De acordo com os dados do Anuário Pontifício de 2025, e do Anuário Estatístico Eclesial de 2023, a população de fiéis católicos aumentou entre os anos de 2022 e 2023, indo de 1 bilhão e 390 milhões para 1 bilhão e 406 milhões, um crescimento de 1,15%. A informação, divulgada pelo Escritório Central de Estatísticas da Igreja, da Secretaria de Estado, foi recebido com celebração e otimismo por parte da maioria dos meios de comunicação católicos. Mas será mesmo que devemos comemorar? Há um dado que geralmente aparece apenas no final das matérias: a diminuição das vocações religiosas. Mas o que isso tudo indica?
Essas informações aparecem em meio ao crescimento da hostilidade a católicos em todo o mundo. De acordo com o site católico ACI Digital, o Observatório sobre Intolerância e Discriminação contra Cristãos na Europa (OIDAC) registrou 2.444 crimes de ódio anticristão em 35 países europeus em 2023. Esse número inclui 232 ataques pessoais que vão desde assédio e ameaças até violência física.
É a mesma tendência observada no Relatório sobre Liberdade Religiosa publicado em 2023 pela fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) que fala de “um aumento considerável de incidentes envolvendo indivíduos ou grupos que defendem certas opiniões ideológicas intolerantes com as crenças religiosas de outros”, o que se refere evidentemente à fé cristã. O AIS trata, em geral, de diversas denominações, sendo um tanto generalista.
“Os ataques se concentraram principalmente nos fiéis de comunidades religiosas (ou seja, católicas e evangélicas) e geralmente foram cometidos por membros de grupos pró-aborto e pró-feministas, e por grupos que promovem a ideologia de gênero”, diz o documento.
“Na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Haiti e México, foram relatados incidentes (em vários casos, crimes), como ataques a pessoas religiosas, atos de vandalismo, profanação ou ofensas a sentimentos religiosos”, diz o relatório.
Uma tendência semelhante aparece no Relatório Ataques à Liberdade Religiosa na Espanha 2023, feito pelo Observatório para a Liberdade Religiosa e Consciência, que registra 41 ataques a locais de culto e símbolos religiosos, 54 casos de zombaria da religião e 65 casos de “secularismo beligerante”.
“Embora o número total de ataques à liberdade religiosa tenha diminuído, a realidade é que este ano de 2023 eles foram mais violentos”, diz o estudo. “Essa polarização em relação ao fato religioso não está ocorrendo só na Espanha, mas no resto da Europa e no mundo”.
O estudo aponta que “72% dos ataques à liberdade religiosa na Espanha têm como alvo os cristãos em geral e, especificamente, mais da metade dos ataques (55%) foram contra a confissão católica”.
Cresce vocações religiosas femininas e diminuem seminaristas
Embora o levantamento tenha detectado uma queda no número de religiosos e religiosas professas, um aumento parece ser notado exclusivamente na África, continente em que todo o cristianismo sente o peso da perseguição de muçulmanos. No entanto, o número de sacerdotes ainda é menor que o ano anterior, mostrando queda acentuada, o que é ainda mais perceptível no continente americano, especialmente na América do Sul.
Apesar da redução global e em algumas realidades continentais, vocações femininas continuam sendo uma realidade: o número total de religiosas representa 45% a mais do que a população sacerdotal.
Por fim, quanto aos seminaristas, a tendência temporal observada no mundo do número de seminaristas maiores denota uma diminuição ininterrupta desde 2012. O número de candidatos ao sacerdócio passou de 108.481 em 2022 para 106.495 em 2023, com uma variação de -1,8%. A diminuição, observada no total mundial, afeta todos os continentes, com exceção da África, onde os seminaristas aumentaram 1,1% (de 34.541 para 34.924).
Comentário do editor
O que há de errado com isso? Em geral, considerando certas culturas inseridas no meio católico, pode não ser tão difícil ao cidadão médio converter-se e se dizer católico. A perseguição em lugares longinquos pode favorecer até um certo prestígio no seu meio, além de uma chance de justificar suas antipatias ideológicas. Mas abraçar uma vocação religiosa é mais difícil do que isso e exige outro tipo de transformação, algo que possa ir além do apostolado de internet e de marketing digital. Os católicos que se veem diante de desafios reais para a sua fé, em geral, saem perseguidos e estigmatizados. A partir daí, surgem encruzilhadas de percurso, que podem conduzir a uma vocação religiosa ou não.
As vocações religiosas, embora extraordinárias, são em número maior do que se imagina. A sociedade moderna acostumou-se à ideia de uma vida ordinária distante ou indiferente à prática religiosa, o que favorece a ideia de que vocações são exceção e um chamado muito espetacular. Além disso, o crescimento do protagonismo leigo reforçou essa ideia de uma adesão parcial à fé e às verdades mais cruentas da religião que Nosso Senhor transmitiu, cuja depositária permanece sendo a Santa Igreja Católica, vista por revolucionários como oportuno palanque de suas agendas e, por conservadores, como reduto indigesto de esquerdistas.
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