Mais um capítulo da Revolução Francesa

Anualmente, os franceses saem às ruas para comemorar a Queda da Bastilha e o início da Revolução Francesa. Essa é a revolução que prometeu a liberdade, a igualdade e a fraternidade, mas nos deu em seus primeiros anos 40.000 mortos; é a revolução da libertação do homem, mas foi o pontapé inicial para que se banalizasse o morticínio político. É a revolução que concretizou, por fim, a hipóstase dos ideais imanentes do homem como o ponto alto do universo, chutando para longe a realidade da fé, da religião católica e o delicado balanço social do regime monárquico.

Sabemos o que aconteceu depois. Houve Napoleão e um século de instabilidade social. E houve o nazismo e o governo Vichy. Claro, houve o retorno do Catolicismo à França, mas àquela altura o estrago estava feito. O espírito da modernidade já havia cravado as unhas como peça legítima do pensamento humano e para muitos o legado de um milênio de Cristianismo na França não era mais que “belas obras de arte”. Já não havia mais a vivificação da fé. E o que não é vivificado, a longo prazo, perde significado e valor: se enrijece e se esfacela. Notre-Dame? Chartres? Ah! grandes edifícios medievais! Ícones da arquitetura gótica! Relíquias dum tempo de obscurantismo persecutório.

Em tempos civilizados, como na Idade Média, jamais se pensaria por um minuto que uma igreja, uma capela, um templo qualquer, independente da religião aí praticada, seria simplesmente “bonito”. Reduzir uma obra de arquitetura ou um quadro de arte sacra à sensação estética que ele produz — sendo que estética, em grego, não significa nada além de “sensação superficial” — é uma idéia impressionantemente ridícula.

Ora, aqui na taba e lá na metrópole parisiense se chora sobre as cinzas da Catedral de Nossa Senhora de Paris porque as chamas levaram um belo cartão-postal. Que eu saiba, essa devia ser a preocupação número 397. Mas vejo, na imprensa daqui e de lá — e de quase todos os lugares — que se lamenta somente o fim duma grande obra de arte da Idade Média, uma obra-prima do gótico. Esquece-se de se lamentar que um ícone da fé de um povo, das produções mais altas do espírito humano, que um dado indelével da cultura francesa — a cultura, o país, o povo que produziu santa Joana Darc, são João Maria Vianney, são Luís IX, santa Teresinha do Menino Jesus — sofreu um golpe duríssimo. Posto nesse prisma, — que é a perspectiva verdadeira das coisas, pois o que realmente interessa na vida é aquilo que vem do espírito — posto nesse prisma, percebemos o quão horrível é o que aconteceu em Paris. Porém, essa perspectiva não é levada em conta. O que é levado em conta é que um dado cultural se foi, e nós, a sociedade contemporânea, lamentamos muito.

Bom, eu não levo isso em conta. O que eu levo em conta é que o incêndio da catedral de Notre-Dame é mais um capítulo da Revolução Francesa, que — como dom Marcel Lefebvre, um dos salvadores da Igreja na ressaca do Concílio Vaticano II, sempre lembrava — vive retornando para nos assombrar. A religião do homem, um ser de memória abreviada, levou consigo e pôs a baixo um símbolo visível de uma das já poucas raízes que ordenam objetivamente o sentido da nossa vida: a religião. Enquanto ninguém pará-la, enquanto ninguém por termo à Revolução Francesa, podem apostar: não haverá saída. Só o que pode deter o espírito do mundo é aquele espírito tradicional e realista que apenas a religião consegue dar. E enquanto ninguém aceitar essa realidade, parar com a ilusão que se trata de obscurantismo e voltar ao reino de Deus, Baal e suas chamas só tendem a crescer.


 
 

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