O Santarrão e a Piriguete – Parte II

Obra de Alfredo Vieira, pintor brasileiro.

O Santarrão e a Piriguete

Parte II

 

I. A Confissão de Edilson

— Edilson, meu filho, venha cá, avia! – gritou dona Rute no quarto contíguo ao do jovem.

— Oi, vó, tá tudo bem? – perguntou o menino vindo em carreira achando que dona Rute passava mal.

— Meu filho, você não sabe. Parece que a Rebeca mais o bebê… morreram.

— Como assim, vó? – respondeu o rapaz, pálido.

— Não sei bem. Ela tava sumida e parece que acharam uma menina como ela amanhecida morta, lá na Cracolândia.

— Jesus, vó! Meu Deus! Não acredito!

Edilson foi para o seu quarto tremendo, gelado, com o coração saltando no peito. Para não cair duro, sentou-se em frente a sua cômoda, olhou com olhos mortos pela janela, voltou-se envergonhado para o crucifixo e caiu num choro desconsolado, abafado pelas mãos, debruçado num livro.

Não havia como esquivar-se do sentimento de culpa. Afinal, ele rezara, por muito tempo, com toda sua fé, para que Deus, a Virgem e todos os Santos, o livrassem daquela diaba que tanto o tentava e o fazia cair em pecado e a ideia de que fora ele o responsável por esse desfecho horrível martelava rítmica e constantemente em sua cabeça, o tempo todo.

Nessa mesma noite Edilson sonhou com Rebeca e com a criança. A piriguete, agora mais sóbria e mais modesta, amamentava sua filha – pois no sonho era uma menina – no banco de um jardim sossegado e bonito, defronte para uma casinha que lembrava construções de vilarejos europeus. Rebeca estava lívida amamentando o seu bebê, o acariciando e trocando com sua cria os mais ternos olhares. Daí Edilson entra em cena sorrateiramente, por detrás do banco, entre os arbustos do jardim, e, sem que mãe e bebê se apercebam, ele as ataca.

Edilson acordou assustado e dali para diante não quis mais saber de rezar, nem de espiar a janela, nem de ir à Missa, nem de ler seus livros, nem de comer. Deprimiu-se gravemente. Aceitou que merecia o inferno e passou a viver esperando com resignação a morte eterna, único fim que, segundo seu julgamento, podia aspirar depois de uma tal malvadeza. Sentia que não haveria mais ato na sua biografia que compensasse aquele crime. Ademais, estava certo de que Rebeca, tendo vivido e morrido no pecado, perdera a salvação da alma, alma esta que ele condenou sem jamais oferecer, uma vez que fosse, o caminho da redenção.

E Edilson não queria que ninguém soubesse desse seu pecado definitivo. Martirizava-se sozinho, trancafiado naquele quarto, negando solenemente as visitas da pobre avó Beata que, angustiada com aquela situação inédita e incompreensível, só fazia rezar pelo neto acompanhando missas e terços nos canais católicos da TV e bebendo as águas benzidas pelos sacerdotes via satélite.

Só que quando deram três semanas de exílio de Edilson, dona Rute, achando que ele morreria ali, resolveu agir. Depois de pedir energicamente, pela centésima vez, que o menino abrisse, e receber, novamente, uma negativa com grunhidos intraduzíveis, a velha resolveu socorrer-se da autoridade eclesial: chamou o padre da paróquia que seu neto frequentava para ver se esse homem de Deus, a quem Edilson tanto respeitava, teria melhores sucessos com o jovem.

— Ei, Edilson, aqui é o padre João. Vim de longe só para falar com você, menino. Abra aqui um minuto, vamos.

Edilson arregalou os olhos quando ouviu a voz do padre João, seu confessor. Esse homem de meia idade, cheio de vigor, com fama de caxias, mas que era na verdade doce e amigo, era uma das pessoas que Edilson mais gostava nesse mundo. Tinha todas as virtudes caras ao rapaz. Era bem versado nas coisas da igreja, pois estudara em Roma, era um exímio liturgista e rezava a missa de Pio V com rigor e beleza, e o que mais admirava Edilson, pois era justamente o que lhe faltava, era carismático, atraía jovens e velhos, era desembaraçado no trato com todo tipo de pessoas, pobres ou ricos, e sempre tinha uma enorme roda de crianças em  torno de si querendo servi-lo como coroinhas. Na sua paróquia e adjacências, até tomavam-no como santo. Vá lá que pudesse ser exagero bairrista, mas o certo é que era mesmo um sacerdote muito piedoso e uma alma extremamente bondosa.

— Vamos, menino. Tenho uma missa para rezar daqui duas horas e você mora longe pra chuchu. Eu não vou sair daqui sem falar com o senhor. E você sabe que eu nunca atraso minhas missas, não é? – disse o padre encostado na porta de Edilson ao lado da aflita dona Rute.

— Padre, desculpe, mas não tenho condições de ver o senhor… – respondeu o menino, com voz fraca, deitado em sua cama, no seu quarto todo escuro.

— Bom, você é quem sabe. Não vou sair daqui até que você me atenda e, bem, os fiéis das 18h ficarão sem missa. Saiba que será um grande pecado de sua parte, rapaz.

— Já cometi o pior dos pecados, padre…

Dona Rute ficou cismada com essa confissão e franziu o cenho olhando interrogativamente para o padre. Afinal, que raio de pecado teria cometido aquele mocinho inofensivo que só ia de casa para a escola, da escola para casa, de casa para a igreja e da igreja para casa?

O padre João, todavia, sabia os pecados de Edilson. Sabia do pecado carnal, das espiadelas na janela e sabia, sobretudo, de Rebeca, a piriguete por quem Edilson era apaixonado desde moleque. Aliás, só Deus e o padre sabiam disso, e quando dona Rute rogou ao padre que fosse ver o rapaz e ele ficou sabendo da morte de Rebeca, adivinhou que a causa daquele sofrimento era remorso por não ter tido coragem de evangelizar a piriguete, conforme planejara há tempos.

— Você não teve culpa de nada, Edilson – apelou o padre, para ver se estava no caminho certo.

— Eu a matei, padre, eu a matei – respondeu o rapaz, rebentando em prantos e fazendo os olhos de dona Rute estatelarem, suas pernas bambearem, suas vistas escurecerem e ela toda cair desmaiada.

Ao ouvir o estrondo da queda e a notícia do desmaio pela boca do padre, Edilson resolveu, enfim, sair de sua toca. Socorreu a avó, deitou-a já medicada e consciente em sua cama e foi trancar-se no quarto com o padre.

— Diga, meu filho, o que houve, que pecado tão grave você cometeu? – perguntou o padre, com jeito paternal e paciente, só que recebeu um duro silêncio como resposta do rapaz que não tinha mesmo coragem para levantar os olhos. – Bem, vamos tentar de novo, à moda antiga: estou aqui não como amigo, mas como confessor, ou seja, como Cristo. Ou você não crê mais?

— Creio…

— Então, confesse seus pecados.

— Não sou digno…

— Bom, pelo que eu sei você é conhecedor das Leis da Igreja, certo? Diga-me, meu filho, onde fica essa parte sobre quem é digno ou não de confessar e receber o perdão de Deus?

O rapaz ficou sem resposta.

— Não sabe, né? Na verdade, segundo os meus livros, isso que você está fazendo agora se chama orgulho. E isso dá inferno, sem recursos em nenhuma das instâncias celestes. É prisão perpétua, rapaz. Então, esqueça essa besteira que você disse e vamos de novo. Confesse seus pecados.

— Bom, antes tenho uma dúvida: Deus é capaz de fazer maldades, padre? – perguntou o rapaz, abruptamente, mudando o tom e as expressões, ficando como que desafiador.

— Não, Deus não faz maldades – respondeu o padre, de pronto, com muita segurança.

— E por que Deus a matou só para me punir? – retrucou Edilson.

— Como assim? Me explique melhor – disse o padre, já sabendo do que se tratava.

— Vou falar, padre, e vamos ver se o senhor tem coragem de negar que Deus tenha feito uma maldade para me punir. Padre, eu rezei, nos últimos anos, para que a Rebeca sumisse da minha vida, para que eu não a visse mais por essa janela, para não sentir mais desejos e para não pecar. Eu apelei a todas as orações, rezei com fé, com convicção. Achei que com isso, digo, sem ela no meu caminho, poderia ficar mais santo ou pelo menos que ia largar esse meu vício. Bem, o fato é que eu rezei e ela realmente desapareceu. E as coisas aconteceram depois que eu rezei. Ela engravidou daquele bandido, foi expulsa do Morro e caiu nas drogas, até morrer… Aliás, matei também a criança, que não tinha culpa de nada. Eu rezei e tudo isso aconteceu. E Deus sabia de tudo. Deus me puniu ou não, padre? Diga.

— Compreendo, meu filho, compreendo. Mas, se acalme e responda, você chegou a pedir que Deus matasse a menina? – redarguiu o padre, mantendo seu tom sereno e seu olhar acolhedor.

— Não. Mas desejei, do fundo do meu coração, que ela sumisse ou que se transformasse. Bom, ela sumiu, e eu desejei isso. Não especifiquei como gostaria que ela sumisse, ué. Mas o fato é que meu desejo se cumpriu.

— Vamos lá, meu filho. Você se acha mesmo muito especial, não é? Só porque você faz umas rezinhas e vai à missa, crê que tem o poder de mover os Céus e a Terra para matar uma menininha que mexia com seu baixo-ventre? Escuta só, Deus não faz o que você quer, nem para o bem, nem para o mal, e o universo não conspira em seu favor. Se essa menina morreu, da forma que eu soube, isso se deveu a uma série de fatores e escolhas que não lhe dizem respeito. Você não é poderoso assim. Você é muito menor que isso, é um pequenino. Veja, Edilson, você é um rapaz bom, é bom um cristão, mas Deus é infinitamente melhor que você. Se você não desejou a morte trágica da moça, quanto menos Deus a desejava, pois ela era Sua filha e Ele a amava como só Deus pode amar alguém. Mas, justamente por amá-la, ele fê-la livre para fazer o que fez e isso não tem nada a ver com suas orações. Você é menor que isso, compreende? E outra: quem lhe garante que essa moça não esteja, agorinha mesmo, no Céu, enquanto você está aqui me atrasando para a missa e cavando sua vaga no Inferno. Você não sabe muita coisa sobre Deus, rapaz. Fica vendo o mundo por essa janela e por esses livrinhos. Deus é melhor que esse legislador cósmico rabugento que povoa sua imaginação. Se a moça se arrependeu, está no Céu. E a criança certamente está lá. Veja só – e fez um gesto de ironia com as mãos e com o rosto – o rapazinho se achando um grande pecador porque rezou para que Deus lhe afastasse uma tentação. Vaidoso, orgulhoso! – voltou-se para o rapaz agora sério e bravo. Ora, pensar isso é que é pecado. Isso, sim, dá inferno!

Edilson emudeceu e desatinou a chorar, convulsivamente, nos ombros do padre. Chorou como criança, como nunca havia chorado antes.

— Bom, é isso, seu moleque. Levante essa cabeça e volte a ser agradável aos olhos de Deus. Agora, você precisa confessar, ou vai arder no fogo do Inferno. Você só estava se achando o tal, dizendo que Deus fez isso ou aquilo. Peça perdão e eu o perdoo. Mas, faça logo que tenho pressa.

O menino se recuperou do sobressalto, disse o ato de contrição, confessou seus pecados e recebeu a absolvição. Foi sua melhor confissão. Sentiu-se ressuscitado, como Lázaro. Dali para diante, não foi mais o mesmo Edilson.

 

II. A Viagem

Correram-se os anos depois dessa confissão. Edilson formou-se mesmo em filosofia, na Faculdade de São Bento, conforme desejava, e virou um bom professor. Pena que dona Rute não o vira dando aulas, ficaria muito orgulhosa, mas a doença a levara antes de o rapaz se formar. Quando dona Rute morreu, Edilson sentiu-se livre para sair do Morro Doce, mas resolvera ficar, pois, fez um voto de penitência, em memória de Rebeca, de quem ele sempre lembrava e pela alma de quem ele rezava todos os dias, e virou professor de filosofia no Rubão. Claro que os alunos o achavam meio esquisitão e, evidentemente, faziam piadas às escondidas – pois ele não mudara muito aquela aparência de nerd. Mas, no geral, o professor Edilson era respeitado, dava boas aulas, era paciente e mesmo tolerante. No fundo, viu-se vocacionado para aquilo, e isso cativava os alunos mais sensíveis. Inclusive, um aluno ou outro passou a achar que estudar filosofia não era tão chato assim e alguns chegavam até a pedir recomendações de livros, coisa que enchia o jovem professor Edilson de felicidade.

Quanto ao Morro, bem, o Morro seguiu na mesma. Ainda havia o tumulto, a feiura, o corre-corre dos moleques, o movimento do crime, o funk e as piriguetes. Quer dizer, seguiu quase na mesma, pois havia, também, o projeto de Literatura, Teatro e Música para jovens que Edilson instalou no Centro Comunitário do Morro – com o aval dos Chefões e tudo o mais. Claro que o projeto de Edilson não era unanimidade – a maioria dos jovens do Morro Doce ainda preferiam o velho funk e suas letras depravadas –, mas, dentro das possibilidades, era bem frequentado e, com o tempo, foi dando lá alguns frutos, poucos, mas bons, incluindo, veja só, uma apresentação de Antígona, de Sófocles, na praça do Morro Doce, e a formação de um coro, formado por duas dúzias de jovens do projeto, que cantavam o Glória, o Credo e o Salve Regina, aos domingos, na paróquia do Morro. E Edilson se enchia de felicidade.

E o projeto ganhou grande fama, tanto que, certa feita, esse nosso Edilson fora convidado para palestrar em São José do Rio Preto, para falar de filosofia, de cristianismo e contar um pouco sobre suas ações no Morro Doce. Isso foi uns sete anos depois daquela confissão.

Edilson pegou então seu carrinho velho recém adquirido, seu pois-é, como dizem, e se aventurou na rodovia dos Bandeirantes, numa madrugada de tempestade, pois precisava chegar muito cedo em São José do Rio Preto. E estava indo tudo bem, apesar do tempo medonho, dos trovões, do uivo dos ventos e dos motoristas imprudentes com seus faróis muito altos e sua pressa desmedida. Só que, numa dada altura, Edilson teve que pegar uma estradinha de terra, que dava para uns cantos ermos, circundado por matagal, com péssima iluminação. Então ele entrou na estradinha e como achou aquele caminho muito estranho e sinistro receou seguir. No entanto, não havia onde parar naquele fim de mundo, no meio da noite chuvosa, e o GPS insistia que aquele era o melhor caminho. Daí ele obedeceu e seguiu. E ia sacolejando pela estradinha, subindo e descendo aquele terreno acidentado, fazendo curvas difíceis, tangendo ribanceiras e encostas, serpenteando morros, e tudo com a pista péssima, fazendo o carro trepidar, e a chuva castigando, turvando sua visão.

“Meu Deus, que lugar é esse?”

Resolveu parar assim que achasse abrigo, mas a estradinha de terra, deserta e macabra, não terminava. Parecia que o levava cada vez mais para o escuro, para longe de tudo. E a chuva castigava, e nada de paragem, e o GPS insistia no caminho. Edilson rezava em silêncio. Sabia que corriam risco. Tomou o terço numa das mãos e rogou à Virgem que o protegesse. Foi quando teve que brecar bruscamente. Um animal entrara na pista e ele quase colidiu com o bicho. Era, segundo sua avaliação, um burrinho, assustado, provavelmente perdido de alguma família dos arrabaldes. Edilson por pouco não infartou com o susto, mas, vendo o animal inofensivo, respirou fundo e sossegou. O problema é que o burro empacou ali e, para piorar, o carro atolou na lama.

“É, definitivamente, não é meu dia de sorte. Bom, pelo menos há uma esperança. Se há um burrinho, é que deve ter uma casa perto. Quem sabe uma cidadezinha, ou vilarejo, e lá deve ter uma pousada. Mas com esse burro empacado, e essa roda atolada, não vai ter jeito. Acho que vou ter que passar a noite aqui e vou acabar me atrasando pra palestra”.

Ele esperou mais uns minutos. Gritou para o burro sair, jogou farol alto no animal que se manteve indiferente. Edilson, impaciente, acelerou o carro, mas as rodas só patinavam no mesmo lugar.

“Meu Deus, já são três da manhã”.

Conforme o rapaz foi aceitando o infortúnio e foi tentando se distrair fuçando no celular, a chuva foi abrandando e ele teve uma visão alentadora no horizonte já menos nublado. Num outeiro, há alguns metros dali, revelou-se o vulto do que parecia uma casa com lanternas ligadas no seu derredor. Edilson discutiu consigo mesmo sobre se era ou não uma casa – pois ora parecia, ora não – hesitou, mas, na pindaíba em que estava, achou que valia a pena investigar.

Daí agasalhou-se, deixou o carro na estrada, interditando todo um lado da estradinha de terra, se esquivou do burro teimoso, temendo um coice, e pegou a estrada lamacenta que parecia dar na casa, iluminando o caminho enlameado com a lanterna do smartphone.

Conforme foi se aproximando, o vulto foi mesmo se transformando numa casa grande, de apenas um andar, dessas de chácara. E estava mesma rodeada de lanternas dependuras no seu telhado caído. O caminho, não obstante, era mais longo do que ele julgara à olho e teve que andar, naquele brejo ladeado por mato virgem, uma boa soma de minutos.

Durante a travessia, Edilson teve uns calafrios de pavor. Tinha a impressão constante de que algo sairia daquele mato de onde vinham sons peçonhentos de grilos, sapos e cobras. Para um rapaz nascido e criado na cidade grande, e que quase nunca tivera experiência na natureza, aquilo, aquele negrume, aquela lama, com aqueles barulhos, tudo era aterrorizante. Ele seguiu todo o trajeto calado, rezando, e qual não foi o susto do rapaz quando sentiu que alguma coisa viva caminhava em seu encalço. Passou-lhe pela cabeça que fosse um lobo, um cachorro ou mesmo um ladrão. Ele então se contraiu, já esperando o bote, porém seguiu marchando, decidido a não olhar para trás. Qual não foi sua surpresa quando, depois de vencer quase todo o percurso, com o bicho na cola, foi ultrapassado por ninguém menos que o burro, que ia pelo mesmo caminho, em direção à casa.

“Deve ser animal deles. Só pode. Que folgado”.

Ao cabo de quinze minutos de difícil marcha, chegou ao local e descobriu que a casa, na verdade, era uma pousada, segundo informava uma placa de madeira dependurada por sobre uma larga porteira.

Eufórico com a descoberta daquela porto-seguro, Edilson teve que gritar algumas vezes e bater insistentes palmas para se fazer ouvir. Demorou uns cinco minutos até que dono da pousada, depois de acender a luz da sala e olhar pela janela, saiu de roupão e revólver na cintura para atendê-lo.

O estalajadeiro, de nome Paulo, parecia ser só um pouco mais velho que Edilson – que essa época somava vinte e cinco – e era um homem bem feito, vigoroso, que sugeria uma certa dureza e seriedade, mas não acusava sisudice nem ruindade. O homem fez Edilson entrar, deu-lhe uma toalha e um chinelo – pois Edilson estava pingando da chuva que ainda caía e com barro até os joelhos –, ofereceu-lhe um chá, mas o rapaz recusou agradecido, e, depois dos cuidados, entabulou conversa com o hóspede para se inteirar sobre que maus ventos o levara até ali.

— Olha, meu amigo, pouca gente pega essa estrada em temporada de chuva. Você é um maluco, viu?

— Mas foi o GPS que me mandou. Nunca vim por esses lados e não costumo pegar estrada.

— Bom, talvez esse GPS esteja com problema, porque esse caminho aqui não leva à cidade que você quer ir.

— Como?

— É isso mesmo. Na verdade, você desviou um bocado, uns 100km.

— Meu Deus! Agora que não chego mesmo.

— Na verdade, acho que essa estrada aqui nem existe no GPS, só se colocaram agora. De vez em quando caem uns desavisados, mesmo. Já socorri muita gente. Mas não é um caminho comum.

— Caramba, que estranho – Edilson respondeu franzindo o cenho e conferindo o aparelho. — Escuta – reiniciou o rapaz – e o burrinho, é de vocês?

— Ah, sim! Esse safado – respondeu Paulo. — Estávamos procurando ele há dias. Ele se embrenhou pelos matos e ninguém dava conta do bicho. Eu mesmo fui atrás um par de vezes, mas nada. Graças a Deus ele voltou. Bem, é isso – continuou o estalajadeiro, soltando um bocejo. — Agora não tem o que fazer. Descanse aí e espere sair o dia. E pode deixar que tenho as ferramentas para tirar o carro de lá. Faremos isso logo cedo.

 

III. O Amanhã a Deus Pertence

Enfim, Edilson foi para o aposentado que Paulo lhe disponibilizou, banhou-se, rezou e foi dormir. Estava exausto pelo estrese da viagem e caiu pesadamente na cama simples, mas aconchegante, e apagou num sono profundo vigiado por uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Acordou depois de horas com um sol forte invadindo o aposento pelas frestas do janelão de madeira. Um galo cantava alto no quintal e um cheiro delicioso de café dominava toda a pousada.

“Jesus! Que horas são?” – disse de si para si, dando um pulo da cama.

“Ih, caramba! Perdi a hora. Droga! Já são 7h. Que furo!”

— Edilson, o café está na mesa – disse Paulo do lado de fora. – Olha, desculpe se deixei você perder a hora. Eu até tentei te acordar, mas você dormia feito pedra, estava roncando forte até agora pouco. Fiquei com pena de insistir.

— Tudo bem! Já vou para o café. E obrigado – respondeu Edison. – Paulo, só um favor – disse o rapaz entreabrindo a porta – tem algum telefone com sinal por aqui? O meu não pega.

— Tenho, sim. Tá achando que estamos fora da civilização, é? – troçou Paulo – use o meu, o meu sempre funciona.

Depois que Edilson conseguiu comunicar à organização do evento os motivos epopeicos de sua falta, acabou relaxando e foi se aprontar para tomar um pouco daquele café cheiroso e então ver os meios de tirar o carro da estrada e enfim achar o rumo de São Paulo.

Porém, antes de sair do quarto, Edilson resolveu abrir a janela. Uma brisa deliciosa acariciou seu rosto e ele teve uma das visões mais belas da vida. A manhã estava radiante. Um céu anil, sem nuvens, contrastava com as montanhas verdes, claras e escuras, que oscilavam no horizonte ondulado a perder de vista. Ademais, uma orquestra feita dos mais variados pássaros, de galos, cavalos, burros e porcos, cada qual cantando sua música, saudava como que religiosamente aquele dia bonito. E um cheiro gostoso de terra molhada e grama fresca subiu pelas narinas de Edilson, e ele fechou os olhos para fungar aquele cheiro com mais profundidade e foi insuflado de vigor e alegria. Daí Edilson viu uma vaca girolanda, toda alva senão por uns chapiscos marrons, posuda, como se fosse a modelo principal daquela obra de arte que era a paisagem campesina. E abaixo dessa vaca havia uma menina, que devia ter uns sete, oito anos, a ordenhando com destreza. Essa menina olhou para a direção de Edilson e toda essas boas sensações, de um golpe, se transmutaram em espanto, pois ele notou que não era uma menina qualquer. Ele via, com toda certeza, a Rebeca, sem tirar nem pôr, a Rebeca como na época que eles ainda brincavam no Morro Doce, de quando ele passou a amá-la em segredo. Edilson empalideceu e ficou sem reação por uns segundos. Depois, coçou os olhos, apertou a vista, viu de novo a mesma menina, a Rebeca, e fechou a janela, apresado.

“Cruzes! Vou tomar café e ir embora desse lugar. Já estou vendo coisas”.

Quando ele irrompeu na cozinha, Paulo estava com o bule fumegante nas mãos servindo café em xícaras de metal dispostas em dez lugares, ao lado de pratinhos vazios de porcelana branca e acabamento grosseiro. Também havia naquela mesa de madeira uma mulher sentada de costas para a entrada.

— Veja, querida, esse é o rapaz que ficou atolado na estrada – disse Paulo.

— Olá! Sejam bem-vindo…

No que a mulher olhou para trás para saudá-lo, cruzou seu olhar com o de Edilson e ambos saltaram pelo susto. Era Rebeca.

— Edilson!? – disse ela arregalando os olhos.

— Re-Re-Rebeca… – respondeu o rapaz, boquiaberto. Paulo ficou com cara de tacho, sem entender o que se passava.

— O que você está fazendo aqui, menino?

— O que você está fazendo aqui. Achei que havia… quer dizer, todo mundo acha que você tinha…

— Morrido? Sim, morri – disse Rebeca, fazendo graça. – Na verdade, morri mais ou menos. Agora, por exemplo, não me chamo mais Rebeca, mudei meu nome para Clara. Então, meio que morri. Aliás, você não pode dizer para ninguém que me viu aqui, viu, Edilson!?

— Cristo! Não acredito que você está viva! Me conta, pelo amor de Deus, o que aconteceu! Você não sabe como fiquei triste quando soube da sua… quer dizer…

— Ei, Bianca, entre aqui, filhinha – disse Rebeca para menina que entrava pelos fundos da cozinha com um balde cheio de leite – Vou te apresentar o visitante. Esse é o tio Edilson.

— Nossa, ela é sua cara quando criança – disse Edilson acariciando os cabelos da menina e olhando incrédulo para Rebeca. O rapaz a achou ainda mais linda, só que agora Rebeca não despertava no seu admirador faniquitos sexuais, desejos, fogo, mas, ao contrário, uma reverência e mesmo alguma emoção. Rebeca estava apurada, pronta, madura, no seu auge. Não tinha mais jeito de menina assanhada, havia conquistado os modos, as feições e os olhares de mãe e esposa. E olha que estava sem os enfeites da maquiagem. Algo muito profundo acontecera àquela alma para que o corpo testemunhasse tamanha transformação.

— Pois é. Não puxou nada do papai aqui, né, filha – e olhou para Edilson indicando com o olhar que a menina não sabia nada sobre o Oreia e que, para ela, Paulo era seu pai. – Bem, sirva-se aí que já conto como vim parar nesse fim de mundo. Bianca, minha querida, vai brincar, vai, que agora vamos ter conversa de adulto aqui; vai lá na casa da Maria – e deu um beijo na testa da menina que saiu serelepe pela porta e passou correndo pela janela da cozinha.

Assim que a menina estava longe o bastante, Rebeca, ou melhor, Clara, começou a falar. Primeiro colocou Paulo a par de quem era Edilson – a quem ela já havia mencionado de passagem  –, e, então, passou a narrar sua trajetória, com algumas interrupções de Paulo, para falar de algum detalhe importante, ou de Edilson, para lembrar algum episódio antigo, desde sua perspectiva. Faço-lhes o resumo.

Paulo trabalhava como auxiliar de enfermagem em um hospital em São Paulo, nas proximidades da Cracolândia. Como perdera o pai para as drogas, resolveu fazer obras de caridade naquele lugar, sempre atendendo algum viciado mais necessitado, à beira da morte. Foi numa dessas inspeções que ele encontrou Rebeca, no dia do nascimento de Bianca. Aliás, só encontrou a mãe com vida por causa do choro da filha recém-nascida.

Rebeca – ou Clara – estava numa situação lamentável, correndo sério risco de vida, e foi Paulo quem a socorreu, a ela e a criança, que nascera prematura e precisava, urgentemente, ir para uma incubadora. Paulo lhes deu toda a assistência e arranjou com muito empenho as coisas no hospital, onde ele era benquisto, para que elas tivessem o tratamento necessário.

Rebeca entrou no hospital em coma e indigente. Quando acordou, depois de três dias, soube do seu benfeitor, que a visitava todas as manhãs para medicá-la, e sentiu alguma coisa diferente vinda dele, algo como um amor de pai, uma ternura que nunca experimentara – hoje sabemos que era a semente do amor. Conforme foi tomando consciência do que acontecera, Rebeca decidiu que dali para diante seria outra pessoa. Ela havia ganhado uma nova vida e queria fazê-la valer. Nada de piriguetices, nem de morros, nem de funk. Queria cuidar da filha, arrumar profissão, ter sua casa, sumir daquele mundo. Queria, também, continuar longe da mãe e das irmãs, por isso omitiu sua verdadeira identidade, até o dia que revelou toda sua história a Paulo, seu confidente, implorando que ele a mantivesse anônima. E o homem, muito comovido, aceitou.

No fim, contando um mês desde o resgate, Rebeca, já rebatizada como Clara, foi parar num quartinho nos fundos da igreja que Paulo frequentava. Ali, pela primeira vez, a moça teve chance de ouvir alguma coisa sobre Deus e até aprendeu a assistir missas. De piriguete, virou cristã aplicada. E a essa altura já estava confessadamente apaixonada por Paulo, o homem que lhe dava almoço, que a levava para passear no parque e no cinema, e que conversava com ela por horas, como um velho amigo e conselheiro. Ademais, o homem adorava a pequena Bianca. Em suma, Paulo a tratava como gente e isso a cativou.

Decorrido uns meses de namorico, Paulo pediu a mão de Clara em casamento e a moça não vacilou. Daí que, como a família de Paulo tinha terreno no interior, e a moça queria sair de São Paulo, resolveram construir, com as economias do homem, essa chácara, que virou pousada. Ali eles engataram uma vida pacata, tirando boa parte do sustento da terra, dos bichos e dos bicos de enfermeiro que Paulo prestava ao vilarejo. Demais, rezavam com regularidade, assistiam as missas numa cidade vizinha, há meia hora dali, e educavam a filha sem muitos recursos, contando com a bondade de um professor que vinha de outras bandas para dar aulas a um grupo de vinte crianças da região. Não tiveram mais bebês, pois Clara ficou estéril.

Clara também contou que, tempos mais tarde, com dor na consciência, fez uma ligação e contou para sua mãe que ela e a criança estavam vivas. A mãe, como era de se suspeitar, não esboçou grande entusiasmo. A essa altura, estava com a cabeça em outra alegria. Havia arrumado um malandro que a engravidara mais duas vezes e depois sumiu no mundo. Não obstante este, pelo menos, deixou a mulher numa casa própria, também na favela, e essa foi a grande realização da vida de Cátia. Doravante, não precisava de mais nada. Nem de filha ressuscitada, quanto menos de neta bastarda. Não se falaram mais.

Os três passaram horas numa prosa boa, regada à café e pão fresco, assado por Paulo . Edilson contou do Morro, de seus projetos e desabafou sobre o remorso que carregava por nunca ter tentado tirar sua amiga da podridão do Morro. E essa foi a parte da conversa que mais rendeu chororôs, abraços e pedidos de desculpas. Antes do almoço, os homens foram tirar o carro da lama, o que fizeram sem muita dificuldade, e Clara ficou na casa preparando uma galinha, sacrificada na hora. Dali a pouco comeram a suculenta galinhada feita pelas mãos da mulher, bateram mais um pouco de papo na varanda, com Paulo pitando seu fumo e Edilson fumando seu cigarro, e, quando a tarde começava cair, o rapaz, que não queria mais saber de pilotar no breu, foi se arrumar para a viagem de volta.

— Paulo, muito obrigado pela hospitalidade – disse Edilson, já no alpendre, com sua mochila nas costas. Tudo estava ótimo aqui. Certamente voltarei.

— Só não venha numa madrugada chuvosa que da próxima vez não vou abrir e ainda vou atirar lá de dentro.

Os três se riram como se fossem amigos de longa data.

— Rebe… digo, Clara – falou Edilson, se voltando à mulher, segurando sua mão direita e olhando-a nos olhos – por Deus que fiquei muito feliz por encontrá-la viva. Sofri muito quando disseram que você estava morta e desde então rezei todos os dias pela sua alma. Tomara que oração pra morto que não morreu tenha alguma serventia para o vivo. Sabe, éramos amigos de infância e depois nos afastamos, não nos falávamos, mas sempre tive carinho por você. Deus é mesmo muito bom, não é? Quem diria que aquela menina se transformaria nessa bela mãe, boa esposa, temente a Deus. Bom, não sabemos de nada…

— Também fiquei feliz em vê-lo e feliz em saber que você está fazendo coisas legais lá no Morro. O pessoal lá precisa. Eu precisava. Siga firme, meu amigo. E volte logo.

— Edilsão, gostei muito de te conhecer, meu querido – disse Paulo apertando firmemente as mãos do rapaz. Volte quando quiser. É só pegar a estradinha de terra. Ela sempre traz aqui.

Com pesar e saudade, o rapaz acabou de se despedir e pegou a estrada de volta. De dia, o caminho da estrada de terra era exuberante e Edilson seguiu viagem devagar, apreciando aquela maravilhosa paisagem. Quando deu 18h, seu celular despertou. Um sol enorme, alaranjado, caía por detrás dos mares de morros e tingia todo o céu de muitos tons de púrpura. Edilson achou aquilo muito lindo. Então agradeceu a Deus por mais aquele quadro, e por sua vida, e por Clara; fez um profundo sinal da cruz e, em pensamento, com o terço nas mesmas mãos que guiavam o volante, rezou o seu Angelus.

 

 

 

 

 

 

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