Muitas regras para a vida

As 12 regras para a vida Jordan Peterson

As regras de 12 Regras para a vida, de Jordan Peterson, são, em verdade, símbolos, coisas que significam o que significam e também outras coisas. Como todo símbolo, são poderosas sínteses, cada uma delas condensando numa formula iluminante que a memória guarda sem esforço o que são em verdade muitas orientações. As 12 regras são, pois, pelo menos umas 40, assim como as 12 casas do zodíaco, para o olhar atento, significam bem mais do que aquilo que significam.

A primeira regra, “fique ereto, com os ombros para trás”, vai ainda além, recomendando a adoção de uma postura corporal que simboliza a adoção de uma postura existencial. Partindo de uma anedota da própria infância, perscrutando a simbologia do taoísmo, detendo-se nas sutilezas do processo de seleção natural, tomando de exemplo figuras como Noé e Moisés, mas também velhinhas agorafóbicas e soldados com transtorno de estresse pós-traumático e, por fim, dando um close-up no comportamento competitivo das lagostas, Peterson mostra as inúmeras inter-relações entre a neurofisiologia humana, as posições hierárquicas ocupadas na sociedade, os transtornos psicológicos, as diferenças de comportamento entre pobres e ricos, a suscetibilidade a doenças e traumas, o desenvolvimento de sociedades tirânicas e – por fim mas não por menos – a postura corporal.

Uma das conclusões a que chega, sem dúvida eco das ideias de seu mestre Jung sobre o lado sombrio da personalidade, precisa ser assimilada por todos os brasileiros, acostumados que são a associar a bondade a uma espécie de retardo mental leve acompanhado de ingenuidade infantil e total despreparo para vida: “Há muito pouca diferença entre o poder de causar caos e destruição, integrado, e força de caráter.” Em suma: Ser bom é bem diferente de não causar mal a ninguém só por incapacidade ou medo; ser bom de verdade é ter ampla capacidade para fazer o mal e escolher fazer o bem. Pois uma vez que a ação do mal no mundo é incontestável, uma bondade fraca será esmagada por ele. Em última análise, portanto, não será bondade de maneira alguma. Dito de outro modo: “Não julgueis que vim trazer paz à terra; não vim trazer-lhe paz, mas espada.” (Mateus, 10:34)

Assim, Peterson instiga o leitor a assumir o próprio lugar no topo da hierarquia humana. “O próprio lugar no topo da hierarquia humana” seria um iate com 30 panicats? Não, este é apenas o topo da própria mediocridade. Assumir o próprio lugar no topo da hierarquia humana significa “construir a arca que protege o mundo do dilúvio, guiar seu povo pelo deserto depois da libertação da tirania, abrir caminho por entre o conforto do lar e do campo e enunciar a palavra profética àqueles que ignoram as viúvas e as crianças.

Em outras palavras, e novamente para escândalo da brasileirinha e do brasileirinho, o lugar mais alto é o lugar das maiores responsabilidades. A primeira pedra da ascensão é assumir aquelas responsabilidades que, embora pequeninas, são as nossas: para conduzir os hebreus pelo deserto é preciso, antes, saber conduzir o copo sujo à pia. A simples mudança de postura com relação às próprias obrigações, a atitude de encará-las como tarefas que nos propomos por um ato de vontade livre porque são boas, e não como um fardo pesado que outros nos forçam a carregar, desencadeia em nós alterações neuroquímicas que terminam por nos libertar do ciclo diabólico do fracasso, no qual as derrotas geram ansiedade e depressão, que geram escolhas ruins, que geram mais derrotas, que geram mais ansiedade e depressão.

Ora, toda responsabilidade é um dever; quem tem deveres tem também direitos. O profeta protege, mas o profeta também ordena. O ato complementar ao de assumir as próprias responsabilidades é o de exigir os próprios direitos (a tradução do trecho é minha):

“Diga o que pensa. Expresse seus desejos, como se tivesse direito a eles—no mínimo o mesmo direito que os outros. Ande com o peito estufado e olhe longe. Ouse ser perigoso. Estimule o fluxo abundante de serotonina pelas suas vias neuronais, desesperadas para obter o efeito calmante que ela produz. … As pessoas, inclusive você mesmo, começarão a pressupor que você é competente e capaz (ou pelo menos não concluirão instantaneamente o oposto). Encorajado pelas respostas positivas que receber, você se tornará menos ansioso, o que aumentará a probabilidade de que conheça pessoas, interaja com elas e as impressione. Fazê-lo não apenas aumentará de fato a probabilidade de que boas coisas lhe aconteçam—também fará com que elas sejam melhores quando acontecerem.

Forte e corajoso assim, pode ser que você escolha abraçar o Ser e se esforce para ampliá-lo e melhorá-lo. Assim forte, pode ser que você aguente o tranco mesmo na doença da pessoa amada, mesmo na morte de um pai ou de uma mãe, e permita aos outros encontrar força na sua força em vez de ser esmagados pelo desespero, como seriam sem isso. Assim corajoso, você embarcará na jornada da sua vida, iluminando com o brilho da própria luz, por assim dizer, as montanhas divinas, e realizará o destino que lhe é de direito. Então pode ser que o sentido da sua vida baste para afastar a influência corruptora do desespero mortal.

Então pode ser que você consiga aceitar o fardo terrível do Mundo e encontrar alegria.

Inspire-se na lagosta vitoriosa, com seus 350 milhões de anos de sabedoria prática. Fique ereto, com os ombros para trás.”

Traduzindo em termos contemporâneos um corpo de conhecimentos que abrange tanto os grandes textos religiosos quanto o melhor da filosofia clássica, Peterson estimula o leitor a ser forte para poder ser bom, ensinando-lhe como fazê-lo a partir de gestos com a simplicidade e a facilidade de uma correção de postura corporal. Para ser bom é preciso ser forte; para ser forte é preciso vencer; para vencer é preciso lutar; quem luta assume posição de combate; assumi-la é o primeiro passo da jornada da vitória: Fique ereto, com os ombros para trás. E isso é só a primeira regra.

Quem não percebe que Jordan Peterson é uma das maiores inteligências vivas não o leu ou não entendeu. Que fizeram, diante disso, os resenhistas? Encontrei uma, representante fidedigna do conjunto, que depois de ler a primeira regra só conseguiu concluir que deveria passar o dia sem dobrar a coluna. É aquela junção de desonestidade, burrice e incultura sem a qual a crítica cultural contemporânea seria impossível.

5 thoughts on “Muitas regras para a vida

  1. Qualquer ser humano deve ler 3 livros: 12 Regras para a Vida; Em busca de Sentido; e a primeira parte de A Mente Esquerdista. Essas leituras bastam para que toda pessoa conheça o sentido real da palavra evolução, de como as escolhas importam e como elas importam a partir das razões e circunstâncias pelas quais foram tomadas. Ser plenamente capaz de fazer o mal e escolher fazer o bem, frase citada no artigo, representa essa ideia magistralmente.

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