O início da vida

É comum ouvirmos dizer que o embrião não é uma pessoa, mas que é apenas um “produto da concepção”, “óvulo fertilizado”, “zigoto”, etc. Isto porque algumas pessoas dizem não haver um consenso sobre quando a vida humana inicia e que, por isso, esse “produto da concepção” é visto simplesmente tal qual o termo, e não como uma nova vida humana.

Quando a vida humana começa?

A ciência responde claramente essa questão ao dizer que a vida humana começa na concepção. Mas esta resposta ainda não é capaz de convencer muita gente, inclusive pesquisadores, que continuam usando argumentos do tipo “aglomerado de células” para justificar que, dependendo do estágio da gravidez, o aborto deveria ser permitido.

A princípio, o termo “aglomerado de células” parece sugerir que o embrião não tem vida própria, não tem controle próprio e autonomia, não tem viabilidade, agindo como um “parasita” que não sobreviveria fora do útero.

Um estudo feito por Shahbazi e cols (2016), que foi publicado em uma das revistas científicas mais renomadas do mundo (grupo Nature), demonstrou que esse argumento é totalmente errôneo. Neste estudo, os pesquisadores utilizaram um aparato experimental que permitiu avaliar o desenvolvimento de embriões humanos, incluindo a transição da fase pré para a fase pós-implantação, sem utilizar qualquer tecido materno.

Para entender os processos que ocorrem antes e após a implantação do embrião no útero materno, os pesquisadores colocaram os embriões humanos em incubadoras contendo apenas nutrientes necessários para o seu desenvolvimento. Com uma série de experimentos, eles demonstraram que o embrião possui uma capacidade de organização autônoma, independente da presença do útero materno, que nunca tinha sido demonstrada antes pela ciência. Estas células se organizam e se desenvolvem de forma autônoma, mesmo não estando no útero e mesmo não passando pelo processo de implantação.

Sabemos que o óvulo fertilizado é um organismo unicelular capaz de originar todas as células, tecidos e órgãos do corpo de uma pessoa. Durante o período embrionário, a divisão celular se inicia formando a mórula, que atravessa a trompa de falópio e chega ao útero, implantando-se ali por volta do 7º dia. A implantação do embrião no útero é um processo crítico, pois é através dele que o embrião encontrará todos os nutrientes necessários para a sua sobrevivência e desenvolvimento.

Isso significa que, desde o primeiro estágio de sua formação (fertilização ou concepção), esse organismo vivo está “programado” para viver e “sabe” o que precisa fazer. Ele “sabe” que deve se dividir e atravessar a trompa de falópio até chegar ao útero e tem suas próprias ferramentas para fazer tudo sozinho. Esse organismo unicelular é capaz de gerar seu próprio corpo, é capaz de gerar seu cérebro e sua própria inteligência. Ele é capaz de se desenvolver como pessoa desde o “marco zero” de sua vida. De alguma forma ele sabe como fazer tudo isso, e o faz de maneira independente.

O embrião precisa ser implantado no útero porque precisa de nutrientes para continuar o seu desenvolvimento e sobrevivência, e ali, no endométrio, ele encontra esses nutrientes. Podemos fazer uma comparação bastante simples: uma criança de um ano de idade também não é capaz de se alimentar sozinha, mas precisa receber de alguém os nutrientes necessários para sobreviver e continuar se desenvolvendo. Nos experimentos realizados no referido estudo, os embriões estavam em incubadoras que acondicionavam nutrientes e, assim, se desenvolveram mesmo não estando dentro de um útero, inclusive ultrapassando a janela temporal que caracteriza o processo de implantação no útero (é importante salientar que, por questões éticas, os experimentos foram interrompidos no 14º dia após a concepção).

Se os embriões foram capazes de se desenvolver apenas com nutrientes disponíveis na incubadora e na ausência do processo de implantação no útero propriamente dito, isso demonstra a autonomia do organismo embrionário desde a sua concepção, e este fato desconstrói a ideia difundida por muitos de que a gravidez começa na implantação.

Essa informação, embora bastante inovadora, apenas confirma o que a embriologia diz há anos: que a vida humana começa na concepção. A demonstração de autonomia do embrião é uma evidência concreta de que o embrião não é um simples aglomerado de células, não é apenas um parasita, e não é uma extensão do corpo da mulher. Ele é um ser humano.

Farmacêutica e doutora em farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina.