“Cultura do estupro” e os custos sociais da pornografia

Cultura do estupro, custos sociais e de saúde pública devidos ao uso de pornografia

Foto: Pixabay

Diversos estudos científicos vêm relacionando a pornografia a uma grande quantidade de problemas sociais e de saúde pública. Os estudos comprovam os males da exposição frequente à pornografia, especialmente para a saúde psicológica, influenciando nos relacionamentos e em todo o tecido social a partir da maior expansão da internet. Esses males atingem principalmente as mulheres.

Estima-se de que 90% dos rapazes e 60% das moças, de até 18 anos, sejam expostos a conteúdos pornográficos nos Estados Unidos (Watson, 2016), e a exposição se torna vício para muitos indivíduos. Numerosos estudos relacionaram a probabilidade da violência sexual com o nível de exposição à pornografia no caso dos homens.

Devido o desconhecimento sobre as consequências, muitas pessoas acreditam se tratar de um hábito inofensivo, já que tem se tornado dramaticamente comum. Essa falta de conhecimento faz com que se muitos se exponham ou permitam que familiares se exponham à pornografia. Um levantamento aprofundado dos maiores estudos sobre o tema, feito por Robert Jensen, professor emérito da School of Journalism da Universidade do Texas, de Austin, traz dados alarmantes coletados ao longo dos últimos anos.

O vício em pornografia pode gerar comportamentos agressivos, destrutivos e culminar na violência sexual. De acordo com o estudo de Patrina Mosly, Women & Pornography (Washington D.C. 2018), hoje os sites pornográficos são mais acessados do que Netflix, Amazon e Twitter juntos. Esses números já seriam suficientes para o questionamento sobre o efeito disso na juventude contemporânea.

A tese da “cultura de estupro” traz a premissa de que haveria uma cultura do abuso e da violência presente nos homens em geral. Afirmar que todo homem é um potencial estuprador é certamente um insulto bastante injusto e uma generalização grosseira oriunda dos discursos feministas. No entanto, a premissa pode ter um fundo de verdade quando nos referimos a usuários frequentes de pornografia, conforme demonstra o levantamento de Jensen (2004).

As feministas que levantam a acusação generalizada de “cultura de estupro” para explicar um índice alarmante de violência sexual, muitas vezes deixam de fora a violência explícita dos vídeos pornográficos facilmente acessíveis por meninos e meninas. Isso porque a relação entre essas duas coisas vai muito além de teses ideológicas e seletivas.

A maioria dos estudos relacionados na pesquisa de Jensen é unânime em afirmar que a pornografia está entre as causas da violência contra as mulheres. Apesar da importante ressalva de que o problema não tem uma única causa, nenhum estudo específico sobre efeitos da pornografia pode excluir a violência sexual como efeito potencial, já que incide sobre uma multiplicidade de fatores que incluem o grau de exposição e a inclinação mais ou menos violenta de determinados homens. Jensen (2004) afirma que não se pode negar: “a pornografia pode estar implicada na violência sexual em nossa cultura”.

Mas enquanto todos os estudos concordam com o papel da pornografia como precedente de diversos casos de abusos, outros estudiosos vão além e colocam a pornografia no centro do problema. É o caso de uma meta-análise (maior grau de confiabilidade em pesquisa científica), feita em 2015, que chegou a indicar que a propensão de um homem cometer atos de agressão sexual teria relação com a quantidade de horas que ele assiste pornografia (Wrights e Robert, 2015).

A Dra. Judith Reisman, em sua pesquisa intitulada Pornography’s Link to Rape (Relação entre pornografia e estupro), informa que a pornografia realmente inspira atos de violência sexual e estupro e alguns casos chegam a terminar com o assassinato da vítima.

Segundo a revisão bibliográfica de Jansen (2004), o uso da pornografia traz efeitos como:

  • ativar e reforçar tendências a comportamentos sexuais coercitivos;
  • Alimenta fantasias cada vez mais exóticas, incluindo as agressivas;
  • [aumenta/consolida] uma relação de dominação do homem “contra a mulher” na sexualidade.

Outra pesquisa citada por Jensen indica que o uso da pornografia pode ainda:

  • “predispor alguns homens ao desejo de estuprar”
  • “enfraquecer suas barreiras contra o impulso/inclinação de praticar um estupro”
  • e minar algumas habilidades das vítimas para evitar ou resistir ao estupro

Pornografia motiva violência e agressão em casais

Além desses efeitos que aumentam as chances da ocorrência de estupros propriamente, pesquisas indicam que o uso da pornografia afeta as relações entre casais. Seu uso foi associado a uma situação em que as mulheres acabam aceitando atividades sexuais indesejadas por elas, criando dificuldades para a distinção entre fantasias sexuais e a realidade do ato conjugal. A aceitação de determinadas fantasias acaba levando à transformação do ato conjugal em uma prática abusiva. Para Dines e Jensen, a pornografia foi considerada “um manual de treinamento para abusadores” (citado em Jensen 2004).

Uma pesquisa também citada por Jensen verificou casos em que mulheres são forçadas e agredidas, com a introdução de objetos em seus órgãos (sexual ou excretor) pelos seus companheiros, motivados a reproduzirem cenas de filmes pornográficos. Em uma das entrevistas da pesquisa, uma das mulheres descreve o drama de ver seu marido ficar a cada dia mais abusivo, forçando-a a se engajar em novas fantasias que incluíam sexo com outras pessoas (sexo a três) e formas sexuais que ela não desejava e não sentia prazer algum em experimentar, sempre para reproduzir ideias obtidas em filmes adultos “hardcore”.

Agressão física e sexual motivada por filmes

Entrevistas com prostitutas vêm verificando com grande frequência a agressão física, práticas sexuais forçadas e indesejadas, em situação nas quais o cliente diz coisas como “eu sei que vocês gostam disso, eu vejo tudo isso nos filmes, vocês adoram apanhar”. Outra pesquisa (Dines, Jensen e Russo, 1998 – citado em Jensen 2004) obteve confissão de um homem de 34 anos que tinha costume de forçar e filmar mulheres em práticas sexuais indesejadas para se ver como um ator de filmes pornôs. Outro homem, de 41 anos, confessou que, ao abusar de sua enteada, ele precisava pensar nos vídeos que costumava assistir, e, arrependido, explicava:

“se eu abrisse meus olhos e visse minha enteada deitada enquanto eu abusava dela, isso não seria excitante para mim… isso me traria de volta para a dolorosa realidade de que sou um molestador de crianças”.

Esses dados confirmam diversas pesquisas da década de 1980, como a de Silbert e Pines (1984). A partir de entrevistas com 200 prostitutas, os pesquisadores perceberam que um quarto delas (25%) havia sofrido algum tipo de violência sexual onde o agressor mencionava a pornografia como inspiração de sua conduta. A existência de pesquisas, tanto recentes quanto antigas, com resultados muito semelhantes, mostra que há evidências sólidas que relacionam pornografia, prostituição e violência sexual.

Além da consistência dessa relação em termos de pesquisa científica, isso também demonstra a gravidade dessa mazela social que vem atingindo, há décadas, um número expressivo de homens, mulheres e famílias. Se antes do boom da internet, Silbert e Pines descobriram que 25% das prostitutas sofriam agressões inspiradas em filmes pornográficos, o que se pode esperar dos dias atuais onde a pornografia se tornou significativamente mais acessível?

Impacto da pornografia no cérebro

O vício da pornografia produz efeito similar ao vício de drogas no cérebro humano. Em 2009, a Dra. Susan Fiske, professora de psicologia da Universidade de Princeton, verificou, por meio de exames de ressonância magnética, a atividade cerebral de homens no momento em que vêem pornografia. A pesquisa concluiu que a experiência faz com que o cérebro passe a interpretar mulheres como objetos de prazer. Viciados em pornografia desenvolvem tolerância aos estímulos e requerem uma exposição cada vez maior de pornografia, com conteúdos cada vez “mais pornográficos”, ou “mais pesados”.

Reisman e Jensen confirmaram o que os produtores da indústria pornográfica sempre souberam. Esses produtores contam, até assustados, que os usuários cada vez mais frequentes necessitam de filmes cada vez mais extremos, como uma busca por doses maiores de pornografia. A exigência cada vez maior dos usuários por práticas e fantasias sexuais sempre mais e mais exóticas e agressivas torna difícil, para os produtores, encontrar atrizes que aceitem a sua realização. Não surpreende que Jensen tenha relatado em sua pesquisa um aumento substancial nos casos de coerção, pressão e até estupros para a produção de filmes (2004).

Autoridade no assunto, Judith Reisman explica também que viciados sofrem sintomas de crise de abstinência ao tentar parar de consumir a pornografia, exatamente como viciados em drogas químicas. Entre os sintomas estão ansiedade, depressão, insônia, agitação, perda da concentração e perda da libido sexual (citado em Arina, O., 2017).

Pesquisas científicas mostraram que os vícios, sejam eles químicos ou naturais (por atitudes e hábitos, como é o caso da pornografia), criam mudanças anatômicas no lobo frontal do cérebro. Como destaca a recente pesquisa de Mosley (2018), “um estudo de 2014 de 64 usuários de pornografia descobriu que o aumento do uso de pornografia está ligado à diminuição da massa cerebral nas áreas do cérebro associadas à motivação e à tomada de decisões, e contribuiu para o controle dos impulsos e dessensibilização à recompensa sexual. Outros estudos, também citados por Arina 2017, verificaram:

  • Redução de satisfação sexual: mulheres usuárias de pornografia apresentaram redução no grau de satisfação com o sexo, em relação as mulheres que não usam pornografia;
  • Redução da autoestima da mulher: pesquisa da Associação Americana de Psicologia mostrou que a cultura da pornografia impacta mulheres, podendo levar a depressão, ansiedade, redução de autoestima, distúrbios alimentares e comportamentos sexuais mais perigosos;
  • Maior risco de estupro e violência sexual: Um estudo feito com mulheres que usam pornografia viu que esse grupo apresenta maior risco de ser vítima de abusos sexuais.

Relação entre pornografia, abuso de mulheres, tráfico e aborto

O tráfico de mulheres, incluindo adolescentes, está fortemente ligado à indústria da pornografia: “cada clique em um site pornográfico cria uma demanda para mais pornografia e traz lucro para a indústria. A demanda faz com que os traficantes, os cafetões e os envolvidos na indústria do sexo, abusem de suas vítimas, filmando-as em atos sexuais. Esse “negócio” leva até mesmo usuários a auxiliar no abastecimento de sites especializados em “uploads” de usuários. Vítimas de tráfico sexual tiveram que suportar o trauma de abuso sexual, abuso físico, abuso de drogas, coerção e, muitas vezes, aborto (Mosley, 2018).

A pesquisa desenvolvida por Arina (2017) mostra que quase 20% das cenas de filmes pornográficos foram feitas de forma forçada. Embora seja difícil saber cifras exatas, uma pesquisa feita com 66 mulheres envolvidas com a indústria pornográfica verificou que 71% delas já havia tido ao menos uma gestação e abortado. Aproximadamente, metade alegou ter tido um aborto forçado, e outras 30% teve mais de um aborto. As 66 mulheres tiveram um total de 114 abortos durante o período que foram exploradas sexualmente em atividades ligadas à indústria da pornografia.

Como o aborto é legalizado nos EUA, 67,6% das mulheres fizeram o procedimento abortivo em clínicas como a Planned Parenthood. Arina (2017) conta um caso destacado pelo site Live Action, ocorrido em 2011, em que um ator pornô foi até a clínica de abortos Planned Parenthood e informou ao atendente que ele gerenciava trabalhadoras sexuais, incluindo uma menina de 14 anos e que precisava de um aborto. O funcionário da clínica, mesmo diante do contexto de exploração sexual e aborto forçado, não tomou nenhuma atitude para proteger a adolescente, dando continuidade normal ao atendimento para providenciar o serviço de abortamento (veja reportagem em inglês, com vídeo).

Relação entre pornografia e a prostituição

Arina (2017) explica ainda que existe uma forte correlação entre o uso da pornografia e o uso de mulheres na prostituição. Homens que usam pornografia são muito mais propensos a se tornarem clientes de prostitutas. Como os usuários de pornografia também têm maior propensão a querer reproduzir cenas muitas vezes violentas vistas nesses filmes, acabam vitimando suas companheiras ou namoradas. Quando isso não é possível, recorrem a prostitutas para liberarem o desejo gerado.

Uma análise de 100 cenas de filmes pornográficos na internet verificou que 88% das cenas mostram atos de violência.

Um estudo feito na Escócia analisou em profundidade, em um relatório de 40 páginas, a realidade da prostituição. Com amostra composta por 110 homens sendo 89% héteros e 11% bissexuais, a pesquisa traz testemunhos e dados que confirmam o papel da pornografia no estímulo à busca por sexo pago. Trata-se, portanto, de um fomento do mercado da prostituição.

Uma prostituta informou:

“Alguns homens veem muita pornografia e esperam que suas parceiras reproduzam certas atitudes sexuais. Eles tanto pressionam suas parceiras para reproduzir cenas de filmes e eles vêm [para a prostituição] para ter o que querem”.

A pesquisa observou que 48% dos usuários alegaram ter uma companheira, namorada ou esposa, e 66% afirmaram ter tido mais de 16 parceiras sexuais em toda a sua vida. Na média, a idade é de 37 anos e os que mais se relacionavam com a prostituição era o grupo de 36 a 49 anos de idade (41%) e 18 a 35 anos de idade (32%).

Sociedade começa a se preocupar

Embora a pornografia tenha se tornado um fator de baixa preocupação de grupos que tratam de abuso sexual e sexualidade humana, o tema começa a aparecer com cada vez mais frequência em grandes e pequenos veículos de comunicação no Brasil. Em março de 2019, a Folha de S. Paulo publicou um artigo que afirma no título: “Hiperexposição à pornografia abre caminho para compulsão”.

Em maio de 2019, o site R7 mostra a reportagem “Pornografia tem feito homens cada vez mais jovens terem impotência”, destacando mais um dos efeitos negativos desse hábito.

O debate, no Brasil, parece ser ainda incipiente. Em 2007, na Câmara dos Deputados, em Brasília, foi realizada uma Audiência Pública sobre o efeito da pornografia e sua relação com abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes.

Outros artigos, em blogs e sites particulares, também podem ser encontrado mostrando o que parece ser a preocupação majoritária hoje: a pornografia e o abuso de crianças e adolescentes. Uma comunidade fechada no Facebook concentra mais de 33 mil pessoas, grupo intitulado Anti Pornografia.

Considerações  ou “pontos chave”

  • Existe um considerável volume de pesquisas que indicam graves males que a pornografia e a prostituição ocasionam para a o ser humano, as famílias e a sociedade e esse levantamento contemplou apenas uma pequena parte delas, para uma introdução ao tema;
  • Os efeitos negativos da pornografia para o homem e para sociedade são graves e inegáveis;
  • Muitas pessoas creem, por desconhecimento, que a pornografia é um “prazer inofensivo”, necessitando serem alertadas;
  • Usuários de pornografia podem não saber disso, mas alimentam com “cliques” e horas de “prazer inofensivo” na solidão de suas casas, um mercado de exploração sexual que gera tráfico humano, estupro e abortos forçados, além de suicídios.
  • Estados brasileiros já começam, ainda que timidamente, a criar soluções para alertar a população sobre os perigos da pornografia;
  • Infelizmente, sua prevalência é alta e atinge um número muito grande de jovens e adultos.

Referências:

Patrina Mosly, Women & Pornography, Washington D.C. 201. https://downloads.frc.org/EF/EF18F20.pdf

Arina O. Grossu and Sean Maguire, “The Link Between Pornography, Sex Trafficking, and Abortion,” Family Research Council, November 2017, https://www.frc.org/porntraffickingabortion

Paul J. Wright,Robert S. Tokunagaand Ashley Kraus,“A Meta-Analysis of Pornography Consumption and Actual Acts of Sexual Aggression in General Population Studies,”Journal of Communication66 (2015), accessed November 10, 2017, doi:10.1111,http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jcom.12201/full

Judith Reisman, “Pornography’s Link to Rape.

Jan Macleod, etal.,Challenging Men’s Demand for Prostitution in Scotland(Scotland: Women’s Support Project, 2008), http://www.prostitutionresearch.com/ChallengingDemandScotland.pdf.

Jansen, R. 2004. Pornography and Sexual Violence – National Online Resource Center on Violence Against Women, 2004)

Watson, Elwood. Pornography Addiction Among Men is On The Rise
https://www.huffpost.com/entry/pornography-addiction-amo_b_5963460

Live Action, 2011. Planned Parenthood covers up child sex trafficking. https://www.liveaction.org/what-we-do/investigations/child-sex-trafficking-cover-up/

Sex objects: pctures shifts men’s view of women. The Guardian (Reuno Unido). 16.02.2019. Citado no livro de Eberstadt e Leyden. Custos sociais da pornografia: oito descobertas que põem fim ao mito do prazer “inofensivo”, página 55. Editora Quadrante. 2019.

M.H. Silbert e A.M.Pines. Pornography and sexual abuse of women. Sex Roles. Vol 10, nº 11-12. 1984.


 
 

4 thoughts on ““Cultura do estupro” e os custos sociais da pornografia

  1. Parabéns pelo excelente artigo, Marlon.

    Acredito que este é um tema delicado que precisa ser explanado e debatido em meio a nossa sociedade, principalmente entre os mais jovens.

    Que o Senhor Deus continue te abençoando e leve os Estudos Nacionais a níveis mais altos.

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