Mídia brasileira: um passeio entre a estupidez e a má fé

MÍDIA BRASILEIRA: UM PASSEIO ENTRE A ESTUPIDEZ E A MÁ FÉ

Foto: Pixabay

Outro dia vi uma “notícia” no Uol, afirmando que o escritor, pesquisador, professor e filósofo Olavo de Carvalho, teria afirmado que o heliocentrismo não se sustentaria cientificamente e que a tese do geocentrismo seria a correta. Em seguida vem uma série de manifestações de especialistas, demonstrando como seria estapafúrdia tal suposta afirmação.

Fato é que, rememorando na ocasião, lembrei que havia assistido exatamente a esse vídeo a que se referiam na “notícia” e não havia compreendido que Olavo de Carvalho tivesse feito esse tipo de afirmação.

No entanto, tenho um critério que utilizo frequentemente antes de formar uma convicção sobre o que quer que seja. É o seguinte: minha primeira hipótese é a de que eu seja quem não compreendeu, eu seja o incapaz, eu seja a pessoa que ignora ou que não tem conhecimentos suficientes para interpretar aquela questão. Em seguida, vou conferir para ter certeza da minha ignorância ou da existência, ao menos provisória, de que há fundamentos para aquilo que penso (digo “provisória”, porque, como se diz por aí, “o problema não é mudar de ideia, o problema é não ter ideias”).

O que fiz foi simplesmente assistir novamente ao vídeo. Constatei o seguinte:

O vídeo, em primeiro lugar, não trata da questão física no que diz respeito ao seu aspecto científico “duro” (ciência da natureza fortemente ligada a modelos matemáticos complexos, experimentos e instrumentos tecnológicos). O tema é ligado à história da ciência, à filosofia da ciência, seus mecanismos estruturais, seu conceito, suas características, suas potencialidades e limites. A questão sobre o antigo conflito entre geocentrismo e heliocentrismo foi apresentada apenas e tão somente como um exemplo da dinâmica dos mecanismos científicos de legitimação de teorias e sua provisoriedade, submetida à constante possibilidade de crítica, contraprova, refutação ou falseamento.

Nesse ponto já se constata uma de duas hipóteses:

  1. O jornalista não compreendeu  nada, sequer de que tema tratava o orador. Não foi capaz de distinguir entre uma exposição histórico – epistemológica e uma discussão acerca de um tema científico – técnico. Isso é assustador e revela um nível rasteiro de capacidade de compreensão, o qual jamais poderia existir num “profissional” que lida justamente com a fala, a escrita e a leitura.
  2. O jornalista compreendeu sim o conteúdo do vídeo e, deliberadamente, produziu uma notícia falsa, criou um “espantalho” para lutar e vencer ( Arthur Schopenhauer), com intuito, ademais, difamatório. Aliás, a configuração do crime de Difamação, previsto no artigo 139, CP (considerando ainda a parte final do artigo 142, II, CP – inequivocidade da intenção de difamar), somente não é indiscutível porque há a primeira hipótese da ignorância e da incapacidade interpretativa e compreensiva profundas, quase patológicas. Nesse caso, aplicar-se-ia, no mundo jurídico – penal o Princípio “Favor Rei” (“in dubio pro reo“). Mais adequado seria um inovador brocardo latino “in dubio pro stultum” (na dúvida absolva-se o estulto).

A verdade é que não há outra opção e qualquer delas é lastimável e desprezível. A questão filosófica tão trabalhada por Sócrates, Platão e Aristóteles sobre a ignorância como raiz de todo mal, deixa a dúvida do que seria pior: fazer o mal por ignorância ou fazê-lo voluntariamente? No primeiro caso (ignorância) há a desvantagem de que o causador sequer tem consciência do que produz e tende a continuar em suas ações maléficas sem qualquer pudor ou remorso. No segundo caso, quando age voluntariamente, expõe sua natureza vil e viciosa. Realmente é difícil saber o que seria pior. No entanto, não sou tão otimista como os gregos clássicos a ponto de crer que realmente a ignorância seja a raiz de todo mal, ao ponto de que, quando esclarecido, o homem não se permitirá agir viciosamente e abraçará a virtude por uma espécie de iluminação racional. Na verdade, a vida cotidiana e a história nos mostram que os homens agem de forma vil, abjeta com plena consciência e insistem nessa atuação, mesmo diante das mais esclarecedoras e evidentes demonstrações de seu erro. Portanto, não desprezo o mal ínsito e potencial da ignorância, mas tendo a crer que o mal causado voluntariamente e conscientemente é ainda mais desprezível e culpável.

O pior é que as duas hipóteses acima formuladas, aparentemente excludentes, não o são. Explico: pode muito bem ocorrer que uma pessoa seja ignorante, incapaz, mas que o seja não somente por uma limitação intelectual. Pode ser, e isso ocorre muito constantemente, que o indivíduo se mantenha deliberadamente numa ignorância que lhe apetece, que lhe é confortável, ainda que vislumbrando a verdade. Ocorre muitas vezes que não há qualquer esforço para emergir da ignorância por pura conveniência; há como que um “saber latente” reprimido pelo apego a trejeitos, ideologias ou simplesmente ao ganho material, ao carreirismo etc. Isso é exatamente o que ocorre quando não se busca a verdade em uma discussão, mas apenas os recursos erísticos para sustentar uma tese (Arthur Schopenhauer), distorcendo ou moldando os fatos como se fossem uma massa maleável ao sabor do desejo. É, em suma, uma manifestação de “ignorância ou cegueira deliberada”, que mistura o desconhecimento com a má fé. E essa mistura é bombástica, capaz de produzir danos terríveis a indivíduos e à própria humanidade.

Retomando a questão do geocentrismo e heliocentrismo, fato é que o que Olavo de Carvalho afirma no vídeo é que se trata, na realidade, e de acordo com o conhecimento cosmológico atual, de uma questão de orientação e posicionamento cósmico. Isso para demonstrar como discussões históricas da ciência, dada sua dinâmica (a ciência é por definição dinâmica e não estática) podem perder o sentido. Se algum dia se discutiu qual seria o “centro” do universo, isso, hoje, não passa de um absurdo. Portanto, falar em geocentrismo ou heliocentrismo é algo inadmissível na atualidade (a não ser que se esteja isolando o sistema Terra – Sol e desconsiderando o restante do universo). Não se sabe bem se o universo é infinito, se está em expansão, são teses discutidas. Einstein, aliás, arriscou afirmar que o universo seria infinito, mas não disse que tinha certeza. Não obstante, afirmou com toda a certeza que a estupidez humana é realmente infinita (é realmente de se crer, tendo em vista a matéria do Uol).  A conhecida “Teoria do Big Bang” não determina um local, uma posição de onde surgiu o universo (este seria então o seu “centro”). Mesmo essa teoria é ainda objeto de estudos e questionamentos. O físico brasileiro, Juliano Neves, Doutor Pela USP e Membro do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Unicamp, questiona o Big Bang em trabalho publicado na revista internacional “General Relativity and Gravitation”. Seja como for, o universo não tem como centro, seja a Terra, seja o nosso Sol (inclusive o nosso Sol não é o único do universo), uma estrela, um planeta, seja lá o que se pretenda.

Interessante frisar que toda a reportagem tem claramente um viés de apresentação de Olavo de Carvalho como representante de um pensamento obscurantista e fundamentalista religioso, incompatível com a ciência. Na verdade, o que Olavo de Carvalho faz no vídeo é expor a dinâmica da ciência, o que é exatamente o avesso de qualquer posição dogmática ou fundamentalista, encontrável, ao reverso, por exemplo, no Positivismo Comteano do Século XIX e no neopositivismo cientificista, materialista e reducionista contemporâneo (Círculo de Viena). Ademais, seria bom lembrar o jornalista responsável e todos que se prestaram a opinar sobre o suposto caso, que a Teoria do Big Bang ora mencionada neste breve texto teve como autor o astrônomo, cosmólogo e engenheiro belga Georges Edouard Lemaître (1894-1966), que era homem da Igreja, Teólogo e ordenado Padre Católico. Para ser mais abrangente é preciso dizer que essa discordância absoluta entre religião e ciência é absolutamente insustentável, porque o cientista acima não é o único advindo da Igreja, há uma plêiade de outros que, inclusive, na mal denominada “Idade Média”, iluminaram o mundo com suas descobertas (a quem interessar leia a obra de Thomas E. Woods Júnior – “O que a civilização ocidental deve à Igreja Católica”, bem como autores como Etienne Gilson, Jacques Le Goff e Regine Pernoud, entre outros).

Enfim, o discurso de Olavo de Carvalho no vídeo não se distancia praticamente daquele proferido pelos maiores estudiosos da filosofia da ciência. Karl Popper (com seu requisito da falseabilidade das teorias científicas) ou Thomas Samuel Kuhn (com suas revoluções e paradigmas científicos na história). Note-se que ambos descrevem uma ciência dinâmica, submetida a revisões, falibilismos e críticas, jamais dogmática ou estática. No pensamento de Popper essa revisão das teorias é mais pontual, enquanto Kuhn descreve modelos que perduram historicamente, mas em ambos pensadores está explícito que a ciência não é dogmática nem tem o poder ou a pretensão de, em algum momento, apresentar a palavra final sobre o que quer que seja. Muito ao reverso, ela vive e se alimenta da dúvida, das perguntas, das respostas provisórias, enfim de uma contínua renovação. Nem é preciso dizer nada a respeito da visão crítica de um filósofo da ciência como Paul Karl Feyerabend. Nenhum desses autores foi jamais submetido a uma tentativa tão desprezível e baixa de distorção de suas exposições escritas ou faladas.

Para não causar algum esforço que possa ocasionar algo similar a uma distensão muscular no cérebro de jornalistas como o responsável pela matéria em comento (avisando a estes, previamente que a analogia entre cérebro e músculo não passa disso, uma analogia ou ilustração, antes que me acusem de pensar que o cérebro humano é um músculo, já que são literais e incapazes de perceber figuras de linguagem num discurso), trago à baila um simples “best seller” de divulgação científica e história. No livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, o aclamado (jamais achincalhado pela imprensa), Yuval Noah Harari afirma, na esteira dos grandes filósofos da ciência que uma de suas características é exatamente a “disposição para admitir ignorância”. Lembra que a ciência moderna é baseada na “sentença latina ‘ignoramus’ – nós não sabemos”. Ou seja, a ciência não tem pretensão à onisciência nem à infalibilidade. Sabe perfeitamente, numa paráfrase socrática, que não sabe tudo. Aceita ainda mais: “que as coisas que achamos que sabemos podem se mostrar equivocadas à medida que adquirimos mais conhecimento. Nenhum conceito, ideia ou teoria é sagrado e inquestionável” (p. 261). E prossegue Harari:

    “Em outros casos, ainda, teorias específicas estão corroboradas de maneira tão consistente pelas evidências disponíveis que todas as alternativas foram há muito abandonadas. Tais teorias são aceitas como verdades – mas todos concordam que, se surgissem novas evidências, contradizendo tais teorias, estas teriam de ser revisadas ou descartadas. Bons exemplos de teorias  desse tipo são a teoria das placas tectônicas e a teoria da evolução” (p. 263).

O âmago do que Olavo de Carvalho diz em seu vídeo e as afirmações dos grandes filósofos da ciência moderna e do autor “best-seller” Yuval Noah Harari, são extremamente coincidentes. No entanto, não se vê Uol, Folha de São Paulo, Globo ou outros meios de comunicação de massa acusando Popper ou Kuhn de fundamentalistas, dogmáticos e muito menos obscurantistas. Suas palavras não são distorcidas, seus discursos não são virados no avesso. Yuval N. Harari é uma estrela em todas as críticas jornalísticas de suas obras, seja “Sapiens”, seja “Homo Deus” ou qualquer outra. Ora, se houvesse alguma coerência, então seria de se dizer que ele afirmou a invalidade da Teoria das Placas Tectônicas e da Teoria da Evolução em seu livro sem sequer apresentar qualquer argumentação! Mas, não foi isso que ele fez, ele apenas descreveu a natureza do conhecimento científico e o fez de maneira correta, assim como o fez Olavo de Carvalho e, cada um a seu modo, Popper e Kuhn.

Um mero exemplo histórico (que poderia ser qualquer outro) contextualizado numa exposição sobre a natureza do conhecimento científico em geral, é convertido, sem mais nem menos, no centro, no tema de estudo do vídeo de Olavo de Carvalho, quando isso jamais correspondeu à realidade do que ali consta, o que pode ser verificado por qualquer pessoa que seja intelectualmente capaz e honesta.

Enfim, ficamos vagando nesse mundo entre a estupidez e a má fé, ambas com enorme potencial de ilusão de multidões desavisadas.


 
 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *