Dia 30, o segundo aviso

Foto: Matheus Bazzo.

O crítico literário Angelandrea Zottoli tem uma interpretação interessante, e que vem muito a calhar para entender nosso momento político, sobre o clássico Os Noivos, de Alessandro Manzoni. Segundo Zottoli, a obra de Manzoni não é um romance histórico, segundo as formas estabelecidas por Walter Scott, grande precursor do gênero, mas um livro de história, já que, além de os fatos políticos, a peste e alguns personagens da elite serem reais, os protagonistas, Renzo e Lúcia, dois humildes camponeses, são, também, encarnações reais do povo italiano. Ou seja, Manzoni teria escrito um verdadeiro livro de história, só que visto desde uma perspectiva popular.

Segundo essa análise de Zottoli, respaldada pelo gigante Otto Maria Carpeaux, Lucia seria a encarnação do povo pacífico, piedoso, obediente e resignado, enquanto Renzo simbolizaria o senso de justiça, a vontade de ação, o espírito revolucionário. Então que o casamento dos dois, que só acontece depois de uma epopeia guiada sutilmente pelas mãos da Providência, sintetize toda a essência de um povo. Segundo Carpeaux, a obra é “o quadro completo da vida de uma nação em determinada época histórica”.

É senso comum que o povo brasileiro é pacífico e, do ponto de vista político, isso parece ser mesmo uma verdade. Para os negócios políticos, o brasileiro comum é manso, às vezes pusilânime. Está lá o senhor o sacaneando, o passando para trás, lhe roubando a paz e as posses, e ele dá de ombros, vai preparar o churrasco, vai ver seu futebol, vai fiar suas meias. Afinal, político é tudo bandido e não há o que fazer. É, por conseguinte, em essência, a boa Lucia.

Entretanto, de uns anos para cá, essa paciência luciana vem se esgotando. Para continuar com Os Noivos, o senhorio brasileiro lembra muito o Dom Rodrigo, nobre estrangeiro – quer dizer, alheio aos sentimentos daquela gente – que faz o inferno na vida dos pobres Renzo e Lucia, o povo de Zottoli, por causa de besteira, por uma tirania sem razão, como que por sadismo, pela mera vontade de ver seus servos sofrerem.

Aqui entra o povo brasileiro se tornando, por assim dizer, renziano. Já faz cinco anos que uma massa bastante representativa tem ido às ruas, pacificamente. E é uma massa que advoga pelo Brasil que ainda tem alguma religião, algum valor familiar, que tem vontade de empreender, vontade de pôr os corruptos na cana e vontade de ver suas demandas atendidas pelos mandachuvas de Brasília.

Só que a classe política, respaldada pelos formadores de opinião, sempre finge que não ouviu, que não liga, ou que o clamor das ruas é irrelevante. Por conseguinte, seguem com as mesmas maracutaias. “Eles querem armas? Não as daremos”. “Eles querem ajeitar a aposentadoria e fazer com que sobre dinheiro no governo para melhorar suas porcas vidas? Não, não tudo isso. Vamos dar umas migalhas”. “Querem que endureçamos as leis, que prendamos os criminosos? Depois vemos isso. Que morram mais alguns”.

Aí esse povo luciano chega no seu limite e, como Renzo, sobe num barril, em meio a um motim, e diz:

“[…] já que hoje se viu claramente que quando nos fazemos ouvir obtemos o que é justo [o nosso impeachment], é preciso ir adiante assim, até que se ponha remédio em todos os outros abusos, e que o mundo seja um pouco mais cristão. Não é verdade, meus senhores, que há alguns tiranos que fazem tudo ao contrário dos dez mandamentos, e vão buscar gente pacífica, que não pensa neles, para lhes fazer todo o tipo de mal e depois têm sempre razão? Aliás, quando fazem algo muito mais grave do que o normal, caminham com a cabeça mais erguida, parecendo que se deva agradecer-lhes[…]?” Grifo meu.

E continua:

“[…] Então, digam-me uma coisa, meus senhores, se por acaso já viram um desses com o focinho atrás das grades. E o que é pior (e isso posso dizer com segurança) é que as leis existem, impressas, para castigá-los, e não são leis sem fundamento. São tão benfeitas que não podemos encontrar nada melhor, todas as malandragens são nomeadas claramente, exatamente como acontecem e, para cada uma, o seu bom castigo. E dizem: seja quem seja, nobre ou plebeu e não sei mais o quê. Agora, vão dizer aos doutores, escribas e fariseus que façam justiça conforme dita a lei, dão tanta atenção como o papa aos patifes, coisa de enlouquecer qualquer homem de bem. Vê-se claramente que o rei, e aqueles que mandam, gostariam que os malandros fossem castigados, mas não se faz nada disso, porque existe uma liga. Assim, é preciso rompê-la[…]”. Grifo meu.

 

Vá lá que o estilo de Renzo não seja o melhor exemplo de cidadania ou de ação política. Aliás, o próprio desenrolar do romance mostra que, conforme ele amadurece, vai arrefecendo essa ânsia revolucionária, vai reconhecendo seus limites e tornando-se mais ciente de que a realidade não se transfigurará, da noite para o dia, para satisfazer suas reivindicações.

Porém, a indignação do Renzo, bem como a do brasileiro que, ontem, foi mais uma vez às ruas, é perfeitamente justificável.

Nas manifestações de 26 de maio tivemos um fenômeno todo novo na história brasileira. Pela primeira vez, a massa foi às ruas com uma pauta propositiva. Até ali, as grandes manifestações políticas no Brasil tinham como mote uma negação: não às vacinas; não ao comunismo de Jango; não ao PT. Agora, o povo politicamente engajado, representante de uma faixa significativa da população, está saindo de casa para dizer o que quer, para cobrar dos mandatários da capital a realização do programa vencedor no último pleito. Afinal, o raio da democracia não serve para isso?

Dia 26 foi o primeiro aviso. E foi pacífico, luciano, tranquilo, como de costume. Ontem, dia 30, o povo nas ruas deu o segundo aviso. E os nervos já estavam mais tesos, as cordas mais esticadas, o tom um pouco mais alto. Isso, porque, depois do dia 26, a resposta da classe política foi decepcionante: o Centrão – e adjacências – fez-se de louco; o Senado recusou o armamento; houve parlamentar dizendo que não poderia ceder às pressões populares; congressistas com processos até o pescoço aceitaram denúncias capengas de um hacker à serviço de poderes estrangeiros e sabatinaram, vergonhosamente, um herói nacional; a Câmara retardou a votação do pacote anticrime etc.

Ontem, portanto, foi o segundo aviso e não sei quantos mais o povo dará com a mesma parcimônia. Ocorre que, se a classe política teimar em não ouvir, das duas uma: ou esse povo desanima e cai de vez na apatia resignada de Lucia ou estoura o pavio da revolta e a massa desembesta a seguir a via de Renzo – que é um pouco a dos ucranianos.

Creio que nenhuma das duas saídas sejam boas. Tal como no livro, o ideal é o casamento, uma mescla dessas duas forças, um equilíbrio. Só que em Manzoni, o casamento só foi possível depois de uma terrível peste que matou muita gente, inclusive o Dom Rodrigo. Espero que nossos políticos, os grandes responsáveis pelo desfecho dessa trama, não precisem de um remédio tão desastroso.

 

 

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