Foto: Videoclipe da música "Me solta" - Nego do Borel

 Vamos corromper o Ocidente em tal medida, que ele acabará fedendo.”

(Willi Münzenberg)

“O melhor revolucionário é um jovem desprovido de toda moral.”

(Lênin)

“Conseguimos aquilo que a guerrilha não conseguiu: o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas serão três milhões de adolescentes, que matarão vocês nas esquinas. Já pensou o que serão três milhões de adolescentes e dez milhões de desempregados em armas?”

(William Lima da Silva, mentor do Comando Vermelho)

Desfilava despreocupado pela Paulista, num domingo típico, dia em que ali carro não entra para que todas as tribos da urbe se reúnam no maior clima woodstockiano, cosmopolita e postmodernist possível. Vagava absorto pela altura do MASP, entretido com o desfile caleidoscópico dos transeuntes, todos jovens, descolados, bem de vida, crentes de estarem gozando, naquele passeio com pouca roupa, naquela partida de badminton no asfalto quente, a mais sublime liberdade que todas as rebeliões desde Espártaco propiciaram.

Caminhava metido nesses pensamentos quando fui arrebatado por uma visão a um tempo cômica e assustadora: um homem encharcado da cabeça aos pés, pingando mesmo, veio vindo numa marcha firme e resolvida na minha direção. O homem vinha esbaforido, como que fugido duma assombração, embora ele mesmo fosse fantasmagórico. E o mais curioso: parecia que naquele mundaréu de gente ninguém, além de mim, via a inusitada criatura.

Entretanto era mesmo um homem empapado, um náufrago sobrevivente, no meio da Paulista abarrotada num domingo à tarde. Aliás, para ser franco, não lhes asseguro com absoluta certeza que se tratava de um homem – pelo menos não era um homem tradicional. Cruzou-me tão rápido, deixando de propósito o ombro para remover-me de seu caminho, que ao virar-me para cobrar-lhe satisfação, o homem – ou não – já ia tão longe que esse detalhe de gênero não deu para pegar.

Quando me flanqueou, só tive tempo de notar que vinha usando um batom pink nos lábios e glitter dourado nas pálpebras. Aí nasceu a dúvida quanto à masculinidade do sujeito, não obstante em tudo lembrasse um homem. Olhando sua marcha de revés, acudiu-me que requebrava para além da média masculina. Era e não era um homem. Um travesti! – foi minha primeira conclusão.

Nesse relance da topada, também notei que a inapreensível figura carregava sob o braço esquerdo um grosso volume do Foucault. Esse detalhe não me escapou, pois foi com o bendito livro que ele me golpeou na mal-educada ultrapassagem.

Daí para diante, voltei-me à sua direção e segui-o com pés e olhos. Ele (ou ela) ia para os lados do Paraíso e eu para Consolação, porém, hipnotizado, sustive minha marcha para seguir a dele.

O curioso tipo vestia um sapato vermelho de salto muito alto e muito fino; sua calça era uma legging skinny cor preta vinil; e sua camiseta era branca, com uma estampa traseira que trazia, nas cores do arco-íris, um empowerment grifado acima do desenho de mulheres multiétnicas perfiladas com um punho cerrado e lançado aos céus. Por fim, equilibrava sobre a cabeça um black power e mesmo sua pele era, como se pode dizer… mais escura que as outras.

Conforme ia se adiantando na marcha, do centro à periferia de São Paulo, ia secando e logo ficou enxuto. E nada detinha-lhe a marcha. Ia resoluto, cheio de si, indo… indo… Interessante é que praguejava tudo que via no entorno, os prédios chiques, os bancos, os shoppings, o homem branco, a mãe com sua cria, as Igrejas… sobretudo as Igrejas. E profanava monumentos, rabiscava as fachadas das lojas, urinava na rua, apedrejava vidraças. Era como um flagelo da civilização, mas ninguém o notava. Estranhíssima cena.

Achava-se então já muito ao longe, às margens da cidade, em um caminho, que eu bem conhecia, onde não havia fábrica, nem campo, nem mar, nem nada que o valha. Onde diabos queria chegar?

Foi então que se deu o milagre.

Já nos limites do Capão Redondo, cafundó da periferia paulistana, ele, espantosamente, passou a andar por sobre um mar de casas empilhadas, esmagadas, sem reboco, desproporcionais, tortas. Saltava de telhado em telhado, folgado e ligeiro, de tal feita que ao cabo de alguns minutos dessa andança miraculosa chegou ao seu destino.

Era a laje mais alta da favela mais favelizada. O homem-mulher chegou ali e foi recebido pela turba pobre, malvestida e malcheirosa com a reverência devida a um sultão. Todos aguardavam-no excitados.

Finalmente estacando sua longa marcha, nosso caminheiro voltou-se a mim pela primeira vez. Tinha o ar zombeteiro e debochado de quem não só sabia que fora seguido, mas havia mesmo planejado o alvitre. Olhando-me assim, com um jeito diabólico, lançou-me o mesmo sorriso com que beijou o falecido poeta mineiro, seu criador. Sim, leitores, a criatura, e só nesse instante pude constatar, era o operário do poema do Drummond.

Estava muito mudado, confesso. Talvez a água do mar – ou dalgum rio para os lados do Reno ou do Tibre –, tenha lhe alterado as formas, as intenções e mesmo o modo da marcha. São conjecturas. No entanto, era ele. Malgrado sem seu casaco azul e sem as mãos e pés grossos, era, de fato, o operário. Não nos cabe aqui querer adivinhar as causas da metamorfose, cada cabeça uma sentença, cada caso é um caso. Só nos resta constatar que, sem dúvidas, era o velho operário do Drummond.

Enquanto eu, atônito com a descoberta do personagem, o perscrutava desde uma distância considerável, ele, num gesto soberano, ganhando toda uma nova perspectiva, ergueu muito alto um fuzil AR-15 – no que foi seguido por todos os circunstantes, uma verdadeira tropa a seu serviço –, atirou para o céu uma longa saraivada e ordenou, só com os olhos, que soltassem o som.

O DJ, já posicionado, largou o espetinho de carne fria, e, temente, obedeceu de pronto. Deu-se início ao pancadão.

Todos da comunidade, mesmo os crentes, os velhos, os dimenor, todos, de um salto, desentocaram de seus barracos maltratados e dançaram seu funk, em êxtase, por horas à fio. Dançaram seu funk e cheiraram seu pó. E entregaram-se todos a essa festa louca, orgiástica, até que um tiro assustador de fuzil chamou todos de volta a si e os impeliu a voltarem imediatamente a seus afazeres morais, domésticos, sem um pio.

Nisso, infelizmente, ficou noite, e a atmosfera, a mesma que atrapalhou Drummond, encerrou mais uma vez as possibilidades de maiores entendimentos com o operário. E olha que eu teria melhores sucessos em compreendê-lo, pois sou mais seu irmão do que o poeta jamais sonharia sê-lo. Entretanto, ficou noite e eu o perdi de vista. Eu em terra firme, ele no meio do mar.

 

 

1 thought on “O lúmpen-operário no mar

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