Whatsapp: o inimigo público dos que desejam o controle da recepção

Whatsapp: o inimigo público dos que desejam o controle da recepção

25/10/2018 1 Por Cristian Derosa

A grande trincheira da guerra informativa não está apenas no controle do envio de mensagens, mas de como de fato serão lidas. Grande parte do interesse de um canal informativo não está no quê vai veicular, mas em como será lido pelo leitor final. Este é um dos aspectos por trás da guerra contra o Whatsapp surgida nessas eleições, mas que é apenas a faceta brasileira da guerra contra a liberdade na internet.

O Whatsapp tem sido a rede social mais utilizada no Brasil porque é gratuita, diferente do SMS.

De maneira geral, a briga da grande mídia com o whatsapp é devido à ausência do corpo de filtros de credibilidade à informação que há no conteúdo final da grande mídia profissional. A forma como são editadas as notícias corresponde mais ou menos à recomendação de Walter Lippmann, no livro Opinião Pública. Lippmann, fundador do Council Foreign Relations (CFR) e um dos arquitetos da Nova Ordem Mundial, dizia que “as opiniões deveriam ser organizadas para a mídia e não pela mídia”. Ele recomendava que as notícias e opiniões fossem determinadas segundo cânones da ciência política, que já na sua época se resumia a recomendar uma uniformização totalizante das formas de relatos para gerar, no leitor final, as mesmas reações, de maneira que a democracia não sofresse sobressaltos.

No whatsapp, assim como em todas as redes sociais, o único tratamento ou filtro da informação passa a ser a consciência do usuário, que, segundo os críticos da “pós-verdade”, dá crédito ao que gosta e desacreditaria o que não gosta, em um jogo arbitrário e complexo de subjetividades. Não é preciso pensar muito para concluir que isso gera um contexto um tanto incontrolável para a desejável “condução da democracia” a um rumo seguro.

O leitor pode estar se perguntando: mas o Whatsapp também não associa negativa ou positivamente, azedando ou adocicando as informações e nos induzindo a erros? A resposta tem de ser dada sem medo e com muita sinceridade: sim, mas e daí? Estamos com medo de que? O medo da insegurança é o que nos trouxe até aqui, um mundo de generalizadas utopias controladoras e totalitárias. Todo mundo tem um mundinho ideal na mente e o deseja projetar na realidade fielmente. Os engenheiros sociais da nova era se alimentam de nossos medos e ansiedades por segurança, o que nos oferecem por meio de pílulas de sangrentas tranquilidades.

Essa obstinada busca tuteladora dos intelectuais como Lippmann, que apesar de pessimistas em relação ao público, parecem excessivamente otimistas com a ciência política que representam, parece não ter resultado em um controle tão absoluto da informação como desejavam. Acontece que o conteúdo da mídia tradicional também conta com este jogo subjetivo, com a diferença de se apresentar sob a forma de filtros de credibilidade social, isto é, de um esquema controlável de afetos baseado em chavões que chamamos de politicamente correto.

O funcionamento dos filtros da grande mídia é uma das garantias de segurança política e econômica desejadas por uma elite que perderia grande poder e dinheiro com uma realidade imprevisível

Após a Segunda Guerra Mundial, no clima da criação das Nações Unidas e da iminência de um plano de paz global, o mítico relatório de Iron Montain tentava imaginar alternativas para a guerra como fator de coesão global. Sem tratar das soluções propostas, podemos ter uma ideia de preocupação que os arquitetos políticos tinham com a segurança jurídica e financeira em um sistema baseado em algo tão perigoso como a liberdade de opinião. Ninguém governa sem o controle da opinião, já dizia John Locke.

Se o funcionamento da democracia depende das decisões populares, as opiniões que embasam tais decisões precisam ser tuteladas de alguma forma. Sendo tão malvisto o controle da opinião, é preciso que estejam sob rígido controle o vocabulário e a própria descrição da realidade.

Trata-se de um tipo de “controle de recepção”, com o qual se prevê com certa facilidade o efeito das informações pela forma como é dada e o uso constante de associações baseadas em estímulos que servem de “gatilho”. O Whatsapp não tem nada disso e age diretamente no julgamento mais simples, o que não pode ser permitido por quem comunga da utopia da administração total e irrestrita que vai desde a política, economia às categorias de pensamento.

Para quem vê e ouve análises políticas de especialistas na Globo News, por exemplo, tem-se a impressão de estar diante de uma análise absolutamente cuidadosa e equilibrada. Mas a exposição prolongada a este tipo de verborragia nos incapacita a reconhecer um certo tipo de picaretagem verbal. A simulação de equilíbrio gera no ouvinte certa compulsão por frases que parecem falar de maneira cuidadosa e complexa enquanto cometem os mais disparatados simplismos. É assim que surgem as palavras gatilho.

As palavras gatilho, cuja (falta de) definição precisa estar sob rigoroso controle são: democracia, direitos, violência, tortura, armas, fascismo etc. Evidentemente, essas expressões precisam surgir do nada a cada dia, tendo como marca inconfundível a associação unilateral positiva ou negativa. Não há meio termo. Sempre absolutizadas com associações a afetos imediatos, para que produzam respostas quase instantâneas na mente do pobre infeliz. Se questionados sobre o significado objetivo delas, um militante quase que em 100% dos casos irá dar uma definição tão imprecisa que pode chegar ao seu inverso. A verdade é que hoje julgamos tudo muito rápido e os mentirosos se valem desta situação que é de fato calamitosa.

Esta disposição ao imediatismo, gerada e estimulada por um sem número de fatores históricos e contextuais, tem sido o grande medo dos que esperam na grande mídia critérios e filtros confiáveis para as informações. Embora o mundo pareça cada vez mais complexo, a sua complexidade nunca mudou. A diferença é que nossos antepassados tinham um corpo de valores introjetados de maneira mais lenta, desde a infância, combinando alfabetização e lenta absorção de experiências das gerações anteriores, de maneira que estiveram um pouco mais aptos ao julgamento mais amplo. Mas nossos experts em educação dizem que eles viam as coisas parcialmente e que hoje, porque temos internet, tudo está mais claro. Mas a nossa juventude prova o contrário desse raciocínio simplista: enquanto esbanja conhecimentos técnicos, chora de depressão e falta de sentido na vida. De nossa parte, temos apenas a velocidade do imediatismo, que nos permite trabalhar diversas informações ao mesmo tempo, mas nos incapacita para o aprofundamento de questões mais complexas.

O preço da velocidade é a superficialidade. O da técnica é a futilidade. A indiferença, e não a serenidade, é o que gera os conformismos que chamamos de equilíbrio e ponderações, ao passo que é a visão clara da complexidade do mundo que tem gerado os tais radicalismos contemporâneos. Analistas comportamentais estão com suas vidas em frangalhos, tropeçando na falta de sentido de suas próprias vidas enquanto descrevem com aguda serenidade os problemas do mundo. Os alvos do problema são sempre os tais “radicais”, aparentemente topados por uma força maligna chamada “atraso”, mas que na verdade estão apenas fartos da indiferença dissimulada dos diagnósticos propostos por médicos doentes. Diante disso, o Whatsapp representa um descanso.

A “problematização” da realidade é o fetiche que criou as simplificações mais cruéis, para as quais a violência e a desonestidade são justificadas pela pobreza, o mal é uma criação moralista da humanidade e a verdade não existe. Contra esse tsunami complexo, a reação é a simplificação. Os viciados nos simplismos complexos vêem os seus atalhos mentais ameaçados por essa reação, o que os motiva a tachá-la com um de seus gatilhos favoritos, o “neofascismo”.

Esta é uma das explicações, talvez, para um certo desejo de simplificação que está em voga no mundo. E as candidaturas conservadoras de Trump, Bolsonaro e também outros na Europa, demonstram essa tendência. Uma certa simplificação e objetividade tem vencido o confronto com a complexificação paradoxalmente simplória dos gatilhos mentais construídos artificialmente. O whatsapp é uma arma simples contra a mentira que se travestiu de credibilidade.