Atravessava o Viaduto Santa Ifigênia já em fins de tarde quando divisei um motim na frente do Mosteiro de São Bento. Uma grossa roda de homens engravatados e simples, mulheres bonitas e feias, mendigos, lojistas subidos da Ladeira Porto Geral, baristas e clientes do Café Girondino e uns três monges que interromperam as vésperas, agitavam os corpos, sacudiam os braços e soltavam uns gritos nervosos que, donde eu vinha, não dava pra discernir. Parecia o horário de pico na Bolsa de Valores.

Ameacei ignorar a cena e descer as escadarias do metrô, para onde dirigia-me. Todavia, à medida que caminhava, meus olhos concupiscentes, meus ouvidos mexeriqueiros e minhas pernas machadianas foram me arrastando para o grupo que já era grande o bastante para impedir que os do fundo assistissem o que acontecia no centro.

Fui então me esgueirando, chegando manso àquela gente irada, carregando junto a vergonha interna de quem faz aquilo que sempre denuncia nos outros. No fim, me uni aos fofoqueiros.

Dali os gritos eram audíveis.

— Vagabundo! Tem que morrer!

— Leva ele logo! Não solta!

— Fi duma égua! Pilantra! Por que não trabalha, hômi?

— Vai em cana, safado! Lá aprende a lição.

Entendi que se tratava de algum criminoso surpreendido pela turba. Daí que já dominado pela curiosidade e tendo ao lado vizinhos tão desinformados quanto eu, sacudi a cabeça de um lado a outro entre as frestas daquela barreira humana, dei uns saltos, procurei uma melhor posição, porém, tudo em vão. Nada lá do núcleo era alcançável.

— E cadê essa ambulância que não chega? – gritou um dos mais impacientes.

— Isso é culpa da crise na economia! – bradou um homem de terno que trazia uma pasta de couro nas mãos.

— É nada! É coisa dos políticos ladrões! – soltou uma senhora negra com umas muambas trazidas da rua 25.

— O negócio é essa reforma da previdência que não sai. – pontificou, bravíssimo e cheio de si, um senhor de boina e bengala.

— É a violência, povo! A violência! Ô, mainha! – fez uma outra tia baixinha com sinais de mal-estar.

— Jesus está voltando, irmãos! Aí estão os sinais! Arrependam-se! – suplicou, aos berros, um sujeito meio maluco que trazia consigo um grosso volume do Livro Sagrado.

— Foi o fascismo! Fascistas, fascistas… – ensaiou o coro um grupo de seis ou sete estudantes com camisetas vermelhas dalgum movimento social pró-moradia que vinha de algum protesto na Sé.

— Que fascista, seus comunas! Foi o PT que fez a coisa chegar a esse ponto. Culpa daquele bandido! – berrou, possessa, uma senhora cinquentona que vinha à missa das 18h.

— Coxinha! Isso tá na conta do Bolsonaro, aquele maluco! E desses monges, filhos dessa Igreja corrupta! – retrucou assim um homem de meia idade, com óculos de grau e barba desleixada que vi saindo do café.

— Olha aqui, seu pilantra – fez um bombado com cara de milico à paisana – foi a esquerda que quebrou o país, culpa de vocês. E deixa os padres em paz, babaca.

Nisso o outro se sentiu por demais ofendido, fez que ia às vias de fato e foi. Armou-se aí a quizomba. Um foi para cima do outro já aos socos e pontapés e, sabe-se lá que demônio baixou no lugar, mas todo mundo, mesmo as velhas, quis tomar parte na contenda. Houve um empurra-empurra generalizado, troca de tapas e ofensas das mais brutas, quedas, corre-corre, ditos em latim lançados aos céus pelos monges, uma zona, tudo sob o olhar atento e piedoso de São Bento que pendia acima duma pilastra encravada entre os dois portais que davam acesso à Igreja.

E acrescentou-se ao pandemônio uns guardas civis e funcionários da estação que com seus apitos e cassetetes tiveram pouco sucesso em dispersar a turba.

Abstendo-me de entrar na capoeira e já observando tudo de um ponto mais afastado, notei um rapaz pardo, alto, esguio, cabelo curto e cara de espanto saindo de fininho de dentro da massa. Ia saindo assim, como quem não quer nada, de cabeça muito baixa, arrastando o passo, como quem não pode ser notado. Foi escapulindo, escapulindo, aos passos de felino e andou assim até que ganhar segura distância dos pelejadores. Tendo logrado isso, meteu o pé em desesperada carreira, dobrou alguma esquina e desapareceu.

O dito cujo sumiu e no mesmo instante um estampido muito forte irrompeu. De um só tempo tudo ficou muito nublado e só se podia ouvir o tropel da multidão em fuga. A PM havia chegado com seus escudos em riste e suas bombas dispersivas aos ares.

Foi o que deu jeito na coisa.

Conforme a nuvem foi baixando, notei que só uns poucos ainda restavam no local. Eram os monges e uns lojistas que se mantiveram aquém da confusão e davam parte do tumulto aos homens da lei.

Só então pude ver o que havia no meio daquele círculo misterioso, a coisa que se tornara objeto de tão acirrada disputa social.

Era um cadáver.

 

1 thought on “A causa do problema

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