A curiosidade repentina sobre Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho estampou a capa do caderno ilustríssima da Folha de S. Paulo. O texto de Pedro Sette-Câmara, histórico aluno do Seminário de Filosofia, traça um histórico e uma análise do papel de Olavo ao longo das últimas décadas no Brasil, até o ponto culminante da influência popular que gerou a eleição de Jair Bolsonaro. Mais do que o rompimento de uma longa espiral de silêncio, o repentino interesse pelo pensamento de Olavo de Carvalho faz parte de uma mesma espiral que ocultou o Foro de São Paulo por 20 anos.

O rompimento de uma espiral do silêncio é sempre sucedido pela construção de um novo esquema válido que atualize o sentido das narrativas hegemônicas e mantenha o poder de explicação nas mãos dos mesmos canais.

Um texto objetivo, tentando ser neutro e fazendo um aparente esforço para esclarecer o pensamento de Olavo, no mesmo jornal, representativo de todo um sistema de mídia, que ocultou por mais de 20 anos o Foro de São Paulo, uma organização que colocou no poder uma série de presidentes e alguns tiranetes de extrema esquerda por toda a América Latina, desde 1990, quando foi criado. Se uma organização internacional de políticos articuladora de ações práticas e planos de trabalho, cuja influência foi responsável pela chegada ao poder do PT, não ganhou a atenção daquele jornal por 20 anos, por que motivo o suposto “guru” de Bolsonaro de repente ganha valor de noticiabilidade?

A ocultação do Foro de São Paulo se deu por um motivo muito simples: para garantir à organização um crescimento silencioso e auxiliar seus membros a implementar de maneira relativamente discreta todos os seus planos. Agora a Folha traz o pensamento de Olavo de Carvalho justamente imaginando estar revelando prematuramente um poder intelectual que os editores do jornal imaginam que se beneficiaria do silêncio e da ocultação de seus objetivos. É verdade que o silêncio da mídia em relação a Olavo acabou auxiliando-o a crescer como uma força anti-establishment. Mas ao contrário do PT, não há um plano de poder para ser implementado, tampouco uma agenda de objetivos a serem impostos desde cima. O que há é a força do simples apelo à inteligência na observação seja das verdades mais profundas da alma, seja dos sistemas de poder a que estamos sujeitos na realidade. Isso por si só já é ameaçador suficiente para todos os segmentos revolucionários que visam, em resumo, tutelar a estrutura da realidade em sistemas abstratos de administração da vida humana para a sua domesticação e adaptação a utopias existentes em suas mentes doentias.

A matéria sobre Olavo visa alertar e informar a esquerda sobre o seu inimigo para que ela possa incrementar com seus costumeiros jogos de associações e, em suas análises de conjuntura, captar as fragilidades dessa nova direita que a esquerda imagina projetivamente um plano audacioso de perpetuação infinita no poder.

Mais do que romper uma espiral, portanto, o interesse midiático por Olavo de Carvalho visa explicar um fenômeno incompreensível pela esquerda, mas de maneira a instrumentalizar essa explicação e encerrá-la no cercado abstrato permitido das suas credibilidades institucionais. O monopólio das explicações da realidade não pode deixar de fora um autor tão influente. Ao mesmo tempo, precisa dar a ele o sentido que ajude a justificar a própria narrativa hegemônica.


 
 

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