O fantasma do “retrocesso” e outras superstições do imaginário jornalístico

O fantasma do “retrocesso” e outras superstições do imaginário jornalístico

30/10/2018 0 Por Cristian Derosa

Como quem descreve um processo histórico objetivo, jornalistas, intelectuais e celebridades da mídia usam frequentemente a palavra “retrocesso”. A expressão, que significa o contrário de “progresso”, traz de maneira sutil uma condenação usada no passado para justificar todo tipo de destruição física e moral de adversários considerados um “obstáculo” ao progresso da revolução ou levar ao esquecimento e irrelevância quem represente o retorno de algo tido como superado. O retrógrado é alguém contra uma maré entendida como marcha histórica obrigatória e inevitável. Mas o que está por trás dessa crença tão comum?

Parece um ponto indiscutível, no ambiente da grande mídia, que a entrada em cena das guerras culturais, religiosas e comportamentais na política representam um retrocesso. Mas como uma escada que não leva a lugar algum, o progresso entendido pelos analistas não é nada mais que uma superstição.

Durante muitos séculos se buscou em vão captar o sentido da história, o rumo do processo histórico. O resultado de século de busca, que mistura cristianismo com ideologia revolucionária, é essa superstição moderna que alcançou as opiniões daqueles que nunca buscaram nada além de uma retórica persuasiva para empurrar as massas ou a sociedade para o lado que desejam. Considerar avançada uma postura é torná-la magicamente superior às outras, que passam a ser retrocessos que obstruem o avanço pretendido, desejado e maravilhoso para o qual todos desejam.

Com a expressão retrocesso, não se está obviamente falando do tempo histórico como uma fita sendo rebobinada. O tempo, afinal, não volta atrás e as repetições históricas são discutíveis. Para compreender o que se quer dizer com retrocesso, usado para caracterizar negativamente um ator ou corrente política, é preciso investigar o principal pressuposto para a utilização dessa expressão. Esse pressuposto está presente mesmo em quem nunca pensou no assunto. Mas ninguém tem interesse, ou tempo, para investigar a história das opiniões que profere, ainda mais em um ambiente social em que a mudança e a transformação, ao invés do entendimento, resumem um desejo de quase transcendência.

Imagine o tempo como uma linha que representa o tempo histórico e os fatos indeterminados da história. Esses fatos não têm um sentido claro, porque são resultado mais ou menos aleatório das ações de milhões de pessoas. Mas a mente revolucionária cria imaginariamente uma outra linha paralela que é o processo revolucionário, uma linha que por ser criada mentalmente contém toda a coerência lógica e racional, de justiça e bondade, correndo em direção à perfeição da sociedade em todos os aspectos. Trata-se de acreditar em um paraíso terrestre inevitável para o qual escorre o tempo como num rio. Mas a ação revolucionária consiste em aproximar essas duas linhas paralelas de modo que se confundam e sejam, por fim, a mesma linha temporal.

A Idade Moderna definiu as categorias de pensamento revolucionário que influenciou o “senso comum”

Dar sentido revolucionário aos fatos sem sentido claro faz parte da atividade dos militantes, sejam eles intelectuais, celebridades ou jornalistas. Quem representa, portanto, o retrocesso, é alguém que quer retroceder, não a linha histórica objetiva, mas a linha imaginária da revolução, o processo revolucionário que embora seja “inevitável” pode ser “atrasado” pelos inimigos da revolução. Os inimigos obviamente devem ser eliminados.

Acontece que, mesmo quem não acredita em revolução socialista e nem se considera comunista, acaba utilizando essa expressão ou outras que deem a entender um processo histórico de melhoria inevitável (o que confundem com o preferível). Isso faz parte de um processo de assimilação das crenças revolucionárias.

Com o progresso tecnológico, o que muitas vezes é confundido com progresso científico ou das ideias, muita gente passou a acreditar que a humanidade caminhava para uma melhoria sem fim, o que podemos chamar genericamente de progressismo. A ideologia positivista, de Augusto Comte, foi muito popular no século XIX e, como ideologia revolucionária, embasou grande parte do pensamento brasileiro, assim como já havia deixado grandes marcas na intelectualidade europeia, inclusive no marxismo.

Da mesma forma, o Evolucionismo que começou na biologia, teve sua participação e influência em um sentido de que a humanidade evoluiria naturalmente para estágios melhores em todos os aspectos. E por melhores, essas ideologias cientificistas entendiam mais inteligentes no sentido de mais técnicos, mais matemáticos, mais exatos, mais mensuráveis, enfim, uma tradição que vinha do fascínio com as modas abstrativistas do período moderno que acabaram por lotar nossa vida de soluções tecnológicas.

O avanço técnico deu grande credibilidade a essas crenças. A superstição modernista da técnica que tudo resolve contrasta justamente com a falta de avanço na compreensão dos próprios fenômenos que se utiliza para determinados fins. Resolver um problema se tornou sinônimo de avanço do conhecimento, o que só pode ser verdadeiro apenas de maneira muito parcial. Afinal, utilizar a energia elétrica, por exemplo, para quase tudo não significa que temos o conhecimento pleno do fenômeno elétrico. Até hoje não se sabe o que é a eletricidade. Saber usar algo não é exatamente saber o que ele é. Um arco e flecha ou uma catapulta foram inventados muito antes dos primeiros livros sobre física do movimento e isso não impediu que esses artefatos funcionassem. A verdade é que a ciência atual só dá atenção para os fenômenos que podem ser mensuráveis, uma categoria de fenômenos bastante reduzida em relação à totalidade dos eventos e entes concretos. Mesmo assim, ainda hoje muita gente crê na ciência como método de conhecimento da totalidade do real. Isso é o que podemos chamar de uma verdadeira superstição.

Hoje sabemos usar muitas coisas, mas carecemos de compreensão profunda sobre o que significam. O foco na técnica nos amputou, por exemplo, a simbólica e a poesia se tornou intimista e subjetiva, quando era, na Antiguidade e Idade Média, usada para descrever com maior profundidade os fenômenos da existência. Hoje resumimos a realidade, o universo, a movimentos mecânicos e leis frias e sem sentido, deixando surgir, no terreno do inexplicável e imensurável, superstições e crenças irracionais como ocorreu com a astrologia e as novas espiritualidades baseadas no desejo subjetivo e individual. A objetividade da realidade foi dividida e separada em aspectos incomunicáveis.

Diante de tudo isso, soa cada vez mais estranho alguém falar em progresso como uma única linha de avanço que estaria sendo interrompida justamente por quem faz perguntas demais ou acrescenta aspectos morais e culturais na agenda pública de assuntos relevantes. Porque esse estranhamento vem justamente de quem pensa que a história é um processo irrefreável de avanços técnicos e que os aspectos culturais, religiosos e morais estão superados e resolvidos. Afinal, Augusto Comte acreditava que a religião daria lugar ao conhecimento. O que ele quer dizer com conhecimento é mais ou menos o que esperam os técnicos de hoje. Mas até mesmo o conhecimento técnico está em verdadeiro “retrocesso”, pois basta hoje uma retórica tecnicista, uma verossimilhança de coerência lógica, para se exigir para si a máxima credibilidade social.