Califado digital: a presença do terrorismo islâmico na internet no Brasil

A principal linha de investigação da Polícia Federal sobre o caso dos celulares invadidos do Ministro Sérgio Moro e procuradores federais envolve motivação ideológica, baseada na simpatia pelo terrorismo islâmico por parte dos hackers e dos jornalistas envolvidos. Tanto os irmãos Durov, donos do Telegram, que são muçulmanos, quanto os ativistas Edward Snowden e o jornalista Glenn Greenwald já manifestaram ódio a Israel e aos Estados Unidos (assim como ao Brasil) enquanto consideravam o terrorismo islâmico como um efeito “natural” da política externa desses países.

Parece que o Brasil entrou na lista, mas isso não é tão recente. Aparentemente, as ameaças ao governo brasileiro teriam começado quando o presidente Jair Bolsonaro anunciou a criação de um escritório comercial em Jerusalém, passo importante na direção do reconhecimento da cidade santa como capital de Israel. No início do ano, o anúncio provocou a ira de grupos radicais, que publicaram oficialmente ameaças ao Brasil. Mas esse fato não pode ser apontado como desencadeador exclusivo do risco de terrorismo ao Brasil, já que a Abin já vinha alertando para o risco terrorista ao país desde pelo menos 2015, o que culminou na Operação Hashtag, que desativou centenas de contas no Twitter, em 2017.

Na ocasião, a Polícia Federal, junto da Abin, investigaram “o processo de radicalização observado no Brasil sob a ótica de cinco camadas sobrepostas: comunidades, doutrinadores, defensores do pensamento radical, radicalizados
dispostos à ação e os já envolvidos na consecução de ações específicas”. O estudo deu origem ao documento O processo de radicalização e a ameaça terrorista no Brasil a partir da Operação Hashtag.

Em 2015, um texto escrito numa rede social por Maxime Hauchard, um dos chefões do Estado Islâmico, já anunciava: “Brasil, vocês são o nosso próximo alvo”, dizia a mensagem escrita em francês, publicada dias após os atentados de novembro de 2015 em Paris. No ano seguinte, a Abin alertou para o risco terrorista pouco antes dos Jogos Olímpicos de 2016. Em 2017, o Estado Islâmico criou um canal de propaganda em língua portuguesa dentro do aplicativo Telegram.

O Telegram acabou sendo a plataforma preferida pelo EI depois de uma série de emboscadas da polícia antiterror contra contas do Twitter. Os motivos disso foram as operações policiais. Em 2014, a polícia indiana havia um homem de 24 anos, supostamente responsável por operar uma conta do Twitter ligada ao grupo extremista a partir de Bangalore, centro de Tecnologia da Informação do país.

O jovem preso era Mehdi Masroor Biswas, acusado de angariar cerca de 20 mil seguidores para a conta do EI no Twitter. O uso das redes sociais havia ficado evidente naquela época, o que começou a fazer os grupos extremistas pensarem em ampliar a estratégia. Milhares de contas acabaram sendo desativadas.

Foi então que, no ano seguinte, a BBC News publicou uma reportagem que colocava o Telegram como o programa preferido do Estado Islâmico, um ano após o Estado Islâmico prometer uma verdadeira “jihad cibernética“. O crescimento do islamismo na internet e redes sociais tem relação com a crise de expansão do ISIS, que anseia a criação de um “califado digital”, cujo a principal meta é o recrutamento de estrangeiros imigrantes em diversos países do mundo.

O Ministro da Justiça Sérgio Moro e os procuradores federais que tiveram seus celulares invadidos utilizavam o mesmo aplicativo de mensagens, o Telegram, criado em 2013 pelos irmãos Durov.

Após as suspeitas da Polícia Federal, de que os ataques tenham relação com o radicalismo islâmico dos irmãos Durov, a presença de muçulmanos na internet pode ganhar atenção redobrada das autoridades. Pelo Telegram, os militantes não só divulgam suas ideias, mas também travam conversas secretas, negociam resgates de reféns sequestrados e planejam seus ataques, conforme reportagem da BBC.

Em 2018, em uma palestra na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, no Senado, o professor Henrique Cymerman Benarroch, licenciado pela Universidade de Tel Aviv, lembrou que o estado islâmico vem conseguindo utilizar a internet para cooptar milhares de jovens do mundo inteiro e essa herança pode ser utilizada no futuro por outros grupos jihadistas. Para Cymerman, a grande vitória dessa organização terrorista foi o chamado “califado digital”.

Além da Operação Hashtag, a PF e a Abin vêm monitorando a atividade terrorista e as relações de células brasileiras do ISIS através da Operação Àtila, que em 2018, que chegou a prender 11 pessoas por suspeitas de terrorismo no Rio de Janeiro, que frequentavam salas de oração islâmicas no Rio. Entre outras coisas, as investigações observam a movimentação das conversões nas periferias cariocas e sua relação com o radicalismo, porta para o terrorismo, que vem sendo cada vez maior. Além disso, conversões em penitenciárias brasileiras também vêm aumentando, o que causa preocupação. Em 2018, uma reportagem do jornal Estado de S. Paulo contou a história de Jhonathan Sentinelli Ramos, que a partir de uma cela no Complexo Penitenciário de Bangu, na zona metropolitana do Rio, comunicava-se com outros acusados de formar uma organização criminosa e promover o grupo terrorista Estado Islâmico no Brasil.

A plataforma do terror

Lá atrás, em 2014, os terroristas já planejavam criar um sistema protegido por software próprio de criptografia, para lançar ataques de hackers em massa contra os EUA e o Ocidente. A rede Fox News chegou a noticiar que grupos terroristas estavam usando as redes sociais para recrutar jovens. A novidade agora é a ampliação dessa estratégia para aplicativos de mensagens como o Telegram, que recrutam jovens sem oportunidades na vida, que vêm a chance de um sentido maior, o que a jihad parece oferecer. Mas o grande trunfo do terror tem sido o recrutamento de jovens com talentos especiais em tecnologia.

Muitos terroristas do Estado islâmico são jovens, ocidentais e altamente qualificados em tecnologia. Eles foram convencidos a entrar para uma guerra santa, utilizando recursos sofisticados e treinamento em tecnologia digital. Esses jihadistas vêm usando as redes sociais, principalmente Twitter e Facebook, para continuar recrutando uma nova geração de jovens.

O jornalista palestino Abdel Bari Atwan, numa investigação sobre a ascensão do EI, afirma que nenhum outro grupo terrorista jamais soube explorar a tecnologia com tanta eficácia quanto os jihadistas que levaram o horror a Paris em 13 de novembro de 2015, em que morreram mais de 180 pessoas. Nas redes, eles não apenas recrutam integrantes e divulgam sua barbárie, como têm vendido a imagem ilusória da guerra santa como se fosse um estilo de vida.

As estratégias mais comuns

Uma matéria do site Tecmundo destacou, em 2015, uma lista de seis principais estratégias utilizadas pelo Estado Islâmico na internet que, conforme poderemos ver, continuam a ser bem utilizadas.

1.Recrutamento por vídeo

O ISIS produz um material promocional em vídeo que tem qualidade de propaganda comparável com a de comerciais de TV. Os vídeos são direcionados para países específicos e distantes, como o Canadá, e miram especificamente em cada região. Músicas típicas são mescladas com paisagens turísticas e depoimentos de convocação, com sujeitos armados citando justiça e liberdade. Em outros clipes, membros do ISIS até aparecem dando doces pra crianças e conquistando a juventude.

2. Invadindo o Twitter

Até 2015, o Twitter foi a rede social favorita do Estado Islâmico, que passou a se interessar mais pelo Telegram. No entanto, o uso do Twitter ainda é grande e conta com um território já conquistado. Entre setembro e dezembro de 2014, 46 mil contas de apoio ao Estado Islâmico foram detectadas. Árabe e inglês são os idiomas mais comuns dos perfis, que mandam cerca de 40 mensagens por dia. O tema é sempre frustração com o Ocidente, convocação para o grupo, deslumbramento para recrutas e comunicados oficiais.

3. Chat do Telegram

Para a comunicação direta, o app mais utilizado é o Telegram. São muitos os motivos para preferir ele ao WhatsApp: ele tem canais para maior divulgação de mensagens em massa, segurança por criptografia e recados que podem se autodestruir depois de um tempo. Assim como no Twitter, contas relacionadas já foram deletadas, mas o serviço ainda é bastante usado.

4. Mostrando execuções

Esta talvez seja a estratégia mais pública do ISIS — e, sem dúvidas, a mais chocante. Decapitações, fuzilamentos e tortura são divulgados com frequência pelo Estado Islâmico para confirmar a morte de reféns capturados em combate ou sequestrados em regiões do Oriente Médio. Além de chocarem e intimidarem opositores, as imagens mostram que o grupo não brinca em serviço e que está disposto a fazer qualquer coisa para punir quem considera culpado.

5. Moeda para o crime

Normalmente, a moeda digital bitcoin é usada pelos terroristas para receber doações. Essa forma de pagamento é segura por não revelar quem são os responsáveis pela transação ou a identidade de quem recebe o dinheiro. Por conta disso, contas virtuais do Estado Islâmico até já foram descobertas por hackers (algumas contendo mais de 3 milhões de dólares), mas o sistema continua ativo. O valor normalmente é gasto em passagens aéreas, armas e materiais para ataques terroristas.

6. Play Station 4

É isso mesmo. Videogames como o PS4 também tem sido usados pelos radicais para comunicação e recrutamento de jovens. Após os ataques em Paris, o ministro de assuntos interiores da Bélgica afirmou que o PlayStation 4 é uma das armas do grupo. O console é usado justamente por passar despercebido e não ser tão vigiado quanto o Facebook, por exemplo. Como ele pode ser usado? Pelos relatos, terroristas podem conversar por voz durante partidas online ou pelo sistema de recados entre amigos da PSN. Além disso, um jovem austríaco foi preso em maio de 2015 após entrar em contato com o ISIS e baixar via PS4 um esquema para fazer bombas caseiras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *