Democracia em vertigem – O cinismo e a facada inexistente

bolsonaro

Juliana Gurgel

O filme ‘The Edge of Democracy’ é apresentado como um documentário. Para quem vive no Brasil, ou acompanha a veracidade dos acontecimentos, ele deveria ser catalogado como ‘discretamente baseado em fatos reais’.

Antes de assistir ao filme, fui pesquisar sobre o realizador da obra.

A responsável é a diretora, escritora e produtora do filme, Petra Costa, neta de um dos fundadores da empreiteira Andrade Gutierrez, uma das empresas associadas ao esquema de corrupção (alguns falam em Cartel) e envolvidos na Operação Lava Jato. Eu estava ansiosa com The Edge of Democracy. Afinal, filmes como os excelentes ‘O Jardim das Aflições’, ‘Bonifácio – O Inventor do Brasil’ e ‘Milagre’, não tiveram tamanha projeção da mídia (sendo até mesmo sabotados), logo, a dedução óbvia seria: ‘se estes três filmes, não tiveram atenção alguma, este ‘The Edge’, promovido com tanto afinco, deve ser uma grande obra”.

Sim, seria a dedução sensata, mas não estamos em uma época sensata.

O release divulgado, aborda a trajetória de Lula, desde o seu primeiro mandato, ao impeachment de Dilma, dois anos após ser reeleita. O filme não trata somente disso, fala sobre censura, ditadura, homofobia, políticos sexistas, justiça, injustiça, democracia, Occupy Wall Street (!) … É uma sopa de conceitos, nenhum deles devidamente trabalhado, mas todos utilizados como gatilhos de emoção.

Para finalizar, o filme culmina em 2018, na eleição de Bolsonaro, com um “pequeníssimo” detalhe, o filme não menciona, não faz alusão, não sugere, não há NADA relativo ao grandioso atentado à democracia nacional, a facada em Bolsonaro. O atentado perpetrado por um militante de esquerda, ao candidato que liderava todas as pesquisas, não teve espaço em The Edge.

O motivo pode ter sido a verossimilhança, afinal, como um militante de esquerda desempregado e bem articulado, pode ser defendido por advogados consagrados (com direito a jatinhos para locomoção), possuir celulares e laptops sem razão aparente, pagar todos os gastos com dinheiro e continuar a dizer que se solto, tentaria matar Bolsonaro novamente, como pode uma figura como esta, ser considerada um lobo solitário e ao final, inimputável? Realmente, ninguém acreditaria nisso.

Bom, isso é outra história, voltemos ao The Edge. O ponto é, como um filme que se apresenta como documentário deixa “passar” tal informação? Seria a obra digna de credibilidade?

Continuemos.

Para comentar algumas passagens do filme (não conseguirei me referir ao mesmo, como um documentário), vale antecipar que The Edge, é uma junção de imagens maniqueístas somadas a um apego emotivo do que se apregoa compor a ideologia esquerdista: amor, justiça e igualdade. Pura falácia.

Como resumo, cabe destacar que a condução da narrativa envolve 4 pontos: 1- Lula, Dilma e esquerdistas são puros, 2- Foram jogados na lama da política, 3) Lutaram contra os poderosos, e 4 – Foram punidos por isso. A estratégia de que Costa utiliza é batida, mas se usada com cautela (o que não ocorreu neste caso), eficaz. A diretora utiliza a própria voz em off e vai compartilhando ‘pequenas confidências’ sobre sua vida e sonhos; Diretas Já, Brasil e Brasília, fala sobre seus pais, posta fotos de sua infância, e assim vai apresentando os acontecimentos políticos de modo a estabelecer uma relação com o espectador; até o ponto em que nos tornamos cúmplices da forma distorcida com que ela traduz o mundo.

Como espectadores, temos duas opções: parar de ver o filme ou assistir mantendo a prontidão contra a manipulação pretendida. Não há uma terceira opção. O filme não é uma obra de arte. Portanto, não pode ser fruída e apreciada. É uma obra militante, de propaganda esquerdista.

Ao primeiro contato com The Edge, vemos Lula discursar em um palanque, os closes capturam militantes eufóricos, a sensação é a de que estão diante de um messias, há frenesi, gritos, aplausos e lágrimas. A cena é apoteótica. Ao fundo, sobrepondo-se à imagem, ouvimos a divulgação de que Moro emitiu o mandado de prisão a Lula. Vejam que capcioso: o agente ativo é o Moro. Ele que mandou prender o Lula, um personagem passivo, que nada fez para que recebesse tal pena.

Em outro ponto, os militantes de esquerda, sempre de vermelho, bradam, de forma apaixonada, que Lula não será entregue e que eles (no caso, sindicalistas) o protegerão; após um corte seco, somos apresentados à outra ‘face’ dos brasileiros. Pessoas de camiseta verde e amarela, em tom indignado gritam, ‘Lula, ladrão, o seu Lugar é na prisão’. A forma como a cena é apresentada evidencia a percepção de Costa perante a maioria dos brasileiros: o povo de verde amarelo é visto como extremista e conduzido por forças que não sabe de onde vêm. São alienados; já os sindicalistas de vermelho, pagos a cada manifestação, são considerados o legítimo povo, conscientes e guerreiros.

Após ouvirmos o discurso de Lula, vamos a Dilma. Como sua fala errática era motivo de constrangimento, a diretora preferiu utilizar outro recurso para introduzi-la. Dilma aparece em vários momentos sozinha e com a câmera acompanhando-a por trás, sugerindo, assim, sua grandiosidade. Estamos sempre aquém de sua presença. Ela é inalcançável. Após tamanha construção, com recursos de câmera e som, tal figura fica distante da protagonista de destemperados episódios de bastidores, como o ‘episódio da camareira’, onde, diz a lenda, a ex-presidente teria arremessado cabides contra a funcionária.

The Edge of Democracy’, apesar de ser contra o Impeachment, não chega a alegar que a ação legitimou, em si, um governo ilegal. Em uma democracia, se os votos são apurados em privado, como saber quem ganhou? A premissa é ilegal na raiz. Mas sigamos. Vamos abstrair este dado como o país inteiro fez.

Os registros utilizados são recentes, as imagens das eleições e impeachment foram veiculadas em todas as emissoras do país.

Antes da votação, Costa apresenta uma série de imagens e vídeos da chamada Bancada da Bíblia em que eles estão rezando. O sub-texto das cenas religiosas é evocar o obscurantismo, algo reforçado em outro ponto do filme, em uma menção à “bancada Bíblia, boi e bala”, (referência aos evangélicos, à agropecuária e aos armamentistas). Tais informações são lançadas como em um acelerado videoclipe, juntando a trilha sonora descompassada, a diretora poderia ter criado um Koyaanisqatsi político, bastava tirar a narração.

No processo de votação do Impeachment, somos levados ao Palácio da Alvorada. Dilma está cercada de correligionários e Lula. Quando sai o resultado (em uma criativa manobra em que ela sofre o impeachment mas não perde os direitos políticos), Lula a abraça e diz ser tudo uma grande injustiça – não consegui identificar o que prevaleceu naquele gesto, se uma solidariedade genuína ou a satisfação por ser ela e não ele naquele processo.

Ainda durante o Impeachment, nos deparamos com algumas imagens nonsenses, como quando Dilma vai ao congresso se defender, e em determinado ponto, há um dramático close de Chico Buarque (?!?!). Aquilo não ‘ornava’, a intenção era criar uma empatia em relação a Dilma? Era mostrar como pessoas apegadas ao passado tornam-se espectros tristes de si mesmos? Era parte do merchandising? Jamais saberemos.

O The Edge of Democracy não se propôs, em momento algum, ser isento. Ainda assim, após as cenas do Impeachment, o filme, como uma peça de propaganda, se define. Imagens de Bolsonaro começam a aparecer, havendo, portanto, o reforço da narrativa ainda hoje defendida pela mídia: ‘conservadores são a extrema direita, são homofóbicos, racistas, intolerantes e fascistas’.

Como um filme tão lugar comum e superficial como este ganha projeção? Qual o intuito de sua criação? Se fosse “apenas” para a diretora se expressar, ocuparia este espaço na mídia? A resposta está no desfecho do filme, nele é que temos a resposta e a razão de existir do The Edge. Filmes assim tem a missão de apagar o sentimento de identidade que está reaparecendo no Brasil. É um material de confusão, mostra imagens que aconteceram, com narrativas inverídicas, visando reconstruir a história. Algo como acontece no atual e necessário livro 1984, de George Orwell.

O final é arrogante e apelativo. Após duas horas de propaganda esquerdista, The Edge of Democracy apresenta Moro e Bolsonaro como sedentos de poder, unidos em uma trama na qual Moro prende Lula e tira Dilma da frente para que então Bolsonaro possa governar o país.

Transcrevo o Grand finale:

“Judge Sérgio Moro is named Bolsonaro´s Justice Minister”

“Lula remains in prision”.

Lamentável.

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