O Filósofo e os Deputados ou: exercitando o senso das proporções

Foto: Mauro Ventura

Dai a cada um o que lhe é devido: se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra.  (Romanos, 13:7)

O Brasil em 1994

Em 1994 eu tinha 4 anos. Nessa época em que Romário e Bebeto ganhavam o mundo aos berros de um eufórico Galvão, o Brasil achava-se às voltas de eleger para presidente Fernando Henrique Cardoso, sociólogo uspiano e notório militante esquerdista dos tempos do regime militar. Entrávamos, sem que a população em geral tivesse a mais tímida ideia, no período mais tenebroso da malfadada República brasileira.

Nesse ano, o então anônimo Foro de São Paulo completava, como eu, seu quarto aniversário. Fidel, Lula e cia tramavam livremente, sob a proteção da imprensa, os próximos passos à ascensão e consolidação de um bloco de repúblicas socialistas na América Latina para que, no plano geopolítico mundial, houvesse alguma compensação à debacle da União Soviética.

Por esses tempos,  já se podia sentir o sucesso do empreendimento da intelectualidade esquerdista brasileira que, sendo forçada a abandonar a luta armada e incentivada por um erro de cálculo estratégico monumental do general Golbery, emplacou um processo de conquista de hegemonia cultural nos moldes do que ditava o ideólogo comunista italiano Antonio Gramsci e colocou seus antigos guerrilheiros e militantes nas mais importantes cátedras universitárias, nos editorias de jornais e revistas, na direção de novelas, nos púlpitos e altares e em posições chaves na máquina pública. Em 1989 e em 1994 o establishment e parte considerável da população já tinha um certo sindicalista e agitador de massas como seu preferido ao cargo máximo da nação. E isso não foi por acaso.

O Filósofo

Foi exatamente em 1994 que um certo filósofo e jornalista lançou um livro falando sobre a New Age e sobre o mencionado projeto gramsciano de tomada de poder, segundo o filósofo, em franca efetivação em nosso país. O autor era Olavo de Carvalho e o livro A Nova Era e a Revolução Cultural, o primeiro da trilogia que alavancou Olavo ao status de intelectual relevante ainda que temido, odiado ou dissimuladamente ignorado pela imensa maioria dos seus pares nas redações dos jornais e nos círculos intelectuais.

Olavo, nos seus textos e artigos, denunciava, já em 1994, uma certa dominação esquerdista na nossa cultura e política e isso, naquele cenário, soava conspiratório, quixotesco, qualquer coisa de exótico. Era muito difícil sustentar, no ambiente culturalmente provinciano do país, que, tendo naufragado o comunismo no mundo inteiro ele viesse a ressuscitar justamente no Brasil de Collor, FHC, do trabalhismo brizolista, do sindicalismo lulista, dos fisiocratas do MDB e de uma população maciçamente conservadora.

Mas o filósofo, como um pregador no deserto, não cessou de dizer o que via – como sói ao verdadeiro filósofo – e o que via era a bendita vitória dos esquerdistas que, agindo às escondidas, não enfrentavam firme resistência a não ser por meio de uns outros poucos intelectuais e políticos isolados como Enéas Carneiro, Roberto Campos e Meira Penna.

E a pregação lhe custou tudo. Perdeu empregos e a reputação. Recomendaram que o jogassem no limbo da história, que dele não se falasse. Entretanto, na medida que continuava o expediente difamatório e opressor daqueles que eram os alvos de suas denúncias, aumentava sua ânsia de dizer a verdade, de apontar as charlatanices, os embustes, as falsidades e os crimes da gangue de políticos e intelectuais que se ancoravam, cada vez mais firmemente, nas camadas mais altas do poder.

Em 1994, há 25 anos.

Os Deputados

Num certo dia de 1994 Alexandre Frota, então sex symbol da Rede Globo, estava transando com Núbia Oliver num terraço durante um jogo da Copa do Mundo. Só depois de toda uma trajetória de vida no mínimo contestável e atulhada de polêmicas públicas é que Frota aparece interessado pelas discussões políticas da ordem do dia. Isso em 2016. Entre 2004 e 2009, por exemplo, quando o bando de Lula estava fazendo o país de gato e sapato sob os olhares atentos e a verve condenatória do filósofo, ainda voz pouco ou nada ouvida, Frota estava estrelando clássicos do cinema nacional como o Invadindo a Retaguarda ou A Proibida do Sexo e a Gueixa do Funk. Quando, enfim, se interessou por política, em 2016, já se grassava a tsunami antipestista e, como que por força das circunstâncias, nosso nobre ex-jogador de futebol americano encampou o lado da direita nos movimentos de rua. Elegeu-se deputado federal pelo PSL em 2018.

Em 1994 Carla Zambelli tinha 14 anos. Só em 2011, aos 31, entrou na vida pública, 17 anos depois da publicação de A Nova Era e a Revolução Cultural. Carla, fundadora do movimento Nas Ruas, militava contra a corrupção, coisa obviamente louvável. Porém, à época, parece que não tinha sequer vaga ideia de que o assalto ao erário público era mal menor se comparado à corrupção ideológica, a verdadeira causadora, além dos Mensalões e Petrolões, do emburrecimento de duas gerações, do fortalecimento do crime organizado e da entrega do país a interesses estrangeiros escusos. Isso tudo só veio a saber mais tarde, ali por 2015. Elegeu-se deputada federal pelo PSL em 2018.

O senso das proporções

Ambos deputados, Frota e Zambelli, junto com mais uns de sua trupe, foram recentemente questionados pelo nosso filósofo que, de isolado quase como um leproso, tornou-se, nos últimos anos, e, mais propriamente nos últimos dois meses, uma das pessoas mais comentadas na grande mídia e nas redes sociais, uma verdadeira celebridade inevitável, pessoa a quem muito se atribui, inclusive, a vitória de Bolsonaro e, por consequência, da leva liberal-conservadora que agora lota nossos parlamentos brasil adentro. Incluindo Zambelli e Frota.

O filósofo questionou os deputados por conta de um erro flagrante e muito sério. O assunto dizia respeito a coisas que o filósofo nos avisa desde 1994.

Os deputados, porém, muito ciosos de sua nova posição de prestígio e de sua brilhante trajetória nos negócios políticos brasileiros, saindo em desesperada autodefesa diante do mais que merecido puxão de orelhas, acusaram o filósofo, aquele que falou sozinho por décadas, que perdeu o emprego e foi ameaçado de morte, mas que ainda assim fincou os pés, empertigou-se, seguiu seu propósito e, desde longe, como um exilado, educou toda uma geração de jovens ignorantes e perdidos, acusaram a esse homem, o de 1994, de não ter levantado a bunda do sofá, de estar longe e não ter por isso autoridade para opinar, de não ter sofrido junto com os brasileiros, de ser um guru ideólogo, de dar piti.

Desenhando

Os deputados acusaram o filósofo. Os mesmos deputados que surgiram pelo menos 20 anos depois do filósofo. Os mesmos que tiveram suas candidaturas viabilizadas única e exclusivamente graças à onda trazida por Jair Bolsonaro. O Bolsonaro que, por sua vez, se tornou um fenômeno político de relevo porque um certo filósofo, 25 anos antes, como que munido apenas de um facão (sua língua) e uma lanterna (sua inteligência) começou a desbastar uma fechadíssima e tenebrosa floresta, rodeada de tudo que é peçonhento, obscuro e perigoso e inventou uma trilha, trilha esta pela qual, como que trazidos pelas suas mãos, um e um de seus alunos mais comprometidos foram atravessando até que se descobriu, ao fim de pedregoso caminho, um ambiente gostoso e quase secreto onde se podia dizer a verdade e ser compreendido. E como a verdade é um bem e os homens são atraídos pelo que é bom, o novo caminho foi sendo participado a outras e outras pessoas que, na medida que o atravessavam, iam-no alargando e tornando-o cada vez mais conhecido e frequentado ainda que, com o passar do tempo, ficasse meio confuso discernir quem tinha, no final das contas, desvendado-o.

E foi esse grupo quem primeiro soube, ouvindo da boca do filósofo, de seus discípulos ou de admiradores, da existência do mítico Foro de São Paulo, do movimento revolucionário comunista ainda em pleno vigor, da crise profunda da nossa alta cultura, do lugar do Brasil na História mundial, das nossas raízes perdidas e dos nossos heróis injustiçados.

Foram essas as pessoas que sustentaram, no início, o deputado isolado e desacreditado pois ele também falava a língua dos do grupo da floresta. Falava, por exemplo, do Foro de São Paulo e da existência de uma esquerda radical por detrás da inversão de valores, da ascensão da bandidagem e do desastre educacional. E falava isso pois ouviu, ainda que em sussurros distantes ou por meio de bons informantes, as conversas da turma da trilha da floresta. Da trilha aberta pelo filósofo.

Peço perdão pelo exagero poético, mas a imagem é mais ou menos essa. A ordem das coisas está dada. A hierarquia está aí subentendida.

Por fim, puxe da memória: o que você estava fazendo em 1994?


 
 

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