Notas: as novas terapias ocupacionais contra as aflições pós-modernas

Notas: as novas terapias ocupacionais contra as aflições pós-modernas

04/12/2018 1 Por Cristian Derosa

É insuportável a agonia pós-moderna. Uma dolorosa paixão que cala fundo as insatisfações soterradas nos escombros dos símbolos modernos. Mas a agonia, diria Miguel de Unamuno, é o cristianismo. O resto é fuga da dor. A pós-modernidade é uma dor escondida sob pretextos e missões sagradas, seja de revolução social ou de restauração política, moral e religiosa.

Intelectuais contemporâneos falam de uma mentalidade “salvacionista”, que deposita esperanças de salvação em ideias, sentimentos ou ações no mundo. Dizem eles que esse salvacionismo é um tipo de escape ou compensação pela perda da espiritualidade tradicional que via, especialmente no catolicismo, o bode expiatório para todos os sentidos de culpa interna. É fato que hoje vemos uma aposta na cultura como salvação.

Com essa premissa, busca-se diferentes soluções: uma pela destruição dos padrões culturais geradores da velha culpa tradicional e outra pela manutenção dela, em um tradicionalismo que busca exorcizar à força essa incômoda falta de sentido. Se nos esforçássemos para resumir todo este problema, como aliás é preferível para a nossa pressa agônica por sentido, diríamos que tudo não passa de “sede de Deus”. Mas novamente isso não diz nada ao homem pós-moderno, seja ele progressista ou tradicionalista. Este último ainda se encontra em pior estado por acreditar piamente estar no caminho do entendimento e compreensão da estrutura da realidade. Mas essa estrutura só se deixa mostrar por quem possua instrumentos de observação limpos das distorções próprias disso que chamamos tão simploriamente de “sede de Deus”.

Com isso, empreende-se uma guerra contra um inimigo que se imagina externo, enquanto se duvida fundamentalmente da própria função neste combate. Defesa da família, da vida, da criança, da mulher…

Uma mulher pergunta a um psiquiatra católico de internet: “devo ser uma mera dona de casa ou devo trabalhar fora?”

Ele responde: “se acha que é uma mera dona de casa, será também uma mera trabalhadora”.

O problema profundo, real e concreto, passa despercebido pelo profissional da internet: essa mulher está insatisfeita, mas com o acréscimo da insegurança. O psiquiatra, que aparentemente fingiu ignorar a agonia dessa mulher, apenas concedeu a ela um slogan da sua campanha. Com esse slogan ela só pode fazer uma coisa: permanecer como dona de casa, constrangida e criar um blog para repetir à exaustão: “não sou uma mera dona de casa. Sou uma super-dona de casa”. Mesmo que isso a leve às lágrimas toda as noites. Isso mostra como um conjunto de ideias, com belíssimas intenções cristãs, pode ser cruel com indivíduos concretos com problemas concretos.

Desde o feminismo, as mulheres têm se deixado rotular das mais diversas formas por conjuntos de ideias. Julian Marías precisou dizer, em A Mulher no século XX, que a essência da mulher não comporta seguir um corpo doutrinal de ideias, uma ideologia, mas, ao contrário, ela prefere guiar-se pelos seus sentimentos, que vêm da percepção do lugar que ocupa no mundo. Estar em casa cuidando dos filhos nunca foi uma opção, mas uma tarefa natural feminina. O feminismo trouxe o trabalho como opção e criou nas mulheres a ambição por serem como os homens, como se só a vida dos homens tivesse de fato um sentido. Hoje algumas optam por ficar em casa, seguindo um sistema de ideias que necessita obrigatoriamente de argumentos para a pronta defesa contra os destruidores da cultura. Mais do que cuidar dos filhos, essas mulheres foram colocadas nas fileiras da guerra cultural. Se há mulheres que o desejam, é verdade que há. Mas no que diz respeito à essência feminina, essa condição não pode gerar outra coisa senão mais ansiedade e insegurança. É o problema do protagonismo.

A cobrança pelo “protagonismo” e a crise de identidade

Uma certa insegurança dos pais das últimas gerações criou uma necessidade de participação maior na educação dos filhos. Esta característica está presente também em algumas modas ligadas à maternidade, como o parto humanizado e a amamentação, quase ideologias que usam a justificativa do melhor para o bebê ou para a mulher, categorias vistas como mais fragilizadas. O mesmo ocorre na defesa da “mulher de família”, bela e do lar, em oposição àquela que trabalha fora etc, modelos popularizados após o advento do feminismo.

O problema é que nessas defesas acaloradas da presença ou protagonismo da família ou da mulher, está impressa uma evidente necessidade psicológica que às vezes tem pouco a ver com a necessidade real das crianças ou mesmo de um esforço tão grande para a “salvação” da família. Tanto o feminismo quanto os atuais anseios por resgate da “modéstia” tradicional criam e aprofundam a mesma ansiedade que deixou mulheres e homens em uma crise profunda de identidade.

Deixa-se no ar a pergunta: da amamentação à educação domiciliar, será que são as crianças que precisam disso ou são os pais, desejosos desse tal protagonismo do qual são cobrados pelas próprias consciências e pelo controle de qualidade dos padrões morais?

Ao mesmo tempo, vigora uma “profunda superficialidade” quando o assunto é Deus ou a busca pela salvação

Recentemente, um amigo reclamou que não tem companhias para a desgraça. Quase ninguém diz: estou ferrado, minha vida tá uma merda!. Tem-se a impressão de que tudo está bem. Mas à noite, se pudéssemos visualizar o mundo privado, veríamos um tsunami de lágrimas de solidão e falta de sentido. Não obstante, está tudo bem.

Os problemas pós-modernos da psique humana são mais complexos, não porque nos tornamos mais complexos ou sofisticados, mas porque a pós-modernidade se caracteriza pela perda ou ocultação dos reais problemas, simbolizando-os em ícones culturais ou retóricos, para não falar também das categorias técnicas como as de psicoterapia ou de teologia moral. Respectivamente, figuras como aceitação de si mesmo e providência divina.

Nem tudo pode ser explicado por uma terapia holística ou resolvido com medicamentos. Tampouco rezar poderia ajudar se você não está presente diante de si mesmo, o que significa que não está diante de Deus. Falar o tempo todo o nome de Deus pode ser apenas uma maneira de fugir dEle para refugiar-se em uma imagem agradável aos ouvidos dos aflitos enquanto oculta, de si e do mundo, a própria aflição.

Quem não busca conhecer-se, ouvir a própria voz, nunca a saberá distinguir da voz de Deus. O catolicismo conservador, tradicionalista ou carismático, muitas vezes peca por reduzir-se a discursos que apenas geram mais neuroses, em uma modinha de coaching e auto-ajuda barata. Ao contrário do que imaginam, esses problemas não serão resolvidos com orações, mas em terapias com grande esforço do paciente. Não existe mágica. Deus só ajuda quem não foge da verdade, ou seja, dEle.