Masculinidade como um problema mental

Rod Dreher, em seu blog no The American Conservative
Traduzido por Victor Bruno

Rod Dreher é um dos mais perspicazes críticos da sociedade moderna em atividade. Seu livro The Benedict Option (2017) é uma das principais publicações nos últimos anos (e causa espécie que anda não tenha sido traduzido pelo mercado editorial conservador brasileiro). [Edit, 9 jan. 2019: Leitores informam que o livro foi traduzido, sim, para o português, com lançamento pela Ecclesiae.] Traduzo este texto para que os leitores vejam as formas cada vez mais descaradas — travestidas de “intelectualismo acadêmico” — de solapar a estrutura natural do mundo. — VB

Não falta mais nada: a Associação de Psicologia Americana (APA) diz que a masculinidade é uma doença mental. Trechos:

Pela primeira vez, a APA lança um manual que ajuda psicólogos a trabalhar com homens e meninos.

À primeira vista, essa medida pode parecer desnecessária. Desde há décadas a psicologia se foca nos homens (e particularmente nos homens brancos), a despeito do resto. Mesmo hoje, os homens são dominantes, tanto profissionalmente quanto politicamente: em 2018, 95,2% dos executivos em cargos de chefias das empresas constantes na Fortune 500 eram ocupados por homens. Também de acordo com dados da Fortune, em 2017, em 16 das maiores empresas do mundo, 80% dos principais executivos eram homens. Também em 2017, 81% dos componentes a 115.ª legislatura do Congresso Americano, — que se iniciou naquele ano — eram homens.

Ainda assim, mesmo entre eles há algo de errado. 90% dos homicídios cometidos nos Estados Unidos o são por homens e são homens 77% do total das vítimas. São eles o grupo demográfico que mais corre risco de ser vitimado por crimes violentos. Homens são 3,5 vezes mais propensos ao suicídio. A expectativa de vida de um homem é 4,9 anos mais curta que a da mulher. Por fim, meninos têm mais chances de serem diagnosticados com transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (ADHD); além disso, garotos — especialmente garotos negros — são punidos muito mais severamente nas escolas.

As novas Guidelines for Psychological Practice with Boys and Men da APA almejam reconhecer e discutir esses problemas ao mesmo tempo que se mostra desperta ao passado androcêntrico da psicologia. Este manual levou 13 anos para ser concluído, e se baseia em mais de 40 anos de pesquisa, mostrando que, por fim, na psicologia, a masculinidade tradicional é dolosa. A supressão das emoções na socialização de garotos causa danos tanto interiormente quanto exteriormente.

E mais:

No período anterior à segunda onda do movimento feminista, nos anos 1960, a psicologia era um campo masculino por inteiro. A maior parte da pesquisa discorria sobre homens e meninos brancos, que, então, eram vistos como os arquétipos para o ser humano como um todo. Pesquisadores imaginavam que masculinidade e feminilidade eram limites opostos dum mesmo espectro, e que a prerrogativa duma psicologia “sadia” era a identificação ferrenha dos papéis de gêneros conferidos pelo sexo biológico duma pessoa.

Porém, da mesma forma que essa psicologia arcaica deixava de lado mulheres e negros e se conformava com uma visão estereotipada dos papéis de gênero, também essa mesma psicologia falhava em levar a vivência do gênero masculino em conta. De acordo com Levant, uma vez que os psicólogos começaram a estudar a vivência feminina sob a ótica dos problemas de gênero [through a gender lens], se tornou evidente que o estudo da psicologia masculina não poderia ser feito de maneira diversa.

A pedra-angular de toda pesquisa subseqüente é que a masculinidade tradicional — aferroada de estoicismo, competitividade, dominação e agressividade — é, integralmente, danosa. É muito menos provável que homens socializados dessa maneira mantenham comportamentos saudáveis.

E ainda:

Minorias sexuais e de gênero também têm de lidar com a visão que a sociedade sustenta a respeito da masculinidade — e ela está em constante mutação. Quando Levant e Rabinowitz iniciaram, em 2005, a redação deste manual, apenas o estado de Massachusetts reconhecia o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje, questões transgêneras estão no centro do nosso debate cultural, além de que há um despertar cada vez maior para a diversidade da identidade de gênero.

“O que é a idéia de ‘gênero’ para a década de 2010?” pergunta Ryon McDermott, PhD, psicólogo da Universidade do Sul do Alabama e parte do corpo de autores do manual. “Certamente que não é mais um binarismo macho–fêmea”, completa.

Apesar de haver agora normas sociais a respeito dos gêneros muito mais flexíveis que as de 30 anos atrás, garotos e homens que, de acordo com Liang e McDermott, se identificam como gays, bissexuais e transgêneros ainda encaram níveis de hostilidade maiores que a média, além de pressão para se encaixarem aos códigos de masculinidade socialmente aceitos. A National School Climate Survey de 2015 mostrou que 85% dos estudantes LGBTQs sofriam, em suas escolas, abuso verbal devido as suas orientações sexuais ou expressões de gênero (GLSEN, 2015). Alunos LGBTQs que não se encaixam às normas de gênero tradicionais afirmaram que são sujeitos a tratamentos muito piores que colegas também LGBTQs que as seguem. Para Liang, tais estatísticas indicam que ainda há uma prática geral de coerção de comportamento de gênero [gender policing].

Leia o texto completo.

A bem verdade, nem tudo é cantilena politicamente correta. Mas dado o uso extensivo de jargões típicos entre os justiceiros sociais [social justice warriors], eu fico cá com a impressão de que o objetivo desse manual é dar respaldo psicológico à continua emasculação do homem americano. E pois, quem votou no Sr. Ryon McDermott, PhD, para decidir o que é ou não masculinidade sadia?

Além disso, vejam a distorção da realidade na seguinte passagem:

90% dos homicídios cometidos nos Estados Unidos o são por homens e são homens 77% do total das vítimas.

Verdade; porém não é a verdade toda. Os homicídios cometidos nos EUA são de autoria de homens negros — e em taxas desproporcionais. Em 2017, o Conselho Americano de Ciência e Saúde (CDC) informou que:

após um extenso período em queda, tanto a taxa geral de homicídios como a taxa de homicídios nos distintos grupos raciais, cresceu no período entre 2014 e 2015. Neste último ano, 2015, as estatísticas eram (a cada 100.000 habitantes):

Negros (não-hispânicos): 20,9
Hispânicos: 4,9
Brancos (não-hispânicos): 2,6
Todas as raças: 5,7

Comparada à média nacional, a taxa de homicídios era 54% menor para brancos, 14% menor para hispânicos e 267% mais alta para negros. Em outras palavras, as taxas de homicídios entre os afro-americanos são quase quatro vezes maiores do que a média nacional.

Ano passado, o Presidente Obama salientou a importância desse assunto. “A maior causa — disse ele — de mortes entre os jovens negros entre 18 e 35 anos é homicídio — e isso é loucura. Isso é loucura.” Na verdade, é pior que loucura. De acordo com o CDC, homicídio é a causa número 1 de mortes entre afro-americanos em todos os grupos etários — dos 15 aos 34 anos (quer dizer, entre os grupos etários dos 15–19 anos, dos 20–24 anos e dos 25–34 anos).

Por outro lado, a taxa de suicídios é seis vezes maior para brancos do que para negros do sexo masculino.

E eis como, de acordo com o FBI, as estatísticas de assassinato, em termos de sexo e raça, se comportam.

(Se o gráfico estiver muito pequeno, veja a tabela original no site do FBI.)

Trago esses dados a fim de esclarecer que não são só “homens”, em abstrato, que cometem assassinatos. Na verdade, quem comete esses crimes são, na massacrante maioria, homens negros. Fica aí sugerido que há algo de muito singular entre a sociedade masculina negra. E se as taxas de suicídio são, por sua vez, tão altas entre os brancos de meia-idade da classe trabalhadora, é porque há também algo acontecendo na psicologia social dessa fatia da população americana; é porque falta a essa fatia uma força que negros e hispânicos de meia-idade da classe trabalhadora parecem possuir, já que estes encaram as mesmas dificuldades e, ao contrário dos brancos, esses últimos não estão cometendo suicídio.

Convém analisar essas diferenças e pensar no que elas significam. Porém, a questão mais importante é que esse release da APA, ao citar a violência “masculina” como uma razão para demonizar a masculinidade tradicional, deita e rola em cima das estatísticas.

 

UPDATE. Quanto mais eu penso, mais ditatorial [Soviet] parece. Quer dizer: Você discorda da ideologia de gênero (e não só da bobajada transgênera, mas da visão imputada pelo establishment sobre o que é ser homem e mulher)? Então você deve ser louco — os especialistas é que estão falando!

UPDATE 2. David French conta um ótimo causo autobiográfico sobre masculinidade e “ser adulto”. A história é impressionante e ele a fecha assim:

Não ajudamos em nada os nossos filhos quando lhes dizemos que eles não precisam seguir aquela voz que lhes dizem, no fundo, que precisam ser fortes, corajosos, que lhes instiga a serem líderes. Não lhes fazemos nenhum bem quando dizemos que podem simplesmente deixar tudo para lá quando a vida fica difícil demais. Agora, sim, é claro que também não ajudamos em nada quando não temos compaixão com aqueles que não se sentem confortáveis nos parâmetros da masculinidade tradicional; porém, quanto à outra crise, aquela que se derrama sobre os nossos jovens, a masculinidade tradicional não é a causa. Ela, antes, pode ser parte da cura.

1 thought on “Masculinidade como um problema mental

  1. Enojado desse mundo que caminha para falar apenas de sexismo, racismo e religiosismo, a luta de classes esta forte. O que reserva o futuro, todos vão se matar por suas diferenças? Esse tipo de ideologia é podre.

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