Sorrowing old man. Van Gogh, 1890, óleo sobre tela, 81 x 65 cm

Tudo começou com uma coceira insistente na perna direita do homem. Coçava muito, num mesmo ponto, na parte interna da coxa, sob o rígido jeans do uniforme da fábrica. Mas ele trabalhou e esqueceu.

À noite, voltou para casa com a bendita coceira. Entrou na sua kitnet bagunçada, cheirando roupa suja e mofo, tomou um banho rápido, morno, com água escassa, sorveu um gole de cachaça, beliscou uma coxa de frango que madrugara fora da geladeira e dormiu.

Acordou com dor no local. Uma dor lancinante, aguda, penetrante, num só ponto. Não havia como ignorá-la. Mas ele trabalhou aquele dia na fábrica, com o mesmo jeans grosso roçando a ferida o dia todo. “É um maldito pelo encravado, mais tarde dou um jeito”.

Chegou novamente em seu apartamento lúgubre, sentou-se na cama bagunçada e foi inspecionar o pelo. Só havia ali um grande abcesso muito vermelho, quente, pulsante, que inchava toda a região e impedia um simples toque. O homem arrastou-se até o banho, comeu um pedaço de pão seco, sorveu dois longos goles de cachaça e dormiu.

Acordou febril. A perna havia aumentado, o abcesso ardia, a dor era pungente, insuportável. Mas ele colocou seu jeans grosso, contorcendo-se, e foi trabalhar. “Hoje acabo com esse pelo desgraçado”.

Chegou em casa naquela noite suando, variando de febre, tremendo de dor. Subiu as escadas com muita dificuldade. Não havia vizinhos para ajudá-lo nesse prédio antigo do Centro e o porteiro estava entretido demais com o futebol para notar seu padecimento.

Entrou em casa, sentou-se na cama e achou melhor posição para examinar o pelo. Aproximou-se da luz e fez menção de espremer o abcesso. Porém, ao tocá-lo, urrou de dor. A inflamação já estava aguda, forrada por uma superfície de pus muito amarelo. “Droga! Eu preciso espremer esse maldito pelo… coragem, homem”. Trisou e berrou de novo, mais alto.

Não teve forças para o banho. Sorveu os últimos goles da cachaça que descansava sobre um volume fechado da Bíblia, no criado-mudo, e deitou-se com dificuldade. Estava ardendo em febre, alucinado pela dor, gotejando de suor.

“Vamos, homem, reaja, esprema esse maldito caroço… deixa de ser frouxo… é só um pelo…”

Caiu no sono.

Então, com grande susto, o homem viu irromper no seu quarto uma bela enfermeira de traços nipônicos com uma longa agulha em riste. A mulher, ele reconheceu, malgrado a vista embaçada pela dor, a febre e o álcool, era sua atriz pornô predileta. Ele piscou freneticamente os olhos, incrédulo, mas era, mesmo, sua atriz predileta. Nisso não havia dúvidas.

Ela foi se aproximando do homem, sem dizer palavra – com a agulha bem fininha em riste. E o homem tentava se esquivar, pois temia o jeito esquisito da mulher, mas não conseguia. Quis pedir socorro, mas não tinha domínio sobre o corpo, estava hirto, paralisado, incapaz.

Daí, de um golpe, a enfermeira avançou, travou o corpo febril do homem com as coxas, tapou-lhe a boca e os olhos com uma mão e com a outra espetou-lhe, com força, bem em cima do abcesso latejante.

“Ai!!!”

O homem deu um grito de desespero e acordou ofegante. O quarto estava vazio e sua perna vazando pus e sangue. A dor havia aliviado. O abcesso havia rompido.

O homem, recuperando parte da razão, limpou-se com o lençol, terminou de drenar o abcesso e procurou mais da cachaça, mas a garrafa rolava no chão, vazia. Conformou-se, olhou mais uma vez o quarto e o abscesso murcho e caiu no sono.

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