A vida pautada pelos jornais

A vida pautada pelos jornais

22/02/2018 1 Por Cristian Derosa

Texto de subsídio ou introdutório ao curso Como Ler as Notícias

A vida segundo os jornais não é a vida real

Há alguns anos, uma pesquisa indicava que era o brasileiro aquele que mais acreditava no problema global das mudanças climáticas, no aquecimento global e, consequentemente, na necessidade das medidas políticas, econômicas e mudanças comportamentais que salvariam o planeta. A cobertura midiática sobre o assunto foi ampla e gigantesca, influenciando entidades governamentais, movimentos e empresas a aderirem a um novo modo de ver o mundo, de fazer seus negócios e divulgar seus serviços. É verdade que isso aconteceu no mundo todo. Mas só no Brasil, ao que indicava a pesquisa, as premissas ambientalistas alcançavam tanta confiabilidade.

Esse fato basta como exemplo de como somos influenciados pelas notícias. Na verdade, pautamos não só a nossa compreensão da vida pública como vamos um pouco além: é com base nas notícias e no seu ritmo de escrita, estrutura textual, que muitas vezes somos levados a ver nossa própria vida, seja no cotidiano ou nas crenças mais profundas, em nossos momentos de lazer e na leitura de entretenimento.

O jornalismo imita a vida ou a vida imita o jornalismo?

Originalmente, a forma atual de se fazer notícia não foi projetada para corresponder à totalidade dos interesses humanos. Ela passou a existir para orientar politicamente e socialmente os cidadãos. O ser humano, porém, é muito mais do que um cidadão e a gradual perda dessa compreensão deu origem ao fenômeno da “massificação”, referido por Ortega y Gasset, no seu clássico A rebelião das massas.

Outra causa do fenômeno massivo foi a mudança da matriz de interesse humano da necessidade para o desejo, algo que foi construído conscientemente por meio de técnicas da psicanálise. Os símbolos de desejo atuam de maneira mais profunda em nossas mentes, de modo que temos poucas chances de sobrepô-los à percepção objetiva de nossa necessidade. Isso produziu efeitos catastróficos na personalidade contemporânea e deu origem à nossa atual “crise de sensibilidade”, nas palavras de Tiago Amorim em seu recente livro O coração do mundo. Se essa crise tem diversas e inabarcáveis causas, é porque a poucas delas foi dada a devida atenção. Poucos foram os autores que buscaram a influência do ritmo das notícias neste processo.

Afinal, é fácil observar como somos lenientes para ler um livro, um romance ou poesia, contemplar a música sacra, a música erudita etc. Não vemos muito sentido nessas coisas, mas dizemos que gostamos porque captamos facilmente a esfera estética mais superficial, aquela que associa certas coisas a um status social ou à imagem distante do que acreditamos ser a transcendência ou elevação. Mas é muito raro darmos a essas coisas o seu peso verdadeiro, dado em outras épocas. Instalamo-nos no confortável reino do subjetivo e momentâneo, como aquilo nos parece, ao quê nos evoca, em geral para que julguemos eficientemente alguém ao buscarmos, com certo custo, desvendar uma personalidade na sua identificação ou não com a nossa. Afinal, nosso desejo de sociabilidade muitas vezes extrapola nossa verdadeira necessidade.

Muito disso se deve ao ritmo das notícias, à avalanche de informações que nos soterra, que nos oprime. É fato que precisamos nos informar. E muito dos temas tratados pelas notícias são assuntos de nosso interesse, embora não tudo. O que fazer?

Qual o meu critério para ler as notícias?

Primeiro, é preciso que saibamos de uma vez por todas: somos expostos a uma quantidade de informação que vai muito além do interesse genuíno de qualquer ser humano. Não há nada que justifique tamanha quantidade de informação para uma pessoa, mesmo que ela desempenhe funções ou cargos de decisão muito abrangentes. De tudo o que é publicado necessitamos realmente de uma parcela ínfima e isso nos devia assustar. Afinal, a verdade é que dificilmente paramos para nos perguntar o que de fato nos aflige, o que precisamos mortalmente saber.

Somos levados pela informação que gritar mais alto, que brilhar mais forte ou apresentar-se com mais cores, sabores adocicados, ritmos frenéticos ou velocidade de dados

Como podemos nos orientar em um mundo como esse?

Existe uma grande quantidade de critérios disponíveis. Dentro deles, subcritérios, premissas e conclusões provisórias a que podemos chegar para eleger, sem tantos filtros, aquilo que mais nos importa. Mas não é o caso aqui de nos aprofundarmos na orientação pessoal mais específica para a vida e sim, como já dissemos, de fazê-lo por meio da compreensão dos critérios jornalísticos, sobre os quais pesam critérios econômicos, políticos, ideológicos e até religiosos. Compreendendo-os, podemos chegar mais próximo do encontro com o nosso interesse mais profundo, extraído da necessidade e do desejo mais autênticos.

Esse processo é não só necessário como urgente para o que quer que necessitemos fazer, seja a produção de conteúdo para a internet, seja a orientação pessoal como cidadãos ou, por exclusão daquilo que nos externaliza, buscar a mais profunda vocação pessoal. A tudo isso podemos chegar apenas olhando para aquilo que não nos interessa e rejeitando, sem culpa, aquilo que nos afasta da verdade. Afinal, para saber amar é preciso, primeiro, saber rejeitar. É para isso que precisamos saber cada vez mais como ler as notícias.