Mike Barr, Rainy-day cityscapes.

“Ele realiza maravilhas insondáveis,
milagres que não se pode contar. Derrama chuva sobre a terra
e envia água sobre os campos”. Jó, 5, 9:10

Hoje minha São Paulo amanheceu debaixo d’água. Chove com insistência, uma chuva grossa e fria. E no céu não se vê mais que uma única nuvem muito negra que prenuncia mais horas ou mesmo dias dessa mesma chuva irritante.

Mas é bom que chova em São Paulo e que essa chuva castigue mesmo os guarda-chuvas dessa gente nervosa – pois com as meias empapadas –, que entram e saem se atropelando no Terminal Jabaquara.

Pois, qual não seria a bênção se um carro malandro passasse de propósito por uma dessas poças geladas e lamacentas, formadas no asfalto irregular, e ensopasse todos nós que aguardamos o ônibus sob abrigo da Armando de Arruda Pereira.

Daí que enquanto xingássemos palavrões e lhe mostrássemos o dedo, talvez olharíamos para trás e talvez veríamos a criancinha em regata e bermuda, descalça e pingando, sendo enxotada de uma a uma das barracas do camelô, cada qual com sua quinquilharia ou com sua comida azeda dos vermes ou roída pelos ratos, pois julgavam a menininha demasiado suspeita. Podia ser que aí algum dos transeuntes revoltados pela chuva, pelo trabalho e pelo pé molhado, saísse da horda, enxergasse a menininha, e lhe desse capa e almoço.

É bom que chova em São Paulo.

Demais, se chove, e forte, há temor de Deus. Daí o chinês lá da 25 lembra do seu Buda, o jovem judeu sovina de Higienópolis lembra da sua Torá, o árabe, desde Santo Amaro, prostrado, olha pra Meca, a nordestina, lá do Cocaia, lembra de botar seu copo de água pra benzer – orando na língua estranha que seu pastor lhe ensinara – e a velha italiana do Bexiga, depois de tempos, enfim, se apega no seu terço.

É bom que chova em São Paulo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *