Lumpemproletariado: a chave que une liberais e marxistas na utopia globalista

O lumpemproletariado não é a burguesia nem o proletariado. É uma espécie de limbo. (Cristo no Limbo. Óleo de Hieronymus Bosch).

A ideologia do globalismo, que visa uma nova ordem global em que a humanidade será administrada por uma elite de políticos iluminados, pode facilmente ser descrita como resultado da ação de intelectuais neomarxistas financiados por milionários liberais, em torno da utopia de um novo iluminismo. Uma das chaves para entender esse jogo de cooperação histórica está no papel do proletariado marginal ou o lumpemproletariado.

Não há dúvidas de que a classe revolucionária dominante nos dias de hoje compõe-se do que Marx chamava de lumpemproletariado, aquela classe desorganizada e cínica que poderia contaminar o proletariado e facilmente acabar servindo aos interesses da burguesia. O proletariado marginalizado e destituído de consciência de classe é potencialmente uma classe de mercenários e traidores. Não é preciso pensar muito para prever que os atuais ativistas LGBT, pró-banditismo revolucionário, etc, seriam os primeiros a se revoltar contra uma ditadura comunista ou uma “ditadura financeira” de megabilionários. Mas são justamente os liberais e marxistas que mantém viva essa classe descartável de idiotas úteis.

Afinal, George Soros foi o responsável pelo fundo que criou a Fundação Marielle Franco. Investiu mais de 10 milhões para causas como combate ao racismo, lgbtfobia e audiência de custódia, clássicas causas que fortalecem o subproletariado ou o proletariado em frangalhos. Ninguém questionará se esse “proletariado” representa mesmo os que originalmente trabalhavam para o sustento da prole. Afinal, se os marxistas desistiram de vez do proletariado originalmente descrito por Marx dada a sua falta de fidelidade à classe, eles souberam substituí-lo por uma massa fiel ao dinheiro dos metacapitalistas.

O lumpemproletariado, para Max, era uma classe abaixo do proletariado, desprovida de recursos econômicos e de qualquer consciência de classe. Teria sido com o controle dessa subclasse (também chamado subproletariado) que Luis Bonaparte teria formado o grupo chamado Sociedade 10 de dezembro, entidade de mercenários que tumultuava e ameaçava de morte e roubo os adversários políticos de Bonaparte para intimidá-los em favor da sua causa. A história é contada por Marx em O 18 Brumário de Luis Bonaparte e exemplifica o uso estratégico do lumpemproletariado por qualquer classe que consiga organizá-lo.

Mobilizados pela Escola de Frankfurt, os estudantes se uniram a essa massa amorfa e disforme (palavras de Marx) que se ocuparam do verdadeiro “trabalho do negativo”, recomendado por Hegel e seguido pelos frankfurtianos. A “crítica total de tudo quanto existe” se tornou a atividade preferida, e bem financiada, dos intelectuais ao longo do último século.

Essa mudança foi possível principalmente graças à percepção marxista de que o proletariado jamais teria a capacidade concreta de organizar-se como classe. A solução foi simbolizar a consciência proletária em outros grupos de revoltados, incluindo aí as “revoluções subjetivas da burguesia” (feminismo, lobby gay), que ironicamente eram associadas ao fascismo pelos marxistas ortodoxos.

Mas a quem coube organizar a massa desorganizada dos fracassados, entre os quais o século XX acrescentou misteriosamente a classe estudantil? Não pode ter sido o proletariado, já que nem mesmo os marxistas confiam mais na sua capacidade de organização. A resposta já tem sido dada por Olavo de Carvalho: coube aos metacapitalistas, herdeiros da ideologia liberal, e temerosos da promessa marxista da expropriação das suas propriedades.

Quando a classe intelectual, representada por professores universitários, reduziu-se a um amontoado de ideólogos mercenários, obedientes ao dinheiro de incentivos governamentais, benesses de fundações internacionais financiadas por milionários estrangeiros, reduziu-se a uma classe útil justamente ao comando dos estudantes, que respondem ao estímulo que os marxistas ortodoxos mais temiam: o dinheiro dos capitalistas.

Família, Igreja e Estado: trindade maldita

Não vem só de velhos marxistas, como Marx e Engels, o ódio ao conceito universal de família, o papel da Igreja e as funções originais do Estado. Liberais que almejam uma sociedade planejada e funcional também desejam ver essas instituições plenamente domesticadas e direcionadas à produtividade.

Para os marxistas, a família é o berço da exploração e também origina a autoridade do Estado. Assim como a Igreja, essas instituições criam obstáculos à formação da consciência de solidariedade de classe. Família atua na solidariedade parental, Igreja na caridade cristã e o Estado (burguês) na obediência às leis (burguesas e portanto exploradoras).

Já para os liberais, essas instituições representam obstáculos à livre consciência e à liberdade individual, oferecendo regramentos externos e solidariedades alheias à racionalidade e gestão racional da vida humana. Para o liberalismo, embora essas instituições sejam respeitáveis, elas não poderiam jamais suplantar a autoridade individual sobre cada um. A autoridade da família limita modelos e projetos de vida, assim como a religião influencia nos limites da ação humana (moralidade).

Uma nova ordem socialista e liberal?

Marxismo e liberalismo são, portanto, raízes comuns do globalismo, que desenvolve-se como um plano de administração total em um novíssimo mundo cujos princípios são a combinação de projetos das duas ideologias. E não é a toa que as duas únicas correntes política permitidas pelo globalismo sejam duas espécies do mesmo gênero: social-democracia e neoliberalismo. Uma estranha dualidade entre socialismo democrático e um liberalismo social, dois nomes para a mesmíssima coisa.

Um plano de governança global agradaria evidentemente os dois lados, mas também poderia ser criticado por ambos. Para marxistas, a solidariedade do proletariado sempre foi supranacional e o controle dos meios de produção, como recursos naturais por exemplo, são tranquilamente satisfeitos com o ambientalismo e ecossocialismo.

Para os liberais, a administração e gestão com o foco na eficiência e no mútuo desenvolvimento das nações em um mundo globalizado. No caso do ambientalismo, a soma da visão ecossocalista e do liberalismo traduz-se no arranjo retórico-prático da sustentabilidade Para esse desenvolvimento, todas as balizas morais e religiosas são obviamente obstáculos inúteis e velharias tradicionais que precisam ser sacrificadas em nome da prosperidade das nações.

O papel do estado é obviamente dúbio no jogo estratégico. Para o socialista, seria preciso atrair funções cada vez mais profundas para as mãos estatais, cujos únicos obstáculos são família e religião, representando o estágio intermediário entre individuo e estado. Neste caso, o liberal coopera quando combate os mesmos obstáculos, mas na esperança da auto-diminuição estatal, o que traria exatamente o mesmo resultado socialista sem que houvesse um fortalecimento da sociedade, o que só ocorreria através das suas instituições naturais.

O universo liberal é o de um estado mínimo e uma sociedade menor ainda, cujo único valor que sobra é o da produtividade, eficiência etc, ou seja, justamente o sonho dos grandes capitalistas. É evidente que sem moralidade a produção será muito maior e a geração de riqueza econômica se multiplicará.

Indivíduos sem família, sem filhos, sem religião ou balizas morais são funcionários perfeitos e exímios trabalhadores produtivos e eficientes, cujo único sentido de solidariedade seria com seus patrões, empresas ou organizações para as quais trabalham. Para satisfazer o sonho liberal, o lumpemproletariado trabalha dia e noite nas suas revoluções subjetivas de liberdade sexual, prazeres ilimitados e uma vida aparentemente livre de amarras morais que fatalmente termina na escravidão dos vícios em drogas, sexo e consumo.

O projeto deste tipo de cidadania dos prazeres satisfaz perfeitamente o plano liberal de sociedade consumista que se vê profundamente livre enquanto é escravizada por seus desejos (e não mais por suas necessidades, como no passado). Ao mesmo tempo, os gostos e prazeres mais subjetivos convertem-se em motivos para a organização de grupos que lutam pelo direito de gostar, desejar e consumir.

Essas “comunidades de sentido” são úteis também ao avanço do marxismo culturalista, que simboliza todo tipo de anseio por libertação de amarras morais como sujeito histórico da revolução, o proletariado perdido.

Uma dúvida que pode ser colocada é: será que depois de extintos todos os valores morais a sociedade será capaz de identificar o que significa prosperidade, riqueza e felicidade? Talvez o velho proletariado, aquele que trabalha para o sustento da prole, foi protestar contra a ordem globalista no dia 26 de maio. Como diz Olavo de Carvalho, estamos vendo o fenômeno de uma esquerda elitista tentando sufocar uma direita genuinamente popular, algo impensável e imprevisível pelo discurso marxista tradicional.

Oposições meramente doutrinais

É claro que há pontos contrários ao globalismo em ambas as doutrinas. Um marxismo mais ortodoxo seria obviamente contrário a essa tutela global das nações, principalmente se não se tratasse de uma governança de base socialista. O financiamento do Grande Capital também seria motivo suficiente para marxistas combaterem a ordem global.

Da mesma forma, o liberalismo, como doutrina contrária a toda centralização de poder, principalmente quando este poder pretende determinar crenças, valores e uma ética supraindividual.

Mas a crítica meramente doutrinal, liberal ou marxista, do globalismo não significa absolutamente nada quando o uso dos seus meios de ação caminha exatamente para a efetivação dessa ordem global. Além disso, tendo os valores universais cada vez mais excluídos da sociedade e ausentes dos debates públicos como questões de foro íntimo e arbítrio meramente individual, sobra-nos o valor da produtividade e da prosperidade material como único valor moral.

Desde que liberais e marxistas aprenderam a utilizar o lumpemproletariado, isto é, a massa de manobra de vagabundos do sistema, como motor das mudanças globais, o único caminho diante do mundo é o do holocausto revolucionário defendido por Marx, que fatalmente eliminará a humanidade antiga em nome do “novo homem”.

Jardim das Delícias (Hieronymus Bosch)

O verdadeiro efeito e objetivo

Mas os intelectuais que comandam a massa de lumpem estudantes prometem um mundo maravilhoso a eles. Se uma ditadura proletária nos pareceu ruim no passado, esses ideólogos prometem um tipo de “lumpem ditadura”, onde valores e virtudes ultrapassadas seriam preenchidos por uma lucrativa e próspera libertinagem defendida como única moralidade possível. Mas esse jardim das delícias nunca vai existir e é apenas uma promessa vã que engana estudantes idealistas e jovens imaturos.

O verdadeiro efeito e objetivo por trás do uso do lumpemproletariado é o de uma ordem global centralizada, cujos critérios de moralidade não terão nada de individuais ou livres, mas administrados juridicamente pela elite de iluminados que os utilizarão conforme entenderem que é necessário para aquilo que acreditam ser o progresso humano.

Mas se você faz parte dessa elite e sabe exatamente qual é o melhor caminho para a humanidade, então pode relaxar e esperar chegar a grande plenitude dos tempos trazida pelos arquitetos da nova ordem globalista.


 
 

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