Esquerdas buscam lições em Mao e Lênin para aproveitar contradições na Era Bolsonaro

A eleição de Bolsonaro representou, para a esquerda, uma derrota grave no âmbito da política partidária e do hegemonismo do Partido dos Trabalhadores. Exige das esquerdas uma reação que põe em cheque o velho problema da unidade de classe, tema do artigo de Augusto C.Buonicore, no Portal Vermelho, um dos mais importantes sites de esquerda do Brasil.

Leia o artigo: A esquerda no labirinto: lições da frente democrática e antifascista

Evitar críticas a Ciro Gomes, aliar-se a antipetistas, aproveitar-se das contradições do próprio bolsonarismo, eis algumas das sugestões explícitas do artigo. Mais do que nunca, a esquerda sabe que pode contar com idiotas úteis (contradições), pois eles sempre existem em número suficiente.

O artigo fala da necessidade de vencer os divisionismos que surgem diante da presente crise da esquerda. A crise se forma com o Impeachment de Dilma, reforma trabalhista, a prisão de Lula e se consagra na eleição de Bolsonaro. A situação levou alguns ao desespero e à divisão em matéria de estratégia. Mas recorrendo a Lênin, Mao e outros, o artigo recomenda que se considere deixar de lado algumas contradições para ampliar as alianças contra o inimigo maior: o governo Bolsonaro.

De um lado, as frentes mais extremas, ditas antifascistas e, de outro, as frentes “democráticas”, que necessitam de apoio de políticos tradicionais não socialistas, da pequena burguesia etc. O artigo recomenda inclusive a busca por alianças de políticos que votaram pelo Impeachment de Dilma. Recomenda que não se iludam com os equivocados alardes de “direitismo” de personalidades que apenas estiveram contra o PT, como Ciro Gomes. “Erros, por maiores que sejam, não justificam outro”, diz o autor ao recomendar estar atento à cooperação com setores de centro e de centro esquerda, ultrapassando as diferenças mesmo dentro da esquerda mais extrema, que surgem num momento de desespero.

O artigo é claro sobre a tática recomendada:

“…o centro da tática na atualidade deve ser: isolar ao máximo as forças apoiadoras do governo, neutralizar e buscar conquistar as forças centristas tendentes à conciliação. Essas últimas não devem, sob nenhuma condição, ser confundidas com as que apóiam Bolsonaro. O objetivo será impor derrotas cada vez maiores ao governo reacionário, enfraquecendo-o e criando as melhores condições para sua substituição. A tarefa não será fácil e exigirá muita sagacidade política”. 

O autor também trata de recomendar que, apesar da aceitação das diferenças, é importante não aceitar determinadas opções que podem pôr em xeque toda a oposição. Uma delas é a participação do PT dentro de ambas as frentes, antifascista e democrática. Não pode haver frente de oposição sem o PT, diz o autor.

Ao mesmo tempo, recomenda dissipar ou dissuadir de modo a evitar críticas a partidos como o PSB e PDT. Essa escolha pode ser devido o fato de que esses partidos têm congregado políticos nem tão esquerdistas, às vezes até liberais, e que centrar fogo contra eles poderia apressar a perda completa dessas siglas dos domínios opositores.

O artigo lembra das lições do comunista português Álvaro Cunhal, que recomendava o diálogo interno e o debate de ideias sem perder de vista a unidade e critica a ideia de unidade quando é utilizada como instrumento de divisão interna.

O uso dos idiotas úteis ou companheiros de viagem

Por fim, inspira-se nos ensinamentos de Jorge Dimitrov, presidente da Internacional Comunista, e do ditador chinês Mao Tse Tung. Dimitrov recomendava: “Defendemos e seguiremos defendendo, nos países capitalistas, palmo a palmo, as liberdades democrático-burguesas contra as quais atentam o fascismo e a reação burguesa, pois assim o exigem os interesses de luta do proletariado”.

Quem, segundo Dimitrov, deveria compor essa ampla frente antifascistas? Ela deveria ser composta apenas por organizações socialistas e operárias? A resposta do dirigente da Internacional Comunista foi negativa: “Nos países capitalistas, a maioria dos partidos e organizações – políticas e econômicas – encontra-se ainda sob influência da burguesia”. Por isso, “devemos encaminhar nossos esforços para conquistar estes partidos ou organizações para a frente popular antifascista, apesar da sua direção burguesa.” E conclui: “Isto não é simplesmente um movimento de frente única operária, é o começo duma ampla frente de todo o povo contra o fascismo”.

A vitória – ou ameaça de vitória – do fascismo muda a correlação de forças e exige a elaboração de uma nova tática, correspondendo à situação adversa. Muitos comunistas não compreendem isso e consideram todo e qualquer recuo como algo inadmissível do ponto de vista dos princípios marxista-leninistas, uma traição ao programa socialista. “Há sabichões que vêm em tudo isso retrocesso das nossas posições de princípios, uma virada à direita da linha do bolchevismo. Está bem! ‘A galinha faminta, dizemos na Bulgária, sempre sonha com milho’. Que pensem assim estas galinhas políticas! (…). Mas, não seríamos marxistas revolucionários, leninistas (…) se não mudássemos de um modo consequente a nossa política e nossa tática de acordo com as mudanças efetuadas na situação e no movimento operário mundial”, respondeu Dimitrov.

Cita Mao a respeito do modo de lidar com as contradições, sugerindo uma hierarquia de contradições. Escolher uma entre as contradições a serem exploradas faz parte da boa estratégia comunista.

Tudo isso para dizer que a esquerda estará disposta à união com diversos setores que não necessariamente comungam de toda a sua estratégia nem se comportam de igual maneira. Foi o que Mao fez no conflito contra o Japão, em meio à crise interna contra a oposição.

“Como a contradição entre a China e o Japão passou a ser a contradição principal, as contradições internas da China passaram para um plano secundário e subordinado”. Até as contradições com os demais imperialismos (EUA-Inglaterra-França) caíram para um segundo plano e acabaram sendo utilizadas na luta contra o inimigo mais perigoso. 

No mesmo sentido, recomendava Lênin contra todo o “purismo” ou moralismo em matéria de alianças e manobras políticas:

É necessário unir o compromisso absoluto com as ideias comunistas à habilidade de realizar todos os compromissos práticos necessários, como manobras, acordos, ziguezagues, recuos etc. Não é possível que os esquerdistas alemães ignorem que toda a história do bolchevismo, antes e depois da revolução, está cheia de casos de manobras, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses.

Sua principal crítica era dirigida aos irredutíveis e sonhadores de uma coerência moral e antidialética:

Fazer a guerra para derrotar a burguesia internacional (…) e renunciar de antemão a qualquer manobra, a explorar os antagonismos de interesses (mesmo que sejam apenas temporários) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais), não é, por acaso, qualquer coisa de extremamente ridículo?”

Comentário

Os idiotas úteis, acrescento eu, que parecem dividir mas unem-se noutros pontos, podem ser deputados deslumbrados do PSL, liberais do NOVO ou, quem sabe, generais ressentidos.


 
 

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