La Buveuse Assoupie. Pablo Picasso, 1902, óleo no painel, 80 x 62 cm

 

“O espírito do homem o sustenta na doença, mas o espírito deprimido, quem o levantará?” 

Provérbios, 18:14

Cismei que minha vizinha queria me assassinar. Morávamos há mais de ano nos fundos desse quintal velho e nunca trocamos mais de duas palavras. Nunca.

Ela vivia trancafiada naquele cubículo de dez metros quadrados, idêntico ao meu, e como também saio pouco – pois sofro da coluna e sou aposentado por invalidez – eu a via quase sempre como um vulto que passeava de um lado para o outro na sua janela que dava de frente para a minha.

Às vezes calhava de nos trombarmos no corredor que levava ao portão da rua. Mas, mesmo nessas ocasiões, só nos comunicávamos com acenos tímidos, maneios com a cabeça e muita má vontade de parte a parte. Eu sempre desconfiado e ela sempre soturna, misteriosa.

A mulher acusava ter uns quarenta. Era feia, alta, desengonçada, meio corcunda, de andar lânguido, arrastado, como uma alma penada que leva uma pesada bola de ferro presa aos calcanhares. No começo, quando ela veio morar aqui, não tive essa cisma, digo, essa cisma de que ela quisesse me matar. Talvez pelo fato de que a dona do quintal, uma senhorinha muito gentil, estivesse sempre por ali preservando o mínimo do decoro nas relações humanas, dando bons dias para um e para o outro e, não raro, puxando alguma conversa mais longa, sobretudo com a vizinha. O curioso é que nessas conversas entre as duas praticamente só se ouvia a voz da dona. A vizinha, esta falava pouco e muito baixo, sempre amuada, como que doente.

Numa dessas conversas, não me contive e fui bisbilhotar. Fechei minha janela com uma manta grossa, me sentei num banco ali do lado e espichei os ouvidos. Ouvi pouco, mas o suficiente para descobrir que a mulher era viúva recente. Perdera o marido numa chacina, pouco depois que casaram. No susto, perdera também um filhinho ainda na barriga. Seria o primeiro do casal.  A moça, vinda do norte, ficou desamparada. A tragédia fez com que caísse numa depressão brava. Daí aquele estado.

Na hora tive pena da mulher e vergonha dos meus pensamentos malvados. Não obstante, confesso, ainda me dava certos calafrios e repugnâncias o seu passo arrastado quando cruzava a minha porta, tarde da noite. Afinal, uma pessoa naquela situação… com os parafusos fora do lugar… bem que podia querer me matar, não? Qualquer um que estivesse na minha pele – e disso estou seguro – temeria aquele maldito passo arrastado, fantasmagórico, vagueando no corredor, em alta madrugada.

Minha exasperação, quer dizer, o medo de ser assassinado, aumentou quando a dona do quintal resolveu passar uma longa temporada na chácara que tinha no interior. Daí ficamos só a vizinha e eu.

Certa feita, quando já contava para lá da meia noite, ouvi, como de costume, os passos lentos da vizinha vindo pelo corredor escuro. Porém, percebi, espantado, que dessa vez ela parara na minha porta. “Droga, ela nunca para aí”, pensei, gelado. E era verdade. Ela sempre ia até o portão, demorava uns cinco minutos e voltava para o seu quartinho. E fazia isso, ritualmente, sempre àquelas horas, sabe-se lá com que fim. Agora, isso de parar na minha porta, jamais. Mas o fato inegável – pois ouvira seus passos e sua sombra invadia sorrateiramente meu quarto – é que ela estava mesmo ali. Enfim, bateu.

Meu coração rebentou. Hesitei, por impulso, e fingi que dormia. Estava deitado e da minha cama dava para ver o vulto de suas sandálias, as que faziam aquele barulho medonho, embaixo da minha porta. Resolvi esperar, pois, “vai que ela desiste”. Algo me avisava que ela estava com uma faca só esperando que eu abrisse a porta para cravar a arma no meu bucho. Aliás, era esse o meu temor desde sempre, “um dia ela aparece na madrugada e não terei tempo nem de correr”. Cheguei mesmo a ter pesadelos com isso.

Ela bateu mais uma vez, mais uma e uma outra. Não batia com jeito de quem estava nervosa ou em desespero. Era uma batida ritmada, algo fúnebre, lembrava a batida dos bons assassinos dos filmes. Batia de leve, respeitosamente e imaginei, “bate assim só para ganhar minha confiança. Coisa de psicopata”.

Não tinha como simular ausência,  pois minha televisão estava ligada – no máximo, dava para fingir sono pesado. Entretanto, depois de mais algumas batidas, sobretudo se ficassem mais forte e mais constantes, o disfarce ficaria inverossímil. “Vou ter que encarar e, se ela vir me matar, eu me defendo. Ou não sou mais um homem?”.

Fiz menção de responder, mas, de novo, a imagem daquela mulher medonha com uma faca me golpeando reteve-me e convenci-me a esperar só mais uma chamada, aí, “seja o que tiver de ser”.

No entanto, não houve mais batidas. Ouvi seu chinelo odioso se arrastando e vi seu vulto encurvado cruzando a janela pela última vez.

Escrevo esse relato no dia do enterro dessa pobre mulher. Eu mesmo estive lá. Coitada. Naquele dia da batida na porta ela se matou. E fui eu quem descobriu. Bem, na verdade, foi a dona do quintal. Mas fui eu quem a avisou do cheiro esquisito saindo da janela da vizinha. Quando a dona, chegada às pressas – pois insisti muito sobre o cheiro ruim – invadiu o quartinho e encontrou a desgraçada estirada no chão, com o pote de comprimidos vazio ao seu lado, já tinham corrido seis dias desde a batida na porta.

Sei a data do suicídio – sem dúvidas o dia da batida na porta – pois na sua cama acharam um bilhetinho de despedida, muito tocante, inclusive:

“Quis viver, mas, sozinha, não aguentei”.

Uma pena. Pobrezinha.

3 thoughts on “A Vizinha

  1. Ótimo conto! Muito triste. E o pior é que eu me coloquei na pele do narrador, e entendi seu medo. Mas graças a Deus, não teria agido da mesma forma. E ao fim, se tivesse agido, seria assaltado pela culpa, e não pela indiferença do protagonista.

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