Notas sobre leitura de jornais: como nos informamos

Notas sobre leitura de jornais: como nos informamos

26/01/2018 0 Por Cristian Derosa

Como ler as notícias?

Muita gente pensa, fala e escreve sobre técnicas de manipulação utilizadas pela mídia e por organizações internacionais. Tudo isso existe e tentei dar conta da maioria delas em meu livro A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda. Essas artimanhas, no entanto, de nada adiantariam se não fosse pela natural e espontânea desvirtuação da atenção humana, ocorrida pela própria condição moderna da informação. O que vamos falar vem muito antes, e serve de base para qualquer técnica de manipulação. Porque o problema que tornou possível a transformação está na pouca compreensão de como ocorre a informação. Proponho aqui, portanto, começar um outro tipo de leitura, a leitura imaginativa e participativa. Vamos refletir juntos.

O que é a leitura informativa?

A leitura de notícias já é, por si só, um problema, já que adquirir informação é conectar-se com o que é novo e atual, palavras que buscam descrever um sentimento. O sentido de atual não é exatamente o de novo, novidade, mas de estar acontecendo, em ação, agindo, não apenas em potência ou possibilidade de ocorrer. Quando lemos as notícias, buscamos nos dirigir ao que é fato, ao que está de certa forma consumado e cuja existência irreversível produz efeitos no mundo. Se o mundo modifica-se, move-se, sentimos a necessidade de acompanhar este movimento, como se fôssemos levados por um ritmo. O que nos impele a seguir esse movimento é uma analogia, por nós nem percebida, com o movimento do existir e do ser. Quando nos sentimos parados ou isolados desse movimento, sentimos que não existimos, não somos.

Portanto, a leitura de enunciados informativos carrega sempre a expectativa de conexão com a ação que se reflete no mundo, o que pode variar em cada indivíduo, conforme a profundidade ou superficialidade da informação ou tema. A escolha do tema de interesse, na busca pela informação, segue uma propensão íntima e fiel a algum outro movimento da alma individual. O indivíduo busca uma orientação, que pode ser expressa nos diversos aspectos da realidade. O foco em determinado aspecto passa facilmente a obedecer a classificação mais conhecida desses aspectos, como futebol, política, economia, comportamento e tantos quantos possam ser enumerados por uma redação de jornal ou seções de sites especializados em oferecer informação o mais personalizável possível, dentro de suas estruturas. Essa esquematização, é claro, obedece a estrutura midiática e o modo como se pode organizar as informações conforme suas condições e necessidades econômicas e técnicas.

As categorias com as quais organizamos nossa atenção, portanto, muitas vezes são formadas a partir de classificações externas e alheias ao nosso próprio modo de ver e do funcionamento da nossa atenção. Acontece que a maioria das pessoas desconhece a própria forma de atenção, o próprio modo de conhecer, a maneira mais pessoal e própria de buscar a orientação.

Dessas categorias, classificações, depende em geral os critérios de atenção. As perguntas que devemos nos fazer e que, por meio de profundas reflexões, podemos um dia chegar a responder é: por que nos interessamos por determinada manchete no jornal? O que nos leva a gostar de determinado tema ou uma forma de abordagem? Isso tem relação com o nosso temperamento ou a nossa personalidade?

Algo que pode ajudar a visualizar a resposta para estas e outras perguntas é saber que, tendo-as em mãos, podemos não só nos orientarmos melhor no mundo, mas sem dúvida, orientar outros e criar métodos e critérios claros para a efetiva informação, formação, educação e conhecimento.