Folha cria blog sobre a direita brasileira mirando influenciar debate

Crédito: Antonio Scorza

O blog Saída pela Direita, do editor de política da Folha, Fábio Zanini, diz-se “dedicado ao público conservador” e foi criado com a justificativa de entender o fenômeno do crescimento da direita no Brasil. Mas, assim como iniciativas anteriores, trata-se apenas de mais uma tentativa de agendar e influenciar um debate que ocorre à margem da grande mídia, no território incontrolável e essencialmente livre das redes sociais que o jornalismo profissional já se mostrou incapaz de atingir.

O blog admite ser uma tentativa de entender um fenômeno que considera incompreensível. De fato, todo o jornalismo profissional, maciçamente de esquerda ou centro, foi pego de surpresa. Zanini admite não comungar da pauta conservadora e nos textos do blog trata a direita por “vocês”. Em seu primeiro texto, promete buscar neutralidade. “Deus me ajude”, diz ele provavelmente em ironia. Mas não promete deixar de encontrar “incoerências e contradições, seguindo as regras do bom jornalismo”.

A Folha perde assinantes semanalmente. Saiu do Facebook alegando que o algoritmo utilizado “privilegia só as fake news”. O título do blog parece querer insinuar que a Folha se rendeu à direita.

Desde 2013, quando os protestos anti-corrupção varreram o país através de eventos criados no Facebook, a grande mídia e o establishment político-intelectual brasileiro tentou, em vão, compreender e entrar na onda desse processo. Visando sucessos como O Antagonista, que é mantido por uma empresa financeira e atende aos seus interesses, surfar na onda conservadora pode ser um bom negócio.

O blog do editor Fábio Zanini tem tudo para ser mais uma dessas tentativas. Zanini pode ser considerado um típico editor liberal, funcionário perfeito para o trabalho da desinformação, isto é, do disfarce de imparcialidade e neutralidade para seduzir os mais inseguros direitistas e esquerdistas, o que fará sem nem perceber, resultado evidente da típica confiança nas narrativas midiáticas.

Em tom imparcial, ponderado e ao mesmo tempo provocador (da direita), o blog de Zanini, já em atividade, procura joguinhos de associações de ideias para fingir informar com criatividade, enquanto dá o tom do que pode e o que não pode ser dito ou pensado.

Nos comentários do blog, já se registram suspeitas de internautas, principalmente devido o tom imparcial que não engana mais os leitores e tem sido responsável por grande parte da queda de visibilidade e influência social da grande mídia. A equivalência entre direita e esquerda é vista como conversa para boi dormir, como enganação ou disfarce de esquerdistas. E é precisamente isso que tenta o blog. Devia ser a primeira coisa a compreender sobre esse bicho estranho chamado direita.

Esse trabalho de simular a neutralidade necessita, de tempos em tempos, de um upgrade, um certo salto qualitativo, livrando-se dos maus hábitos e adquirindo nova verossimilhança ao simulacro. Zanini diz ver relação entre a onda bolsonarista e os protestos de 2013, mas acredita ser algo mais profundo, fruto de uma mudança mundial, que encontra eco em países como Hungria, Itália, EUA, Polônia e Reino Unido (Brexit). Ele só não parece ter percebido que, mais do que anti-PT, essa direita é anti-establishment, que identifica facilmente na retórica fingida de neutralidade profissional.

Recado para a direita

A esquerda tem a tradição de se tornar mais realista quando perde terreno, buscando compreender onde errou ao perder o poder. O poder, por definição, ofusca a visão e distorce a percepção. Este é o risco que corre a direita que ganhou o Planalto. Cooptou à estrutura administrativa uma grande parte de bons analistas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *