Eastwood no mundo das virtualidades

Clint Eastwood em A Mula (reprodução)

Juliana Gurgel

Faço parte da lista de admiradores de Clint Eastwood desde a época em que o conheci pela trilogia de Sergio Leone; Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966). Essa figura do Homem Sem Nome é intrigante, e apesar de ter ficado encantada em Os Imperdoáveis (1992), foi somente em Gran Torino (2008) que me apaixonei pelo ator e diretor Eastwood. Tal produção é repleta de momentos finos para serem revistos. Ao final, enquanto os crédito sobem e o Gran Torino segue, a beleza da cena emociona.

Um dos méritos de Clint Eastwood é saber envelhecer, ele não se submete a personagens criados para agradar ao público adultescente e juvenil dos Blockbuster, ao contrário, ele continua tratando o cinema como arte. Caso queiram os jovens acompanha-lo, ótimo; senão, Eastwood se mantém presenteando seu público fiel. Já alguns de seus colegas de profissão, mesmo sabendo que todos envelhecem, optam por interpretar personagens que depõem contra a própria trajetória.

Sábado desses, estava zapeando de forma irresponsável, quando me deparei com Robert De Niro fazendo um personagem decadente no filme Dirty Grandpa, ou ‘Tirando o Atraso’ (em mais uma tradução inexplicável, característica do Brasil). No filme, em que De Niro contracena com Zac Efronm que faz seu neto na trama, a decadência não é apenas pelo personagem em si, e sim pelo contraste da figura do ator criador de personagens memoráveis em O Poderoso Chefão, Taxi Driver e Touro Indomável, em contraponto ao mesmo intérprete encenando um recém viúvo sendo flagrado pelo neto “se satisfazendo” enquanto assiste a um filme erótico na TV. A cena, desnecessária e sem graça (acredito que a intenção era fazer rir) foi a última do filme que tive o desprazer de ver. A desconcertante imagem me fez lembrar dos comentários de Trump em resposta às ofensas de De Niro, e devo concordar que levar muitas pancadas na cabeça pode ter prejudicado o discernimento deste grande ator ao dar declarações políticas, bem como ao escolher atuar nesse filme.

Reprodução

Em A Mula, Clint Eastwood também realiza cenas inadequadas a um senhor de 90 anos, mas há um contexto no enredo e envolve a composição do personagem. A Mula trata sobretudo do resultado das escolhas e daquilo que nos tornamos. Não há determinismo, há sim as consequências, ou trazendo uma ideia de Peter Szondi, “as escolhas fazem o destino”.

Em The Mule – A Mula, Clint Eastwood, interpreta Earl, o personagem baseado na história real de Leo Sharp, um veterano da II Guerra Mundial que se tornou o maior transportador de drogas do Cartel Mexicano Sinaloa, na década de 80. É o primeiro filme desde Gran Torino (2008) em que Eastwood dirige e também atua, e é também a primeira vez que contracena com sua filha, Alison Eastwood, que faz o papel de Iris, também sua filha na trama.

O filme nos leva a pensar nas potências e inúmeros virtuais que possuímos ao nascer. Nosso destino é formado por pequenas e grandes escolhas diárias, cada escolha configura a rejeição de outras possíveis escolhas, e como uma imagem que vai sendo estruturada, vamos desenhando o que conhecemos ser a nossa realidade. Quanto mais novos somos maiores nossos virtuais e nossas chances de nos tornarmos aquilo que desejamos, desde que haja o preparo adequado e que consideremos as limitações que são ‘as circunstâncias dadas’, como diria o teatrólogo russo Stanislavski. Por exemplo, eu jamais poderia ser uma modelo escocesa albina, pelos fatos inegáveis de que não sou albina, não sou escocesa e não possuo o biótipo de modelo. Essas são as circunstâncias dadas, aquelas com as quais eu nasci e tenho que atuar no mundo a partir delas.

Em uma das primeiras cenas somos apresentados a Earl. A condução de Eastwood como diretor e seu carisma como ator vai tecendo a empatia com o público, ele é um senhor agradável, divertido e até mesmo galanteador, faz piadas politicamente incorretas com os amigos e sabe ser doce com as senhoras cheias de maquiagem. Earl é uma unanimidade inteligente, adaptaria Nelson Rodrigues. Nesta cena ele ganha o prêmio de melhor cultivador em uma feira de Lírios, todos aplaudem e concordam com os juízes, é um momento de triunfo. Em cena paralela sua filha está casando, ela está apreensiva esperando o pai para entrar com ela, a maquiagem já começa a borrar e não há alegria no ambiente. Junto com a noiva está a mãe (ex-esposa de Earl) e sua filha pequena. Earl não aparece, ele escolhe ficar celebrando com amigos e estranhos, pagando rodadas de bebidas no bar como o orgulho de uma grande realização. Conseguimos enxergar essa ação como adequada ao casamento da filha, o pai transbordando de orgulho e satisfação em conduzir sua filha ao altar, pagaria uma rodada para os amigos e convidados, mas ao invés disso, ele está no bar da feira.

No mesmo momento em que vemos a ansiedade da filha de Earl em um dia que deveria ser de alegria e celebração, conhecemos também a neta de Earl, uma criança de 6 anos cheia de possibilidades e virtuais, uma vida toda pela frente. O momento e contraste das três gerações, com as escolhas e consequências, nos aproxima da filha, a empatia com o Earl é quebrada, ele não aparece. E a próxima cena em família acontece na festa de noivado da neta, quando Earl aparece após ter sido despejado, e a filha e ex esposa se recusam a ficam na festa com ele presente.

O negócio de venda de Lírios foi modernizado e como Earl se recusou a vincular-se à internet, tornou-se inviável ao mercado. Isto é apenas o gancho para o acontecimento mais relevante, ele faliu por não ter o suporte e acompanhamento da família e quando despejado não tinha sequer lugar para ir. Nada do que aconteceu até aqui parece injusto ou surpreendente, foram sim, os resultados das escolhas de Earl.

Após o reencontro na festa, o filme transcorre entre a primeira ‘corrida’ para o cartel e a última (foram 19), em que ele é preso, julgado e se declara culpado.

Neste ínterim, ele realiza o que seria, uma de suas últimas escolhas e atualizações relevantes. Ele escolhe ficar ao lado de sua ex. esposa enquanto ela gravemente doente, sabe que vai morrer. Após deixa-la sem amparo tantas vezes, ele, mesmo sob ameaça de morte do Cartel, sabe que precisa estar ao lado da família. Não é mais o que ele quer, mas o que ele deve fazer. E é neste momento que ele encontra um sentido na vida. Algo pelo qual valha a pena morrer. Antes disso, Earl está imerso em um relativismo que não compreende, não se importando com o fato do tráfico ser errado mesmo que possa fazer bom uso dos rendimentos resultantes da atividade ilícita .

Earl utiliza os milhares de dólares adquiridos com o tráfico para trocar de caminhonete, salvar o clube de veteranos após um incêndio desastroso, quitar as hipotecas e reaver sua fazenda e, como um vestígio da responsabilidade paterna, ajuda no casamento da neta. Nada disso, porém, justifica ou ameniza seu envolvimento com o tráfico. O que me faz pensar que ele estava consideravelmente dedicado a um processo de degradação individual, em que valores familiares serviam como uma afronta, pois foram os virtuais que ele preferiu não atualizar.

O mérito, onde se encontra a catarse e o desfecho que faz desse filme um filme de Clint Eastwood é a imersão da consciência de um senhor de 90 anos, quando após escolhas erradas e um desfecho errado, ele decide assumir sua culpa perante um tribunal. Todos sabem que ele é culpado, ele sabe, a família sabe, os agentes do DEA sabem, mas ele precisa deixar um legado à sua família. Essa confissão redentora deixa algo que ele nunca havia oferecido antes, que é o exemplo de que as ações possuem consequências. É o livre arbítrio agindo em cada personagem.

Ele não pôde (ou quis) dar o exemplo, pelo simples fato de não estar presente. Seu ato de confissão, entretanto, marca a sentença oferecendo aos seus exatamente o que lhes devia. Desta forma, Earl vence sua luta entre o relativismo e a liberdade que finalmente sua escolha lhe proporcionou.


 
 

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