Hoje a 23 de Maio e a 9 de Julho são nada mais que caminhos lotados de carros e gente estressada que as cruzam, todo dia, indiferentes, que as pisam, sempre, sem reverência.

Hoje os paulistanos passam pelo Obelisco, ali de frente para o Ibirapuera, ao lado da Assembleia, e não lembram de seus mortos, nem se maravilham com seu lago, nem mesmo se irritam com seus políticos.

Hoje Miraguaia, Martins, Dráusio, Camargo e Alvarenga são só fantasmas que povoam à mente de uns poucos velhos consciensiosos e de uma elite de doutores. Para o resto, como para o cabeleireiro que acaba de me cortar o cabelo, não existem. Existe a 23 e a 9 de Julho, aqueles infernos no horário de pico. Eles, seus mártires, não.

Hoje todos gozamos a folga e louvamos o fato de não termos que passar pela 23 e pela 9 de Julho. Honramos, pois, o feriado, mas damos de ombros às vidas perdidas e aos ideias louvados que nos garantiram esse dia de desforra. Por isso nos matamos e por isso somos esses pobres de espírito. Pois, segundo os sábios, sem a memória dos nossos grandes feitos e dos nossos grandes heróis, como os de 32, não somos um povo, somos só essa gente alheia e estranha que buzina, xinga, assalta e assassina, à luz do dia, em plena 23 de Maio, em plena 9 de Julho.

2 thoughts on “A folga e a memória

  1. Eric Voegelim é mágico em suas previsões: “um povo sem história, sem a memória de seu passado, não desenvolve nem a racionalidade, nem a moralidade. O exemplo de Roma é vivo e nos ensina: sem a tradição e seus cultos e reverencias, o hábito e a memória se enfraquecem e junto com eles a unidade social desmorona.

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