Brasil e China avançam agenda de longo prazo dos partidos PT e PC chinês

A aproximação entre Brasil e China vem do período militar, tendo iniciada em 1974, quando não se tinha qualquer dúvida sobre a natureza comunista do regime de Mao Tse Tung. Depois disso, algumas mudanças foram feitas no regime chinês e foi necessário ampliar as parcerias com a esquerda internacional, entre elas o PT. O Brasil se tornou, então, um aliado estratégico para “impulsionar a causa do socialismo com características chinesas”.

No mesmo ano em que Lula reconheceu a China como uma economia de mercado, em uma reunião em Brasília, o então presidente chinês Hu Jintao afirmou que esse importante passo iria estreitar uma parceria estratégica entre os dois países. Aquele foi o ano da criação da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN) e esses foram os fatos reportados pela grande mídia.

Mas paralelamente aos eventos oficiais, uma agenda que unia partidos a políticas de estado iria se implementando de maneira tão profunda que nem os governos seguintes teriam o poder de parar.

O ano de 2004 também foi o ano de assinatura do Protocolo de Cooperação entre PT e Partido Comunista Chinês. Era o auge de uma parceria que vinha dos anos 1980, como conta o documento intitulado Os chineses chegaram, publicado em 2010, pela Secretaria de Relações Internacionais do PT, que tinha entre seus membros o secretário executivo do Foro de São Paulo, Valter Pomar.

O documento explica a mudança de estratégia geopolítica do socialismo chinês, que a partir dos anos 1970 começou a observar a decadência do modelo revolucionário em vigor.

O esgotamento desse movimento massivo levou o PC chinês não só a reavaliar sua experiência revolucionária, mas também a retomar algumas teses caras a Marx, sobre a necessidade histórica de esgotar todas as possibilidades de desenvolvimento de uma formação social antes de passar completamente a uma nova formação social.

A China nunca se tornou um país capitalista. Afinal, seguindo as definições de Lênin, o que determina a natureza política de um regime é a composição de classe que detém o poder e não a natureza da base econômica. Os meios estratégicos de produção sempre estiveram sob controle do Estado. Este controle, junto do planejamento, assegura ao Partido as condições de controlar os efeitos espontâneos das leis econômicas. Portanto, o socialismo chinês utiliza as leis econômicas para a expansão do poder do Estado e do Partido.

O documento redigido pelo PT é bastante claro em enfatizar a importância estratégica dessa expansão chinesa para a implementação de uma “nova ordem internacional”, que culminaria com a criação do BRICs e a mudança de polos do poder global. O relatório mostra como a China conseguiu entrar no mercado internacional utilizando o “ilimitado suprimento de força de trabalho de baixa renda” de que dispunha para expandir produtos inicialmente de baixíssima qualidade e que caminhariam para uma escalada qualitativa de modo a equiparar-se aos países desenvolvidos.

A estratégia funcionou para seduzir empresas estrangeiras e governos liberais.

Mais cedo do que os próprios chineses pensavam, as corporações industriais desenvolvidas se deram conta de que apenas movendo suas plantas industriais e seus centros de pesquisa e desenvolvimento para a China elas poderiam manter sua competitividade e ganhar vantagens na competição de produtos BB (bons e baratos).

Em 2007, onze dirigentes do PT viajam à China a convite do PC Chinês para um “intercâmbio de informações”. O principal interesse dos petistas, segundo relataram ao Estadão na época, é aprender como organizar o partido, que enfrentava uma grave crise após o escândalo do Mensalão. Naquela época, o PT enfrentava na época o envelhecimento de seus militantes e queria saber como o PC Chinês estava angariando a adesão de mulheres e jovens, coisa que o PT só viu com o crescimento do PSOL, fundado em 2004.

A principal preocupação da viagem de 2007 era com a comunicação interna, dizia a matéria. “É um investimento político”, disse o secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, sobre a viagem que tinha um roteiro por Pequim, Xangai e várias outras cidades do chamado “comunismo pragmático” chinês.

O então dirigente do Foro de São Paulo e secretário de Relações Internacionais do PT, que também era candidato à presidência do PT pela “Articulação de Esquerda”, defendeu que a ida à China tinha dimensão estratégica. “Qualquer política externa séria tem de levar em consideração o papel dos chineses”, disse Pomar.

Em 2009, ocorre uma visita brasileira à China que foi noticiada apenas em seus aspectos econômicos, mas teve grande importância política. Houve um seminário de dois dias com textos apresentados previamente e um debate entre brasileiros e chineses do Partido, com a presença de líderes de departamentos acadêmicos e diretamente partidários. Essa reunião teve a presença de José Eduardo Cardozo, Valter Pomar, Joaquim Soriano, Romenio Pereira e Humberto Costa. O registro desse evento foi feito apenas no documento do PT, enquanto a agenda econômica da delegação brasileira apareceu, na imprensa, como parcialmente frustrada, o que indica que teve mais caráter político e estratégico do que propriamente econômico.

Em 2010, aconteceu o III Seminário Brasil-China, dentro do IV Congresso do PT, que teve o título: “Brasil e China: propostas para uma nova ordem internacional”. O evento não teve nenhuma repercussão na imprensa nacional, apenas o convite no site do próprio PT, com pouquíssimas informações. Pelos tópicos do evento, nota-se que as discussões foram integradas nos documentos dos congressos seguintes do PT. Às “Propostas da China para a nova ordem internacional” seguiu-se, ao final do evento, a “Consolidação da versão final do documento, que será apresentado ao IV Congresso do PT”.

Em 2011, a visita da então presidente Dilma Rousseff, teve como ponto principal a publicação de um Comunicado Conjunto, em que estabelecia parcerias nas áreas tecnológicas e de defesa. Na carta, enfatiza-se a parceria para o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em proseguimento às reuniões do COSBAN, firmado em 2004.

Os riscos da aproximação

Recentemente, a empresa Huawei anunciou o seu retorno ao Brasil, após o fracasso de uma parceria com a empresa paranaense Positivo. A empresa chinesa, que foi proibida de entrar nos EUA por suspeita de espionagem do governo chinês, afirmou estar, neste momento, estudando os hábitos de consumo dos brasileiros para definir a nova abordagem.

O governo brasileiro aproxima-se das parcerias com empresas de tecnologia chinesas que são controladas pelo Partido. Essa influência é tida como positiva pelos tradicionais defensores da aproximação chinesa com o Brasil nas últimas décadas. Para líderes da esquerda, o controle do PC Chinês sobre as empresas é visto como positivo e salutar para uma economia que pretende seguir agendas de longo prazo e não ser refém das flutuações subjetivas do mercado.

Mesmo antes da preocupação dos EUA com a segurança da tecnologia da Huawei, instituições e empresas norte-americanas já demonstravam temor diante dos perigos que a tecnologia 5G podem oferecer à segurança nacional. Além dos perigos de espionagem, fruto de vínculos entre a Huawei e o Partido Comunista chinês, há também o risco para a segurança de operações militares.

Em 27 de março, a Marinha dos EUA publicou relatório enviado à Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), no qual alertava para velocidade da implementação do 5G no país. O documento, baseado em estudos prévios da Nasa e da Agência Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), adverte sobre a degradação que os sistemas de previsão meteorológica podem sofrer se o desenvolvimento da tecnologia 5G não for adequadamente regulado.

Essa degradação pode influenciar perigosamente o monitoramento de áreas pelas forças militares navais e aéreas que dependem de prognósticos climáticos para serem realizadas de modo seguro. A tecnologia de comunicação 5G poderia interferir diretamente no tipo de banda usado para medir o vapor da água, “necessário para obter parâmetros seguros de precipitações, como neve, gelo, chuva e altura das ondas”, afirma o memorando da Marinha.

Essa influência prejudicaria não apenas a segurança de voos militares, mas também o planejamento estratégico e de operações nos campos de batalha.

Para o jornalista Alexander Busch, correspondente internacional e especialista em conjuntura política global, a China sabe muito sobre o Brasil, mas o contrário não acontece. Busch chama a atenção para o desconhecimento dos brasileiros, especialmente no Itamaraty, sobre a visão estratégica da China.

A China segue uma estratégia: suas empresas investem diretamente no DNA industrial do Brasil. Quem controla as redes de energia, as rodovias, as ferrovias e talvez logo também as redes de telefonia terá uma vantagem enorme como investidor quando chegar a hora da digitalização e transmissão de dados no Brasil. A imponente presença da China, como nova potência mundial, preenche o vazio cada vez maior deixado pelos Estados Unidos.

Mas, à parte alguns especialistas, quase ninguém percebe isso no Brasil. E parece que também ninguém se importa. De um modo geral, os conhecimentos sobre a China no Brasil são ínfimos diante do fato de que o país se tornou seu principal parceiro comercial e investidor.

Isso vale para os formadores de opinião na mídia, para os políticos e para o setor privado e também para as autoridades. Pouquíssimos empresários, diretores e diplomatas conhecem a China, viveram por lá ou falam chinês. A imprensa não tem nenhum correspondente por lá. No Ministério do Exterior, os especialistas em China podem ser contados nos dedos de uma mão. Pode-se aprender chinês em vários lugares do Brasil, mas a procura é baixa.

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