Agendando a mídia: narrativa midiática se alimenta de acontecimentos

O desastre de Brumadinho (MG) trouxe consigo uma avalanche de preleções ambientalistas e admoestações sobre cuidados com outras barragens e prevenções de acidentes, bem como a ganância desmedida de empresas mineradoras etc. Uns acusam os males das privatizações. Outros, da pouca privatização, já que o governo brasileiro detém ainda cerca de 49% da Vale. Há até quem acuse o recém empossado governo de Bolsonaro. Mas o fato mais importante aqui é o aproveitamento de um fato para fortalecer uma narrativa.

Vem da clássica função informativa dos jornais a tendência de só se falar de um assunto quando puxado por um fato ou acontecimento. Os que os agendadores profissionais fazem é inventar eventos ou forjar fatos onde não há. E o que as ONGs ou agendadores fazem é criar eventos para serem noticiados, algo pelo qual os jornalistas estão essencialmente sedentos.

Quando dizemos que as pautas jornalísticas da atualidade são hegemonicamente de esquerda, isso é uma evidência de que a articulação da esquerda vai muito além de propaganda ideológica, tendo passado há muito tempo para uma ação efetiva e exclusiva que não pode fugir de ser noticiada até mesmo por jornalistas que não são de esquerda. A própria técnica jornalística, aliada à onipresente atividade esquerdista em universidades, igrejas, espaços públicos, órgãos da administração e até reuniões de condomínio, acabou por criar um ambiente no qual as ideias de esquerda são vistas como naturais.

Fatos que servem a narrativas são feitos por ações organizadas a longo prazo

Houve um processo iniciado pelo debate acadêmico e científico, sem ações efetivas, mas que visava o debate e a formação de consensos. Feitos os consensos, passa-se para alguma ação. Dada a ausência de ações noutro sentido, sobra a ação da esquerda e os acontecimentos gerados por essa atividade que já contava com convicção e segurança por parte dos ativistas. Toda ação contrária sempre careceu de convicção ou segurança, dada a ausência de debates prévios e busca de consensos sobre ações. Toda ação anti-esquerdista veio e vem carregada de certa dose de insegurança. Vence quem tem mais segurança, pois a segurança gera credibilidade.

A difusão de fatos gera novos fatos, diz uma máxima do jornalismo e da publicidade. Esta é uma das noções chave para compreendermos o funcionamento do jornalismo e o motivo de uma das mais importantes lições para quem deseja influenciar as notícias: toda narrativa precisa de fatos, acontecimentos que a expliquem, confirmem e deem oportunidade de gerar debates que formam opiniões. Sem fatos é difícil formar opiniões e mais ainda influenciá-las.

O livro de Ryan Holiday, intitulado Acredite, estou mentindo: confissões de um manipulador das mídias, é muito interessante e traz muitas dicas que funcionaram com o autor e podem funcionar (ou não) em diferentes situações. Mas o autor não aprofunda a teoria que explica o motivo de terem funcionado. De modo geral, Holiday explica que os sites de notícia atuais se comportam como a velha imprensa marrom do início do jornalismo: por depender da atenção, dos olhos atentos e gulosos de milhões de pessoas que navegam diariamente em busca de “emoções”, eles aceitam quase qualquer pauta, desde que renda títulos que confirmem as suas narrativas.

Faz parte da essência do jornalismo essa submissão aos fatos. Mas sempre se pode dar um “jeitinho”

Afinal, se é verdade que o fato precisa vir antes de uma narrativa, também é verdade que a escolha desse fato se dá dentro de uma perspectiva prévia, que considera pressuposta uma narrativa. No entanto, os fatos sempre terão prioridade sobre as narrativas, que podem ser demolidas por fatos vistos como opostos ou ausência de confirmações factuais.

Mas é preciso alertar: isso só vale se alguém lembrara de confrontar realidade com narrativa. Caso contrário, permanece a versão de quem seleciona os fatos mais convenientes.

Conferências internacionais, encontros, seminários, eventos diversos, são criações de quem deseja pôr um tema em debate na sociedade. Caso contrário, ninguém daria ouvidos a um jornal que, do nada, começasse a falar, por exemplo, em riscos ambientais ou prevenções contra o câncer. Toda campanha ou debate público precisa vir após as notícias factuais e informativas que visam descrever uma parte da realidade.

Quando a mídia encarregada de informar passa a negociar sua atividade com ONGs, que buscam sabotar a democracia por dentro ao simularem a voz da sociedade, o acontecimento permanece como um símbolo, que pode “encarnar” em qualquer outra “coisa”. A engenharia dos “ganchos” é uma das mais criativas atividades humanas. Se um fato não me ajuda, posso distorcê-lo, se ele é irrelevante, posso acrescentar alguma coisa e se é inconveniente, posso amputá-lo de alguma parte.

Como derrubar um governo pela comunicação

Em uma democracia, as ações do presidente têm a prioridade na pauta de todos os jornais do país. Mas elas respondem a exigências diversas, não exatamente estratégicas nem pensadas para agendar a mídia. Os governos de esquerda faliram no Brasil em matéria de política, mas venceram em suas agendas culturais. Por que? Porque de todas as suas iniciativas, as culturais eram as únicas que contavam com consensos profundos entre a militância ativa, prévia e lentamente construída ao longo de décadas.

No governo atual, cuja destruição já foi se tornou um compromisso assumido pela classe jornalística nacional e internacional, torna-se impossível conciliar os compromissos assumidos com ações estratégicas que constrangeriam a mídia a dar a versão do governo como verdadeira. Toda a ação governamental passa a ser preenchida pela narrativa midiática, representante da esquerda que construiu a base profunda de comunicação baseada em uma dinâmica própria de ação e reação. Nem governo e nem eleitores deste governo compartilham de uma tão profunda dinâmica comunicativa ao ponto de suplantar uma narrativa que está presente no Brasil desde pelo menos 30 anos.

Não dispondo de tempo nem conhecimento para agir de modo a ser eficientemente compreendido pela sociedade que governa, o atual governo terá de entrar numa guerra perdida: brigar com os jornais para garantir que a interpretação governamental prevaleça diante de jornalistas que vêem toda ação vinda deste governo como má em si mesma, antes mesmo de ser anunciada.

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