O Santarrão e a Piriguete – Parte I

"Favelas", Cândido Portinari.

O Santarrão e a Piriguete

Parte I

 

I. Edilson

Quando deram seis da manhã e o sol ia despontando por detrás dos barracos do Morro Doce, Edilson ajoelhou-se em frente ao crucifixo de madeira que pendia na parede branca do seu quarto. Era hora do Angelus.

Angelus Dómini nuntiávit Mariæ. Et concépit de Spíritu Sancto – sussurrou em um latim devidamente pronunciado e ligeiro, como quem já sabe rezar de cor e salteado. Seguiu-se o Ave Maria Gratia Plena, o ecce ancilla domini, outro Ave Maria e assim por diante. Tudo dito com perfeição, sem tropeçar palavra, em tempo louvável. Daí terminou a reza, beijou o Cristo do terço, se persignou, levantou do genuflexório improvisado e foi se aprontar para o colégio.

Este era o ritual matutino de Edilson, rapaz de catorze anos, alto, mirrado, de compleição lânguida e cara espinhenta que se considerava o maior cristão daquela favela. Para ele, não havia nas redondezas quem fosse mais piedoso, mais conhecedor da Palavra, mais correto no regime de orações e jejuns. Não que dissesse isso de si para si, claro. No espelho, via um rapaz humilde, simples, um pecador. Todavia, lá dentro, o sentimento de que fosse, mesmo, o maior crente do Morro Doce, isso, sem dúvidas, o animava.

E não era para menos. Esse rapaz ficou órfão no começo da vida e acabou sob os cuidados da avó Beata, que é como chamavam a dona Rute. Essa senhora, vinda dos cafundós da Bahia, fora criada com os rigores da época e do lugar. Era católica das bravas, sabedora do catecismo, das principais leis e das datas dos santos mais famosos. Tudo aprendido, no começo, à palmatória, mas, depois, seguido com gosto e sincera devoção.

Essa dona Rute teve cinco filhos, dois já mortos, incluindo a mãe de Edilson, e outros três espalhados pelo Brasil. Veio para São Paulo já com os cinco mais o marido em busca de dar futuro de gente à família. Calhou, porém, de enviuvar cedo, tão logo puseram os pés nessa cidade. Daí que para se manter com a filharada, teve que ralar muito nas faxinas e acabou arranjando um barraco no Morro Doce, único abrigo que lhe cabia no bolso.

Com o tempo, porém, os filhos foram indo – ou para o céu ou para suas novas famílias – e a velha Rute ficou só com o menino Edilson, lembrança viva de sua filha predileta que Deus levara tão de repente.

Dona Rute criou esse Edilson à moda antiga. Desde cedo, quis poupá-lo do contato com aquele mundo pecaminoso do Morro Doce – tão diferente do sertão da sua infância que só tinha os bichos e gente decente. Quisera mesmo voltar à terrinha quando percebera que nas duas últimas décadas a ladroagem e a depravação tomara conta da juventude do Morro, mas não havia meios. O jeito era encerrar o rapaz na casa, entretê-lo com o catecismo, insistir para que ele rezasse e deixar o resto aos cuidados de Deus.

E o rapaz foi bom aprendiz. O menino tinha índole boa. Era sempre muito quieto, na dele, meio tímido, mas respeitoso, obediente e cortês. O defeito é que o que tinha de afetuoso com os mais próximos – a avó, o padre Leôncio e um punhado de amigos da igreja – tinha de arredio com o resto do mundo. Crescera encerrado num universo só seu. Passava boa parte do tempo no seu quarto, ora rezando, ora lendo, pois era muito aplicado nos estudos e tinha gosto natural pelos livros, sobretudo os de teologia, de doutrina cristã, de apologética. Sim, um gosto, digamos, bastante sui generis para uma criança, quanto mais para uma criança favelada, mas, enfim, era o seu gosto.

O primeiro volume que ele lera, logo aos dez anos, era um grosso tomo de Doutrina Moral que ganhara do falecido padre Leôncio, um sacerdote muito querido por dona Rute que tomara Edilson para afilhado. Padre Leôncio, um sergipano já idoso, mas forte, ativo e lúcido, fazia visitas frequentes à dona Rute e impressionava o jovenzinho com suas tiradas sábias e suas reprimendas severas aos meninos malcriados. Aquele padre tornara-se a grande referência masculina do pequeno Edilson e o menino queria ser como ele, inteligente, bondoso, mas que sabia dar uma boa bronca, que sabia bem as leis, entendia do certo, do errado.

O padre lhe dera esse volume de Moral já no leito de morte aconselhando que seu afilhado só o lesse mais para frente, quando estivesse maduro. Edilson, porém, muito curioso e achando-se em posse de alguma coisa muito séria, sagrada até, não pôde se aguentar e começou a beliscar um pouco aqui, um pouco ali, uma página num dia, outra noutro, e ao cabo de alguns meses já havia lido tudo e decorado muita coisa – para espanto da avó.

Esse livro se transformou no seu tesouro. Tinha-o sempre na cabeceira e sempre lia alguma assertiva antes de dormir. Sabia todos os pecados, os desvios, os vícios e os remédios. E para cada erro contra Deus e suas leis, denunciados no livro, ele tinha uma dúzia de exemplos vivos no colégio que frequentava.

Aquele lugar, aliás, era o seu purgatório. Tudo o que ele enxergava ali no Rubão – apelido do colégio Rubens Alves – eram demônios, bestas, monstros, maldade. Todo mundo fazia diferente do que mandavam os livros santos. Só ele obedecia. Os meninos eram maus, desbocados, usavam drogas, xingavam os professores; as meninas só queriam saber dos meninos, eram lascivas, usavam aquelas roupas…

Isso tudo fazia com que ele se tornasse arredio e nunca se enturmasse com ninguém. Como contraparte, seus colegas tiravam todo o tipo de sarro, armavam-lhe pegadinhas, davam-lhe pancadas, faziam o diabo. Ele era chamado de “crente”, de “santinho”, de “bichinha da igreja”, e mais uma porção de coisas desse naipe. E o menino aguentava o martírio até que com bravura. Não que revidasse, pois era tíbio, mas não reclamava, não se melindrava com as ofensas, a não ser as físicas, e procurava não dizer nada à avó, para não a exasperar.

Edilson odiava a escola e seus colegas, mas se sentia superior a ela, pois tinha amizade com um grupo de jovenzinhos da paróquia que frequentava, bem longe do Morro Doce. Acontece que conforme o rapaz foi se inteirando nas coisas da fé, por meio de seus livros, chegou à conclusão que devia achar uma igreja bem tradicional, diferente das igrejinhas do Morro Doce, e se satisfez com uma de rito tridentino, rezada em latim, com canto gregoriano e toda a pompa medieval. Lá, as mulheres iam de véu, os homens, mesmo os meninos, iam de roupa social, com paletós, gravata, suspensórios e sapatos bem engraxados. Era o céu de Edilson. Gostava de ficar ali, com aquelas pessoas cheias de decoro, com as imagens, com o sacrário. Ali ele tinha seus amigos, jovens mais ou menos da sua idade que se reuniam para rezar o rosário e para discutir filosofia cristã, todos vestidos à caráter, ostentando portentosos crucifixos no peito, fazendo piadas em latim castiço.

Ali Edilson era louvado. O pessoal o tomava por um prodígio, e era mesmo. No que completou catorze, foi aceito no grupo fechado de estudos mais sérios da paróquia e, volta e meia, lhe competia apresentar algum tema na reunião – algum comentário sobre encíclicas, retomada a certas disputatios escolásticas, exposição de algum pormenor sobre de direito canônico etc. – e ele não fazia feio. Terminava sempre aplaudido, elogiado e, no fim, remido das humilhações da escola maldita.

Nessa época, às voltas dos treze, catorze anos, Edilson cogitara virar padre. Porém, a perspectiva de abandonar a avó no Morro Doce o dissuadia. Metera na cabeça que tinha um dever para com a velha e só sairia dali depois que ela morresse. Demais, a avó, já aposentada, estava há anos meio doente das juntas e só tinha o menino com quem contar. O sacerdócio estava mesmo descartado. Todavia, nada o impedia de ficar mais firme na fé, mais conhecedor da religião, mais rezador e mais jejuador que todos do Morro Doce.

 

II. A Janela

A rotina do jovem Edilson consistia em aguentar o terror escolar pela manhã e depois voltar para seu quartinho onde rezava, lia seus livros, estudava para entrar numa faculdade – filosofia ou teologia no Mosteiro de São Bento era a sua meta – e acudir a avó quando ela demandasse. Nesse pequeno quarto ele tinha uma cama de solteiro, um guarda-roupa velho de apenas uma porta e uma cômoda que lhe servia de mesa para os estudos. E essa cômoda ficava ao lado da janela que dava para a rua Seis do Morro Doce. O menino gostava de ficar ali, ora com os olhos nas palavras de Santo Tomás, ora espiando as casas infinitas enfileiradas e sobrepostas, o corre-corre dos meninos atrás das pipas ou da bola, o movimento dos traficantes, os ônibus e as lotações levando e trazendo massas de cidadãos que trabalham no Centro, uma briga ali, uma viatura acolá, as pichações, o Rubão, as igrejinhas dos crentes, a paróquiazinha, a  feiura geral. Ele só não podia abrir a janela, porque o dia inteiro tinha alguém estalando um funk alto, para todo o Morro Doce ouvir. E as letras desses funks eram das mais cabeludas, as mais obscenas. Tanto que o menino sentia nojo e raiva ao ouvi-las. Acabava uma reza e em seguida penetrava por alguma fresta da casa uma soma daquelas ondas de som indecente falando de pica, de bunda, de chupar, de quicar. Tudo isso era uma tortura para o rapaz, sobretudo nessa idade…

 

III. As Piriguetes

De todo esse mundo feio e caótico que ele via pela janela, escondido atrás da cortina fina feita pela avó, o que mais o feria eram as piriguetes. Na periferia de São Paulo, bem como na do Rio, as piriguetes são meninas na faixa dos doze aos trinta anos cuja vida se resume em arrumar meios de chamar a atenção dos homens e superar suas rivais, a quem elas se referem como “inimigas”. Do ponto de vista estético, são muito parecidas essas piriguetes – variando alguma coisa na etnia, na altura e nas formas corporais, ora mais gordas, ora mais magras, ora com mais, ora com menos curvas, e assim por diante.

As piriguetes, é preciso dizer, são subprodutos da cultura funk, um verdadeiro câncer que se instalou nesses lugares e que mudou toda a paisagem das favelas nas últimas décadas. O fato é que ali no Morro Doce, o funk era a principal escola. Aprendia-se muito mais com os MC´s e os DJ’s que com os pais, os professores e os pastores. Daí que todas as piriguetes, frutos podres duma mesma árvore venenosa, fossem como que cópias umas das outras. Comunicavam-se com as mesmas palavras, os mesmos gestos espevitados, os mesmos traquejos provocativos; e vestiam-se com as mesmas roupas: no verão, aqueles shorts curtíssimos revelando parte – ora maior, ora menor – da bunda, com uma miniblusa, um corpete, ou um top, sempre mostrando – ora mais, ora menos – a barriga, e calçando um tênis de moda masculina; no inverno, geralmente o mesmo, a não ser quando a intempérie fosse forte o suficiente para obriga-las a vestir um moletom com um jeans muito justo ou uma legging revelando todos os detalhes anatômicos da cintura para baixo.

Eram essas meninas, as piriguetes, as maiores pedras nas sandálias da santidade do nosso Edilson. Nos últimos anos, conforme a idade avançava, tornara-se mais e mais difícil evitá-las. Uma legião imensa dessas diabas lhe cruzavam a janela, requebrando com a bunda, deixando os peito à mostra, se esfregando nalgum bandidinho, subindo na moto do outro, descendo a rua em bandos, indo e voltando de baladas, enfim, jogando na cara do nosso Edilson toda a sensualidade lúbrica que exalava daquela rua, ia empestar os ares do seu quarto e fazia-o pecar em pensamento – quando não em ato.

Edilson sofria muito quando pecava por causa das piriguetes. Chegava às raias do desespero e do desalento. Achava que Deus e a Virgem Santíssima não o desculpariam pela falta. Sentia-se um exilado do Reino dos Céus, um cão, um danado. Nesses dias ele rezava envergonhado. Pedia mil vezes perdão, jurava que não faria mais, que estava arrependido. E se jogava, rezava com o nariz no chão, como que para mostrar o quão rasteiro era. E lembrava-se do livro da Doutrina Moral e do padre Leôncio. “O padre nunca faria isso…”. Chorava muito e chegava mesmo a se açoitar com a fivela de um cinto.

Daí confessava, comungava e, dali a pouco, de novo a janela, de novo as piriguetes, de novo o pecado e de novo o martírio.

Isso fez surgir um ódio do rapaz para com as piriguetes, sobretudo uma tal de Rebeca, a mais piriguetes de todas.

 

IV. Rebeca

A menina era sua vizinha de parede desde sempre. Nascera ali e inclusive fora a melhor amiga de Edilson até quando os dois tinham uns sete anos, pois dona Rute tinha simpatia pela mãe de Rebeca, a Cátia, mulher que chegara ao Morro ainda moça, grávida, solteira e desnorteada. Depois dessa breve amizade de infância, muito pura e bonita, Edilson e Rebeca se afastaram. Cada um foi para o seu canto. Estudavam no mesmo colégio, mas não se falavam mais. Rebeca foi crescendo, foi ficando bonita, a mais bonita do Rubão. Edilson, por seu lado, ficava feio, esquisito, carola. Eram trajetórias opostas.

Rebeca, já aos catorze, era o que chamam na favela de famosinha, uma menina popular, vigiada pelos marmanjos do ensino médio e pelos bandidos mais perigosos do Morro. E a fama de Rebeca era justificada. A menina era, como se diz por lá, um filé. Tinha pele morena bronzeada, sempre com marcas de biquini conquistadas na laje, meia altura, curvaturas proporcionais, cabelos lisos escovados percorrendo toda as costas e um belo rosto de menina inocente – embora não fosse – adornado com um par de olhos castanhos esverdeados.

Como sói às piriguetes, sobretudo as famosinhas, Rebeca iniciou bem cedo no sexo. Pois os traficantes ficam à espreita dessas carnes apetitosas e frescas e, tão logo seja possível o bote, sem que configure crime de pedofilia segundo as leis do Morro –, quer dizer, tem que esperar até os doze, treze –, eles avançam. E as meninas, no mais das vezes, não resistem. E vá lá que seja compreensível: um sujeito mais velho, respeitado, com fama de mal e cheio de grana chega com sua moto cara e pede para a menina subir na garupa. A moça faz charme, pois sabe aonde aquilo vai dar, mas, no fim, cede; sai da rodinha de amigas, cheia de sorrisinhos, com ar triunfante e garbosa, e sobe na moto – dali para a perdição sexual. E os pais não veem, pois, no Morro, os pais não veem nada – ou porque não existem ou porque estão no trabalho.

Foi assim que Rebeca iniciou e logo por um dos Chefões do Morro. Os Chefões eram o pessoal mais envolvido com o crime organizado, gente mais chegada aos mandachuvas da cadeia, os caras que tinham boas casas no Morro, que não se misturavam com qualquer um, que tinham armas para si e para armar seus soldadinhos. Os Chefões não chegavam a travar contato com os Engravatados, gente de um círculo muito mais alto, de políticos, empreiteiros, magnatas do mercado internacional. Porém, dentro do mundo do Morro, os Chefões eram a elite, a aristocracia.

Foi um desses Chefões, um tal de Oreia, sujeito de uns vinte e cinco anos que crescera no crime, que matara uns desafetos para subir na carreira e que era muito respeitado dentro do Morro, quase um Irmão, foi ele que desvirginou a Rebeca, aos catorze – embora acusasse dezesseis, tal era bem desenvolvida. Daí Rebeca virou uma piriguete da alta, uma espécie de condessa do Morro Doce, poderosa e muito invejada pelas “inimigas”.

 

V. Reza Contra a Piriguete

Essa Rebeca passava quase todo dia ali debaixo da janela de Edilson que ficava no segundo andar de um sobrado. E isso era sua perdição. Era vê-la passar, cada vez mais sensual, e pensar coisas feias, imundícies. E ele a praguejava por isso. “Essa menina não tem vergonha de sair de casa assim, pelada. Isso não é justo. Como podemos ficar santos num lugar desses, meu Deus”. Mas ele não saía da janela e mesmo a procurava com os olhos. Na verdade, ele ficava até desapontado quando ela não aparecia. Jurava que daria uma última espiadela, mas, no dia seguinte, dominado pela tentação, estava lá, hipnotizado pela piriguete Rebeca. “Essa menina é o próprio cão vindo me perturbar”. Daí pecava, sofria, rezava.

Edilson passou a nutrir um tal desamor pela Rebeca que chegou a fazer novenas, rezar muitos terços, fazer jejuns e apelar à promessas para que Deus lhe tirasse aquela cruz pesada do caminho. Barganhava com Deus dizendo que era moço novo, que decidira guardar a castidade, mas que naquele ambiente era impossível, sobretudo com a tal Rebeca desfilando o tempo todo com seu shortinho, com aquelas unhas bem-feitas, com o piercing no umbigo e com aquele batom realçando seus lábios carnudos.

Em vão. Por mais que ele rezasse, a beldade não lhe dava sossego. E ele não sabia mais o que fazer. Teria vergonha de contar para os amigos da igreja, pois os via como arrimos da fortaleza, gente santa, superior. Como falar dessas porqueiras para eles? Ademais, só ele morava num lugar como o Morro Doce. Ninguém conseguiria entender seu drama. Daí que as coisas seguiram na mesma entre pecados, confissões e rogos pela providência, por um espaço de dois anos.

 

VI. A Queda

Deu-se então que numa madrugada, quando o Morro dormia, mas Edilson não, pois ainda estudava sob a luz do abajur, sentado em frente de sua cômoda lotada de livros, deu-se aí que ele viu pela janela um casal discutindo. Era Rebeca e Oreia. Ele viu a menina se esgoelando no choro e segurando o homem pelo braço. Ela puxava, mas ele se esquivava aos solavancos, voltando-lhe tapas e empurrões. Ambos pareciam alterados, talvez bêbados. Tiveram uma discussão ríspida, aos gritos. Tudo durou uns cinco minutos. Daí alguns vizinhos apareceram na janela e a mãe da moça, nitidamente contrariada, desceu à rua em trajes de dormir e foi tirar a filha da confusão puxando-a pelos cabelos, dando-lhe cintadas e falando-lhe nomes feios.

Só depois Edilson ficou sabendo da história pela boca de sua avó. Rebeca pegara bucho e o Oreia queria que ela tirasse. Só que Rebeca não queria aceitar. Talvez por um senso de dignidade, mas mais porque achava que uma criança ataria, para sempre, o laço entre ela e seu homem. Pois Rebeca amava o Oreia e sonhava em ter uma família com o bandido. Mas estes não eram os planos do Oreia. O bandido já estava nesse caso com Rebeca há mais de dois anos e a moça não era mais a bola da vez no Morro Doce. Outras piriguetes, mais gostosas que Rebeca, surgiam ano após ano no Morro e não caberia a um dos Chefões, homens que podiam ter todas elas, acabar a vida só com uma. Inclusive, nesse tempo de relação entre os dois, foram muitos os casos de traição do Oreia, porém a menina o amava e perdoava. Nem quando ela fora tirar satisfações com o Oreia, por causa de uma “inimiga” assanhada, e recebeu, em troca, socos, pontapés e uma arma apontada para cabeça, nem ali ela desistiu do seu grande amor. Palavra que ela o amava.

Para ela, portanto, era forçoso manter o bebê. Para ele, tanto fazia, não iria assumir mesmo, mas teria menos dor de cabeça se Rebeca abortasse de vez. Como, porém, a moça insistisse mais que o tolerável para um Chefão do porte do Oreia, este teve que apelar para o método da Deportação – que consiste em atormentar uma família com ameaças e alguns sustos até que não reste alternativa senão a fuga. E não houve clamor de grávida que desfizesse a decisão. Inclusive, nesses tempos, Oreia rompeu fatalmente com a pobre piriguete, humilhou-a, botou uma “inimiga” no seu trono, levou a outra na garupa da mesma moto, fez com ela as mesmas viagens à praia, deu a ela presentes mais bonitos.

Rebeca, aos dezesseis, estava liquidada. Teve que debandar do Morro Doce junto com suas duas irmãs mais novas e sua mãe solteira – que preferia o aborto ao despejo, mas não teve sucesso em convencer a filha. E foram embora na carroceria de madeira, agarradas em suas parcas posses, sob os olhares maldosos das “inimigas” e sob as fofocas e os bem-feitos dos vizinhos bisbilhoteiros. Foram-se para sempre do Morro Doce e caíram numa outra favela de São Paulo.

 

VII. O Último Lugar

O fato é que Rebeca caiu no inferno. Sentindo-se muito envergonhada e culpada dentro da família, terminou rompendo com a mãe, uma ex-piriguete frustrada que não deixava de repetir, dia e noite, que a filha era realmente a causa de sua tragédia. Na verdade, Cátia, mulher ainda jovem, na casa dos trinta, tinha inveja da beleza e do sucesso da filha e, lá no fundo, ficara satisfeita com sua queda. Fosse como fosse, mãe e filha não se davam, nem antes, muito menos agora. A vida na nova casa, pior que a última e arranjada às pressas, era um eterno arranca rabo entre elas – e as irmãs mais novas, que tomavam partido pela mãe, pois também invejavam Rebeca. E isso se arrastou até que as duas chegaram às vias de fato depois de uma discussão mais contundente. Um tapa estalado de Rebeca na cara da mãe foi a gota d’água. Rebeca acabou expulsa. Agora, a menina era órfã de um pai que nem conhecera e de uma mãe que para ela morrera.

A moça vagou alguns dias pelas ruas de São Paulo. Dormiu em albergues, debaixo de pontes, dividiu papelão com um grupo de três ciganas mendigas que lhe vaticinaram um futuro amargo e chegou a se deitar com homens imundos em troca de pinos de cocaína – que ela aprendera a consumir com o Oreia. Passou assim uns meses, de biboca em biboca, de sujeira em sujeira, de mal a pior, até que caiu no último lugar: a Cracolândia.

A Cracolândia é o lugar onde os mortos-vivos da cidade reúnem-se para ver quem vai definhar primeiro. Ali, é o fim da linha de uma vida desgraçada que teima em não acabar. Ali, é sempre noite, sempre frio, sempre fedido. Na Cracolândia tudo é um negror, tudo obscuridade e alucinação. Nem digo que haja tristeza, pois não há mais humanidade. E os cães, ratos e semi-humanos que rastejam naquele chão, não têm sentimentos. Vá lá que talvez os cães tenham. Mas, só os cães. Uma vez que a pessoa chega ali para cheirar uma cola ou para dar o primeiro trago num cachimbo de craque, ela se despede de quem já fora, perde a identidade, o sentido, e a vida passa a ser nada mais que uns instantes entre os efeitos da droga e a paranoia para conseguir mais. Lá só tem noite e são bem-aventurados aqueles que dormem e não acordam.

Rebeca talvez estivesse arrependida quando botou os pés na Cracolândia, mas ela, segundo julgava, perdera tudo. Toda a sua vida era ser a Rebeca do Morro Doce, a mulher do Oreia, seu macho, o homem da elite. Era isso e cuidar da sua beleza, do seu corpão, do seu cabelo longo. Daí ficaria para sempre com aquele homem e estaria livre dos outros. Estaria segura. E poderia ter seus filhos com o Oreia. Porém, quando ela viu que era aquilo, que era assim que as piriguetes de sucesso eram tratadas, como lixo, e que podiam ser a qualquer momento trocadas, e tomar tapas, e ter uma arma na cabeça, e ver seu macho com outra e com outra, com as “inimigas”, quando ela viu que era isso, caiu na real, viu que era tudo uma farsa e abriu mão da vida. Entendeu que a saída era o suicídio, mas, como não tinha forças nem coragem para cometê-lo de uma vez, quis matar-se aos poucos, matar-se a si e aquele filho que agora só lhe aparecia como maldição, uma praga, o pivô da sua queda.

Logo quando chegou nos arredores da Cracolândia, um monte de semi-zumbis tarados, escondidos sob mantas de lã ou em barracas de teflon estendidas no asfalto, no meio do lixo, espicharam seus olhos gulosos àquele pedaço de morena, coisa fina, quase intocada. A barriga de oito meses lhes era invisível. O que valia era o rosto bonito, ainda saudável para os padrões do lugar, os peitos e a bunda ainda empinados. E os semi-zumbis salivavam conforme a moça ia atravessando a avenida em busca de quem pudesse lhe dar drogas. Nisso ela teve o ímpeto de fugir, não obstante, teimou e ficou.

Na mesma noite, de acordo com as indicações de uma senhora negra, uma cafetina megera que a introduzira naquele mundo, teve que se prostituir para conseguir seu primeiro crack. E Rebeca obedeceu. Conseguiu dez reais, deu cinco à alcoviteira, e foi à venda. Lá, o vendedor, um homem repugnante, ao ver a carinha da jovem e sua barriga enorme, ficou meio vacilante, todavia a moça estava mesmo decidida. Queria aquilo que matasse mais rápido e insistiu, esbravejou e conquistou seu cálice da morte.

Ela fumou e no começo passou muito mal. Vomitou muito, até o suco gástrico e um pouco de sangue. Depois, muito fraca, pois não comia há horas, quiçá há dias, caiu desmaiada, mas acordou ainda em alucinação, no meio daquelas figuras tenebrosas, no escuro, e cismou que todo mundo a encarava com olhos de escarnio e condenação, e que vinham para cima dela, e que a rodeavam, e gargalhavam, que riam como hienas da sua cara, do seu corpo, e que tinham a cara das piriguetes do Morro, e que puxavam seu cabelo, e que riam e riam sem parar, de um jeito que nunca vira alguém rir, com uma maldade que a fazia temer, e sentiu que alguém a penetrava por trás, e que doía muito, mas não conseguia evitar, e tentava fugir daquela roda que ia a cercando, mas não conseguia, e sentiu que algo escorria pela suas pernas e sentia uma dor insuportável, e as piriguetes eram muitas e estavam horríveis, rindo da sua cara, puxando seu cabelo, se deitando com seu macho, e a dor a fazia suar, e continuavam a penetrando por trás, e o líquido viscoso escorria pela sua perna, e sentiu um cheiro de sangue, e viu o Oreia numa orgia com suas piores inimigas, e a dor continuava pungente, lancinante, uma dor de morte, muito, muito forte:

“Ah, vou morrer! Vou morrer!”

Ela gritou isso e rebentou na Cracolândia o choro de uma criança ensanguentada que surgira por entre suas pernas. Já era dia.

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