Primeiro mês de governo e seus inimigos: onde está o mito?

Termina o primeiro mês de governo de Jair Bolsonaro e a chamada “nova era”, que prometia ser um pesadelo para a esquerda, já se mostra conturbada para um governo indeciso sobre a forma de comunicar-se com a mídia. Relação com grandes jornais vai do isolamento à lisonja desmedida, coisas muito diferentes daquela  vitoriosa conduta do velho “Bolsomito”.

Podem objetar-me dizendo que estamos apenas no primeiro mês. Mas digo que dois ou três meses como este e o governo cairá. O colunista Luis Nassif já chama Mourão de “futuro presidente“, acrescentando: a única incógnita é o prazo para a queda de Bolsonaro”. Aos que objetam dizendo tratar-se de uma operação de desinformação da esquerda, eu apenas questiono: que tipo de estratégia carregaria em si o efeito óbvio de deixar o inimigo de prontidão e informá-lo da derrota? A resposta é simples: o objetivo é normalizar a ideia na sociedade e, quem sabe, até criar certa resignação na direita.

A situação exige uma análise séria para tentar salvar uma eleição histórica, quando pela primeira vez na história do Brasil, o povo teve voz e passou por cima dos sistemas que o dizem representar como o sistema das tesouras (PT, PSDB), a mídia e a classe política mantenedora desse sistema.

O G1 fez um balanço do primeiro mês do governo de Jair Bolsonaro nesta quinta-feira (31), sob o título: “Decreto de armas, pressão contra Maduro e tragédia em Minas marcam 1º mês de Bolsonaro”, enfatizando ainda: “Presidente completa um mês no cargo nesta sexta-feira. Medidas polêmicas, discussão sobre Previdência, desencontros de informações e cirurgia de Bolsonaro também marcaram período”.

A matéria do G1, assim como a de outros jornais, faz evidente o papel assumido pelo jornalismo desde as eleições. Nenhuma palavra sobre a imagem otimista gerada em Davos ou a aprovação popular das medidas e da equipe ministerial do governo. Mas a campanha contra Bolsonaro, que começou já quando era deputado, passou a ser o imperativo maior, a carta de princípios da cobertura do novo governo. Não creio que exista na história do mundo uma campanha tão aberta, em período democrático, e vinda de um jornalismo que se diz imparcial e objetivo. É óbvio que quando os jornais eram prioritariamente políticos e combativos isso era mais comum. Mas quando se promete objetividade não se pode, ao mesmo tempo, prometer derramar sangue pelas ruas.

A campanha, como disse, começou há anos. Mas tão logo virou candidato, Bolsonaro já foi alvo de todas as armas: a Folha de S. Paulo assumiu, segundo o editor da revista Piauí declarou, que iria pegar o candidato “fingindo fazer jornalismo”. Tão logo assumiu, jornalistas internacionais clamam por um pacto jornalístico para derrubar Bolsonaro nos seus primeiros 100 dias de governo.

O fato é que o governo Bolsonaro ainda não parece saber qual a melhor maneira de lidar com os jornalistas, porque a situação de governo é algo não somente novo para a direita, como também, de certa forma, avesso ao movimento conservador que se originou no Brasil, pautado pela resistência contra todo tipo de governo ou autoridade coletiva como o estamento midiático global. O deputado Jair Bolsonaro sabia bem lidar com jornalistas. E talvez esteja lá naquele solitário deputado a resposta para a atual indecisão sobre o papel de um governo eleito por ampla maioria, em uma popularidade jamais vista, justamente num período de queda de credibilidade dos grandes jornais, quando as redes sociais se fazem palco de discussões e transformações imediatas. Se voltasse o mito que, de mitada em mitada, conquistou e mobilizou o Brasil, a mídia rapidamente se cansaria dos seus expedientes de sempre.

Mas o governo, já no primeiro mês, foi colocado diante de uma plêiade de inimigos que já esperava, mas com os quais aparentemente não tem sabido lidar. O motivo disso não é exatamente uma inabilidade, mas a impossibilidade de se responder a ataques que vêm de todos os lados. Como no caso de Trump, nos EUA, os inimigos internos são muito mais importantes do que os externos. Eles criaram todo um ambiente para proteger o estamento burocrático e midiático da influência danosa da população.

A voz das ruas sempre foi instrumentalizada pela esquerda, entre minorias e movimentos fartamente financiados de fora. O povo, a voz concreta e real da sociedade, só se fez ouvir na eleição de Bolsonaro. Mas isso não pode ficar impune.

Quem são os inimigos e riscos?

Podemos separar os atuais inimigos do governo em três grandes blocos, representantes do establishment midiático e político.

1. Os grandes jornais, nacionais e internacionais, que assumiram um pacto aberto para derrubar o governo: praticamente todas as matérias jornalísticas publicadas desde o dia 1 de janeiro sobre o governo são negativas, de modo que nem é preciso pesquisar. As que não possam ser consideradas totalmente negativas são tentativas de aparentar neutralidade, mas com pressupostos que insinuam riscos à democracia ou um tipo de estereótipo negativo, seja da simplicidade de Bolsonaro, uma possível incompetência implícita, seja de claras rotulações autoritárias.

O poder da mídia, ao contrário do que muitos dizem, não diminui em nada com a queda da sua credibilidade social. Suas matérias, reportagens ou documentários, têm grande penetração em setores que pressionam autoridades, ainda mais quando essas autoridades (governo) dão importância a elas. Por outro lado, negá-las importância seria suicídio, pois isso atrairia a ira da mídia contra um “governo contra a mídia” e isso bastaria para constranger membros do judiciário (STF) ou deputados, diante de pressões para decisões contra o governo, impedindo-o de governar. Em outras palavras, a mídia diz representar o anseio popular, a voz da sociedade, e isso dá a ela o poder de influenciar decisões vindas de cima. É o que podemos chamar de “carteiraço”.

2. Oposição política: agora mais disposta do que nunca a buscar ajuda internacional contra o governo brasileiro, a esquerda partidária do Brasil divide-se em movimentos como Lula Livre, Fundação Marielle Franco (bancada por George Soros) e deputados como Jean Wyllys, autoexilado na Espanha, de onde criará confusão suficiente para pressionar órgãos internacionais de esquerda a uma intervenção, se possível, contra o “fascismo” do governo brasileiro. Como se não bastasse, o deputado David Miranda, suplente de Wyllys, é um espião de Edward Snowden que, por meio de seu parceiro sexual Glenn Greenwald, fará de seu gabinete um escritório de espionagem internacional.

O poder dos movimentos sociais é articulado em conjunto com a grande mídia, submetida ao mesmo dinheiro do financiamento do terceiro setor e, portanto, respondendo aos mesmos patrões. Milhares de ONGs e movimentos sociais governam o Brasil sem terem sido eleitos para tal. De nada adiantará o general Santos Cruz investigá-las pelo critério do recebimento do dinheiro público, já que as mais perigosas recebem de fora. Essa história do dinheiro público é mais um idem midiático, dito para acalentar a sanha fiscalizadora de um jornalismo que não está de fato fiscalizando, mas procurando problemas para derrubar o governo.

As ONGs governam o país pelo mesmo sistema de representação da sociedade que pressiona órgãos e instituições do governo em favor de suas pautas. Constrangidos, os políticos (e se forem técnicos tanto pior) aceitam a autoridade técnica dessas ONGs sediadas no exterior para expropriar não apenas os nossos recursos (como diz o clichê nacionalista do governo), mas a liberdade decisória e informativa do Brasil.

3. Os próprios integrantes do governo próximos a Bolsonaro: generais teimam em acreditar na boa vontade da mídia e essa confiança, que vêm da sua hierarquia militar à obediência e uma certa mentalidade técnica e oficialista, coloca-os em inferioridade diante de jornalistas experimentados e maliciosos, sempre prontos para criarem intrigas e conduzir os rumos de um governo.

Muitos que poderiam oferecer resistência cultural contra a mídia e em favor deste governo se elegeram deputados e, quem diria, acabaram se lambuzando no poder e contrariando o que pregavam, enfiando os pés pelas mãos, antes mesmo de tomarem posse. Estou falando dos deputados da China. A resistência cultural que poderia vir debaixo, foi cooptada pelo desejo de poder.

Ao contrário do que pensam, não foi o povo que derrubou Dilma Rousseff, mas um acordo político que envolveu a grande mídia. Ou nada teria sido feito. Muitos setores políticos e midiáticos viam em Temer a solução perfeita para uma transição tranquila que repetiria o revezamento petisto-tucano. Não deu certo porque havia um capitão no meio do caminho. Mas jornalistas e líderes de esquerda que pensam anos luz à frente que qualquer conservadorzinho que leu Mises, já percebem em Mourão a grande chance de transição para o retorno das tesouras. Mourão é “o moderado”, como classificou o editorial de El País Brasil, um general gentil com amabilidade para lidar com a mídia, com a política, além de ser preferido entre generais.

Um governo de direita sem o “mito” Bolsonaro, aquele que levou milhões às ruas, seria facilmente derrubado ou domesticado. Mais do que isso: homens como Mourão fazem qualquer coisa para não perder o apreço de jornalistas. E este é um dos motivos por trás do romance vivido entre o vice e jornalistas.

Como relacionar-se com a mídia

A questão tratada em centenas de cursos de “media training” nunca esteve tão obsoleta. Responder claramente, agradar jornalistas e editores é ceder a uma ameaça velada que não pode mais continuar. Digo com todas as letras: se não quiser sucumbir em tempo recorde, este governo precisa pautar-se pelo apoio irrestrito às mídias alternativas que elegeram Bolsonaro, de modo que elas possam ter um alcance ainda maior. O efeito negativo disso é o de gerar a narrativa dos “blogs sujos do governo”, algo que já encontra consonância prévia na questão do Whatsapp, levantada pela Folha durante as eleições. Mas sem investir dinheiro, o governo poderia responder a esses sites que estão alinhados à narrativa conservadora do governo. Mantê-los marginalizados da sociedade é reforçar a narrativa oficial do establishment, sob a qual o futuro do governo é negro.

Aos grandes jornais, que têm a abrangência e o alcance nacional maior, caberiam notas de assessoria, declarações oficiais, e sugestões de leitura para a população (não para os jornalistas) que expliquem os motivos e os anseios do governo. Nenhuma ação de longo prazo ficará sem efeitos negativos em curto prazo diante do jornalismo que aí está. Portanto, deveria haver uma comunicação de curto prazo, que, no meu entender, deve ser feita por pessoas bem selecionadas e em contato direto com o presidente. Bolsonaro é mito. E o mito deve mitar. Se este governo não for mito não ficará para contar a história. A comunicação oficial e tradicional do Planalto deveria sofrer uma mudança drástica e radical, de maneira a deslocar os discursos midiáticos ligados ao conservadorismo e militarismo.

Como diz Olavo de Carvalho, que a mídia considera guru de Bolsonaro, o presidente só tem o povo e a lei a seu favor. Todo o resto está contra ele, incluindo seus aliados mais próximos. O capitão não tem outra alternativa para se manter no poder: precisa jogar com a lei e criar meios de punir drasticamente os que conspiram contra ele, inclusive a imprensa, que usurpa seu papel de informadora e avança para uma agenda política em um flagrante estelionato que engana diariamente seus leitores. Ao mesmo tempo, precisa jogar com a platéia. A sua platéia. Resta saber se este povo terá coragem e convicção para isso. Depende unicamente da pessoa do presidente. O que a mídia alternativa pode fazer é muito pouco. Ajudamos a elegê-lo, mas não podemos mantê-lo no poder contra um sistema de mídia infinitamente mais poderoso.

É preciso voltar a ser Bolsomito. Não apenas o presidente, mas todos os membros do governo em sintonia com ele. Mas para se fazer isso seria preciso convicção e sinceridade, o que ainda não se vê em comparação com o movimento que inspirou este governo.

 

 

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