João Gilberto: o divisor de águas na música brasileira

Por Alexandre Vestalla

A música brasileira jamais seria a mesma a partir daquele outono de 1958, quando a voz de Elizeth Cardoso, acompanhada do desconhecido violão de João Gilberto, passaria a cantar Chega de Saudade, oficialmente inaugurando a Bossa Nova – um verdadeiro divisor de águas no Brasil e no mundo.

Até então, ninguém ligava para samba. Entre a classe média urbana, o estilo só era consumido de forma artificialmente sofisticada, distante dos grandes morros, costurado por complexos arranjos de orquestras, letras dramáticas e vozes extremamente potentes. Era o samba-canção, um estilo lento e introspectivo imortalizado nas vozes de Silvio Caldas, Francisco Alves, Maysa, Vicente Celestino, entre outros – incluindo a própria Elizeth Cardoso que gravaria com João.

Do outro lado do espectro social, o samba de raiz – aquele praticado nas vielas dos morros cariocas – exalava um aspecto exatamente oposto ao padrão radiofônico: era extrovertido, simples, cru, espontâneo, música de preto, música de pobre. Não é exagero dizer que o samba era estratificado, profundamente dividido entre as classes sociais.

Enquanto o Brasil respirava samba, os Estados Unidos se dividiam entre o recém criado rock and roll e o sofisticado bebop jazz de Miles Davis e John Coltrane. Com exceção das excentricidades de Carmen Miranda, ninguém sabia o que era samba na terra de Tio Sam.

Foi João Gilberto – até então, um homem simples do interior da Bahia – que uniu esses três universos radicalmente opostos: o samba de raiz, o samba-canção e o jazz americano. Talvez esse tenha sido seu maior trunfo. Dotado apenas de seu violão, João conseguiu sintetizar a complexa batida do samba em um ritmo simples e inovador – utilizado até hoje em barzinhos de MPB – e, além disso, substituiu a simplicidade harmônica do estilo com a sofisticação do jazz.

A partir de então, o contraste visceral entre o minimalismo rítmico de João com a complexidade dos acordes de jazz consolidaria a fórmula de sucesso da Bossa Nova, conquistando o Brasil e o mundo. Uma verdadeira revolução!

O estilo eternizado nos trabalhos de João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Morais logo chamaria a atenção do mundo ocidental. Admirado pela bossa, o saxofonista Stan Getz gravaria um excelente disco com o baiano criador do ritmo. Frank Sinatra, um dos maiores nomes do jazz mundial, dividiria um álbum inteiro com seu novo parceiro Tom Jobim. Ella Fitzgerald, uma das maiores cantoras de todo o planeta, gravaria um disco somente com covers da Bossa Nova.

Nessa altura do campeonato, a Bossa Nova já havia inundado o mercado fonográfico internacional, se transformando em Brazilian Jazz. Não é por acaso que João Gilberto foi recentemente aplaudido por dez minutos, por fãs em pé, em um auditório no Japão. O violão de Gilberto transcendeu as fronteiras e ajudou a marcar a identidade brasileira no mundo.

Aqui na “terra do samba”, João conseguiu unificar as tribos, enterrando o samba-canção, dando visibilidade ao samba dos morros e abrindo espaço para que a bossa nova conquistasse a classe média urbana. Como se isso não bastasse, influenciou de forma bastante expressiva o surgimento da MPB e da Tropicália, dois dos maiores estilos de música do Brasil. Os trabalhos de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, por exemplo, são fortemente definidos pela estética rítmica do criador da Bossa Nova.

Em tempos de streaming, de música de celular, de bundas falantes, poucas pessoas têm noção da importância do trabalho de João Gilberto. Não é exagero dizer que o trabalho do “pai da Bossa Nova” foi um verdadeiro divisor de águas no samba brasileiro e no jazz americano.

João Gilberto se foi, mas seu legado será eterno.

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