Frederick Douglass: o escravo que se libertou para virar Ministro de Estado

João Corrêa Neves Junior*

Apesar de ter uma das biografias mais inspiradoras da história, Frederick Douglass (1818-1985) é pouco conhecido no Brasil. O escritor, orador e homem público, venceu nada menos do que o fardo da escravidão para liderar o movimento abolicionista em Nova York e em Massachusetts na segunda metade do século 19. Fugindo das ‘plantations’ em Maryland aos 20 anos de idade, o valente Douglass, que várias vezes enfrentou seus “donos” por não admitir sua condição de homem-preso, embarca clandestinamente em um trem para a Philadelphia em 1838, deixando para trás as correntes da escravidão para construir uma história de amor à Liberdade e conquistar um espaço na sociedade americana até então impensável para um negro ex-escravo.

Uma vez livre, inicia sua produção intelectual. Em 1845, publica “Narrative of the Life of Frederick Douglass, an American Slave”. Dez anos depois, em 1855, publica “My Bondage and My Freedom”, e algumas décadas mais tarde, “Live and Times of Frederick Douglass” em 1892. Frederick Douglass ficou conhecido por sua capacidade oratória singular, a ponto de muitos duvidarem que Douglass houvesse sido escravo (J. Matlack, 1979). Filiado ao partido abolicionista então recentemente fundado, o Partido Republicano, opôs-se fortemente à agenda escravista do Partido Democrata, especialmente durante as eleições de 1860, vencidas pelo republicano Abraham Lincoln, cuja vitória e consequente abolição da escravidão despertaria a ira dos Democratas, sobretudo sulistas, levando-os a declarar guerra contra os Estados Unidos e dando início à Guerra Civil Americana.

Como líder político, Douglass foi o primeiro candidato à um alto cargo do executivo dos Estados Unidos quando participou em 1872, como candidato à vice-presidente junto à primeira mulher a se candidatar à presidência dos Estados Unidos, Victoria Woodhall, pela plataforma ‘Direitos Iguais’ – The Equal Rights Ticket -, com quem compartilhava a luta pelo direito de voto das mulheres.  Já em 1877, foi convidado pelo presidente eleito Rutherford B. Hayes para fazer parte dos U.S. Marshalls, junto ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Em 1888, foi o primeiro negro a receber votos de nomeação para presidente durante a campanha das primárias do Partido Republicano. Em 1889 foi apontado pelo Presidente W. H. Harrison como Ministro para os Estados Unidos no Haiti. Com uma carreira notável, foi reconhecido durante toda a sua atividade política por sua postura, sua conduta ética e sua luta pela igualdade de direitos. Em fevereiro de 1895, depois de palestrar para o Conselho Nacional das Mulheres em Washington, viria a falecer em decorrência de um ataque cardíaco.

Eis a história breve de um escravo que se libertou, tornou-se um grande escritor; um político de sucesso; o primeiro negro a ser nomeado para um cargo de Ministro de Estado nos Estados Unidos; o primeiro negro candidato a um cargo do alto executivo como vice-presidente; um apoiador dos direitos iguais entre todos os homens e do direito do voto das mulheres; um ferrenho abolicionista. No entanto, curiosamente você provavelmente nunca ouviu falar de seu nome em suas aulas de história ou nos discursos políticos dos intelectuais e dos ativistas raciais. Como se explica isso?

Ocorre que Frederick Douglass era um membro do Partido Republicano, o mesmo Partido Republicano de Ronald Reagan e do atual Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Douglass era um forte opositor das políticas e do Partido Democrata, o qual via com destreza. Douglass era um grande defensor da propriedade privada: para ele, a liberdade é uma dádiva sagrada, e com a liberdade vem o direito à propriedade e o direito de manter para si, os frutos dos seus próprios esforços. Além disso, há um outro “problema”: Douglass era um orador público e político, no entanto uma de suas especialidades era o dom da oratória religiosa: Douglass era um Cristão genuíno, fiel e devoto aos verdadeiros ensinamentos de Jesus Cristo.

Existe ainda o fato de Douglass ter vivido em um tempo em que as ideias socialistas começavam chegar aos Estados Unidos, sendo que uma de suas grandes batalhas foi se opor incansavelmente à ideologia que posteriormente ficaria conhecida como “marxismo”. O objetivo de Frederick Douglass sempre foi a defesa da liberdade. Portanto, ao compreender desde cedo à incompatibilidade da ideologia do socialismo com a Liberdade que, como um ex-escravo, Douglass tinha como sagrada, o escritor deixou em seus escritos uma obra de valor incomensurável em defesa dessa mesma liberdade, bem como da igualdade de direitos, ao contrário da coerção socialista e na ideia de que “todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros”.

Deste modo, contar a história de Frederick Douglas é contar a história da defesa do indivíduo intrínseca ao Cristianismo e sua filosofia. É contar a história dos Abolicionistas Republicanos; da defesa da Liberdade e da Propriedade Privada bem como da defesa da igualdade dos homens do ponto de vista moral e ético e não apenas do ponto de vista de uma farsa ideológica em que o próprio ser humano se torna uma propriedade do Estado. E essa história, por mais inspiradora e verídica que seja, representa um duro golpe às narrativas dos partidos e movimentos políticos e sociais associados às ideologias marxistas, que aderem à visão de que Liberdade é o desprender-se da própria natureza humana que nos motiva a buscar qualidades para atingir nossas potencialidades, sejam culturais ou econômicas.

Por opor-se veemente à escravidão mental e à servidão política, o nome de Frederick Douglass não merece um espaço no hall de heróis progressistas para os “intelectuais” da modernidade.

 

João Corrêa Neves Junior é defensor da liberdade e do “rule of law”. Reside no Reino Unido, atua na área administrativa no mercado formal e é mestrando na área de História pela Universidade Nova de Lisboa.


 
 

2 thoughts on “Frederick Douglass: o escravo que se libertou para virar Ministro de Estado

  1. O texto é excelente, a única observação que faço é sobre o tempo de vida de Douglasdata no início (1818- 1885) e não 1985 tal como escrita.

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