Golden Shower e a cumplicidade dos imparciais

Juliana Gurgel

Na história da arte inúmeras são as situações onde o nu é retratado. Quando apresentado com a devida beleza, evoca admiração e faz-se digno de contemplação. Obras de Renoir e suas delicadas mulheres, exemplificam este fato. Degas, famoso por suas bailarinas presenteia a humanidade com belíssimos nus Botticelli, em sua grandiosa obra O Nascimento de Vênus exprime uma beleza hipnotizante. Logo, não há problema com a nudez artística. Há sim críticas a se fazer em detrimento de como a mesma é representada, sua finalidade e seu sentido por assim dizer. Quando o corpo nu perde forma e representação artística para ser utilizado como instrumento de uma narrativa, ele acaba por se tornar um objeto animado. Aquele que assim se utiliza do próprio corpo, abdica do sagrado direito a ele. Foi isso, que a meu ver, ocorreu com os jovens filmados no “episódio “carnavalesco, na mais populosa cidade do país. O episódio (chamemos assim, por generosidade) Golden Shower aconteceu em São Paulo durante o carnaval de rua. Dois rapazes, do bloco Bocu, realizaram atos fisiológicos em cima de um ponto de táxi, perante os foliões ali presentes, e seus atos foram registrados.

A possibilidade de alguém filmar e fotografar uma cena destas é enorme. Em 2017 uma pesquisa, (InfoTrend Worldwide Consumer Photos Captured and Stored, 2013-2017) revelou que foram tiradas 1.3 trilhões de fotos apenas no ano passado e considerando aquelas postadas na rede. Logo, um ato pornográfico realizado em frente a centenas de pessoas, possui grande potencial em ser fotografado e filmado à exaustão.

Considerando a praticidade da máquinas fotográficas nos celulares, o registro da grotesca ação realizada pelos dois rapazes seminus (introdução de um dedo no próprio ânus seguida de movimentação do mesmo e um indivíduo manipulando e expondo o próprio pênis,  finalizando a dita performance com o esvaziamento da bexiga nos cabelos do companheiro de “cena”), ocorrido em local público, na capital do estado mais rico do país, é evidente que além de filmado, seria divulgados em redes sociais.

Golden Shower, (urofilia, para os profissionais), é a realização do fetiche de urinar sobre o parceiro ou na frente dele. O presidente Bolsonaro divulgou tal ocorrência em sua conta do Twitter e a reação de alguns veículos de imprensa, movimentos sociais e cidadãos “bem intencionados em geral ” foi protestar como se o próprio Jair tivesse defecado, urinado e divulgado com mórbida satisfação imagens da orgia excretória.

Um dos méritos das redes sociais é a possibilidade de se tomar conhecimento de fatos que passariam anônimos. Os atos divulgados pelo presidente, fossem eles realizados no carnaval ou na quaresma, praticados por heterossexuais ou homossexuais, ainda assim seriam reprováveis . A maioria das manifestações, porém, demonstram algo que mesmo óbvio, parece ser desconhecidos pela grande mídia: o brasileiro comum consegue identificar o que é errado, desrespeitoso e repulsivo , independente do nome que se use como justificativa para o mal feito. Os brasileiros comuns, a maioria do país, manifestou indignação, choque e nojo perante o deplorável espetáculo. A mídia mainstream, interpretou o ocorrido como performance política, e como exemplo deste hiato entre as pessoas comuns e a mídia, lembrarei do Matias logo mais.

Os protagonistas da “cena” vieram a público e saíram em defesa própria com discurso raso e previsível, registrado sob manifesto (!), onde negam a natureza imoral do ato em si caracterizando-o como ato político vinculado a produtora pornográfica Ediy.

Argumentaram estarem protestando contra o retrocesso moral e o conservadorismo reproduzindo o discurso amplamente abraçado por aqueles que vivem em uma realidade paralela e consideram fascista os que pensam diferente, que valorizam a família e praticam hábitos de higiene como o uso de sanitários, chuveiros e produtos depilatórios. Finalizando “o manifesto”, todo direcionado ao lumpenproletariado, houve o arremate  onde se auto intitularam defensores de indígenas, mulheres cis e trans, população negra e qualquer outro grupo que se possa estimular a assumir o posto de excluído, tornando-se assim vulnerável à deformidades daquilo que é legítimo como o respeito a qualquer ser humano, independente de anatomia, sexualidade, raça ou credo.

O manifesto da dupla, que já acionou advogados, é uma afronta. Já o seria pela tentativa de justificar o ato obsceno em local público, mas ao florear a ação enquanto ato político ou performance artística ofende aos artistas e propõe elevar o depravado à um ato político. O ato não foi nem político e muito menos artístico. A dupla evoca o conceito de corpos dóceis de Foucault, e isto me remeteu a uma cena do Matias, em Tropa de Elite. Durante a aula, Matias fica em um impasse quando começam a atacar a instituição polícia e ele não revela ser policial. Após a explanação da colega sobre as relações de poder, o professor pede para que a turma dê um exemplo de instituições perversas e do abuso de autoridade, sendo a polícia imediatamente citada.

Após a citação, quando alunos compartilharam experiências, sobre a experiência de terem sido revistados em uma blitz, ou o conceito de corrupção e tortura ser presente na prática policial, Matias pede a palavra. Mais do que conhecer a realidade distorcida pelos relatos dos amigos privilegiados, moradores da Zona Sul, Matias faz parte dela. Ele é um policial, fato ignorado pelos companheiros de curso, e avisa que os mesmos estão mal informados e influenciados por jornalecos e pela televisão. A cena soa familiar pela constatação da distância entre a realidade e o que nos é vendido pela grande mídia.

Chamar a ação pornográfica da dupla de performance é uma ignorância. Em 1968 a hoje reconhecida e multidisciplinar artista Kusama, realizava happenings com teor ativista. Há 51 anos ela dirigia performers nus como manifesto contra a guerra (na foto ela é a única vestida). Kusama é uma grande artista, e posso não ser a maior entusiasta desta fase do movimento hippie e da contracultura dos EUA, mas aquilo sim era performance. Além do que, uma artista, que cria algo excepcional como Infinity Mirrors, merece toda a admiração e reverência. Em 1968 aquele nu, com desenhos e dizeres contra a guerra, tinha um propósito, pois naquele contexto impactava. Hoje há a total banalização do corpo, é um corpo degradado, sujo, exala excremento e é o mesmo corpo de pessoas que alegam fazer tais atos como forma de adquirir respeito. A discrepância do ato fala por si.

A escatologia praticada sob o escudo da arte é algo corrente. O artista italiano Piero Manzoni, por exemplo, criou em 1961 uma série de 90 latinhas contendo suas fezes, a “obra” é conhecida como Merda d’Artista, é quase compreensível, afinal, após A Fonte (um urinol comum) de Duchamp, ir sob a égide a Arte Conceitual para um museu em 1961, Manzoni apenas seguiu o trajeto que o precedente abriu. Manzoni criou outras peças, mas ficará eternamente conhecido como o ‘artista das latas de merda’, bem como Duchamp que tem outras obras, mas será sempre lembrado como o ‘do urinol’.

Em 2012 um grupo de artistas portugueses realizou a “performance” Art Piss (On Money and Politics), que consistia nos envolvidos ficarem urinando sob a imagem de políticos coladas no chão. É inexplicável, quem acredita ser uma boa ideia utilizar fluidos corporais como motivo de expressão.

Ano passado em São Paulo, sob a justificativa de ato político, Priscilla Toscano (que se candidatou a deputada estadual) defecou na imagem do Bolsonaro em uma passeata. Parece que a moça é atriz e já foi professora, mas quando fui pesquisar seu nome a alcunha encontrada foi “mulher cocô”. A moça terá isso eternamente em seu currículo.

Chesterton dizia a “imparcialidade é um nome pomposo para indiferença, que é um nome elegante para a ignorância”. Não nos é permitido sermos imparciais diante do que vemos. Os jovens que estão realizando atos como o ‘Golden Shower’ não são crianças, tem em média 20 anos, e não compreendem a repercussão ou gravidade de suas extravagâncias e diversões levianas.

Se ficarmos indiferentes a cenas como as do carnaval em São Paulo ou a “mobilizações” como a do 1º Mijaço contra o fascismo, seremos coniventes. Após décadas de hegemonia esquerdista, estes jovens cresceram sem conhecer a correlação entre direitos e deveres. Ao aceitarmos tais ações como atos políticos ou performances, nós legitimamos a degradação cognitiva e artística realizada, tornamos- nos cúmplices.


 
 

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