o tempo, a materialidade, as civilizações, as cidades, as vidas, a natureza, nossos corpos, nossas paredes, tal como urânio. Invisível e real. Real e mortal. Não seria um gigantesco simbolismo natural que um elemento invisível seja também o mais poderoso e mais mortífero? Como a onisciência, onipresença e onipotência d’Aquele que nos criou.

O acidente da usina foi causado pela explosão de seu núcleo. Simbolicamente, o núcleo é a unidade de tudo. A concentração maciça do que é real. Sua explosão é uma revolta da realidade contra a trama de mentiras ideológicas. Não há luta de classes, não há ideologia de gêneros, não há opressores e oprimidos. Há o núcleo da realidade gritando pela nossa aceitação do inevitável: a finitude e a fragilidade da vida de cada ser humano. No corpo humano, a ação da radioatividade causa convulsões do sistema imunológico desde dentro, corroendo o corpo em seu núcleo celular. Quanto mais nos enganarmos, maior será o risco da nossa implosão. E quando a realidade se vinga — porque a realidade é vingativa — ela expõe toda sua brutalidade. Ela não nos deixa nu, ela nos deixa em carne viva.

Tudo isso é uma pista para compreendermos a misteriosa passagem do livro Cântico dos Cânticos das Escrituras:

“Quem é essa que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em batalhas?” – Cant 6‚ 8–10

Quem é essa aurora brilhante como o sol? Brilhante como o sol. Em menor escala, brilhante como o núcleo aberto de uma usina nuclear. Como uma chaga aberta expelindo o sangue luminoso em um corpo de escuridão mentirosa. É a realidade que nos fala. É a Verdade inegável, aquilo que é mais estruturante e ao mesmo tempo mais mortífero.

O registro oficial russo ainda aponta somente 31 mortos no acidente de Chernobyl.

 

(*) Diretor de Criação | Empreendendo e produzindo arte | Co-founder: @lumine.tv e @minhabibliotecacatolica | Escrevo quando baixa o santo.


 
 

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