Acusação de colunista expõe método de guerra informativa praticado por jornais

O colunista do UOL, Maurício Stycer, acusou o apresentador Ratinho de disseminar fake news na entrevista com Sérgio Moro, na última terça-feira (18), ao se referir às suspeitas que pesam sobre o ex-deputado Jean Wyllys, que segundo informações divulgadas por um perfil hacker, teria vendido o mandato ao deputado David Miranda, por meio do seu namorado Glenn Greenwald, operador do site The Intercept Brasil.

O colunista do UOL se tornou fonte para outro texto, já em tom jornalístico, que estende a acusação ao presidente Jair Bolsonaro e seu filho, Flávio, dando a impressão de que eles teriam cometido crime ao sugerirem ser verdadeiras as hipóteses levantadas por um perfil hacker Pavão Misterioso, que pode ter fornecido importantes elementos à Polícia Federal, conforme noticiamos nesta quinta-feira.

As palavras do apresentador Ratinho, que servem de base para as matérias, foram as seguintes:

“Eu estava lendo, não sei se é fake news, que está vinculado um milionário russo, que deu dinheiro para um jornalista muito conhecido. Esse jornalista é namorado de um deputado e comprou o mandato do deputado Jean Wyllys. Tudo isso eu recebi, não sei se é fake news. Recebi! Se for verdade, é muito maior do que a gente imagina. Porque envolve outro país.”

O colunista, assim como a matéria do UOL que se baseou nele, confunde propositalmente a divulgação de uma suspeita lançada com o crime de calúnia ou difamação, ao sugerirem que os fatos podem ser verdadeiros. Em nenhum momento houve acusação, coisa que os jornalista tentam a todo custo insinuar que houve para fortalecer a versão de que se trata de fake news.

Se as suspeitas lançadas por Ratinho, ao vivo, são fake news, o que dizer de toda a cobertura jornalística feita até agora sobre as mensagens obtidas ilegalmente dos celulares invadidos do Ministro Sérgio Moro e dos procuradores federais? Todas as reportagens feitas até o momento estiveram apenas mencionando os vazamentos feitos pelo site The Intercept Brasil, mas insinuam parcialidade buscando claramente afetar a legitimidade das condenações da Operação Lava Jato . E sobre essas reportagens não pesa nenhuma acusação de fake news, afinal, foram todas escritas na condição de hipóteses, assim como os supostos fatos trazidos à tona pelo perfil hacker, no último domingo (16).

Mas a mera menção de hipótese contrária à suspeita de grande parte dos jornais (na verdade, a suspeita se origina no próprio Intercept), é imediatamente classificada como uma grave mentira. Mas por que colunistas como Stycer, assim como a maioria dos grandes jornais, cometem tamanha desonestidade? A resposta é muito simples.

Eles sabem que a divulgação de meras suspeitas, informações não confirmadas ou hipóteses tiradas de qualquer lugar, são suficientes para enfraquecer, desgastar e desmoralizar instituições ou pessoas. Ainda mais quando sugeridas em massa pela imensa maioria dos veículos de mídia, dando a impressão de uma crise real. E por isso mesmo tratam a mera menção da hipótese como “acusação grave”, que deve ser tachada imediatamente como uma ruptura com o jogo democrático, uma disfunção do processo, trapaça em um tabuleiro definido por eles.

O que estamos vendo é algo inédito: a mídia independente (entre as quais está o Estudos Nacionais) repercute e analisa as hipóteses consideradas relevantes pela investigação da Polícia Federal, enquanto grandes jornais fingem fazer jornalismo enquanto apenas reportam o que dizem os mesmos suspeitos, aliados a terroristas e criminosos que invadem celulares de ministros e procuradores. A grande mídia reduziu-se, voluntariamente, a um grupelho de teóricos da conspiração e disseminadores de ideologia, precisamente como acusam os que insistem em reportar o que acontece de fato.

Estaria nesta mídia independente as únicas esperanças de um jornalismo comprometido com a verdade?

Táticas manipulatórias têm razão de existir e precisam ser demonstradas

O que em princípio parece ser uma tática boba e óbvia de ser descrita, passa despercebido por uma grande quantidade de pessoas que acabam confundindo os grandes jornais com canais de informação, o que há muito tempo deixaram de ser. Hoje em dia, as verdades velhas e óbvias precisam de densa fundamentação, além de repetição incessante, sob pena de serem esquecidas e se tornarem fake news.

No meu livro A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016), apresentei uma densa bibliografia para comprovar e deixar fora de dúvidas o fato já admitido pela imensa maioria dos jornalistas e pesquisadores de comunicação: a mudança da função informativa para a função transformadora. Não basta dizer isso, é preciso comprovar e demonstrar o modo como é feito. Há nesse livro até uma pesquisa de análise de conteúdo, feita em um jornal brasileiro de grande circulação, que foi objeto de minha dissertação de mestrado. Dentro dos limites de amostragem da pesquisa, ficou comprovada a prevalência do discurso transformador e pedagógico na temática ambiental e política.

Do mesmo modo, neste ano de 2019, lancei o livro Fake News: quando os jornais fingem fazer jornalismo, que buscou dar outro enfoque à mudança exposta no primeiro livro, trazendo à tona o problema da simples mentira como subfunção que parasitou a atividade jornalística ao longo da sua existência, culminando na fatídica cobertura das eleições de 2018.

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