Jornalismo acadêmico brasileiro sonha com o autoritarismo

Jornalismo acadêmico brasileiro sonha com o autoritarismo

05/07/2018 1 Por Cristian Derosa

Criação de instrumentos como os fact-checking, que na prática implementam uma espécie de “ministério da verdade”, traz à tona tendência autoritária e corporativista do jornalismo brasileiro

 

O escritor inglês George Orwell, em seu clássico 1984, denunciava os regimes totalitários que mantinham seus “ministérios da verdade”, órgãos responsáveis por dizer ao povo o que era verdade e o que não era. Essa tendência, em geral de cima para baixo, fica evidente diante da pressão política e ideológica dos departamentos acadêmicos mantidos pelo dinheiro do governo e de fundações internacionais sobre o proletariado da atividade jornalística, mesmo quando esta já parece marcadamente domesticada. Esta opressão dificilmente é denunciada pelos humanistas científicos da nomenklatura acadêmica.

 

É justamente para ampliar o poder de censura e controle da informação em épocas cruciais, como em eleições presidenciais, que departamentos acadêmicos dizem-se interessadíssimos em “pesquisa” de ética e comportamento dos jornalistas, além de investigar notícias falsas em nome do que consideram interesse público.

 

Uma pesquisa feita em 2012 mostrou que 72% dos jornalistas eram favoráveis à criação de órgão de autorregulamentação e 55% defendiam exigência de diploma para o exercício do jornalismo. Estes dados, junto do crescimento de narrativas contrárias à esquerda nas redes sociais, ajudam a explicar a opção por instrumentos de autocensura pela classe jornalística brasileira, majoritariamente de esquerda.

 

No entanto, desde a publicação da pesquisa, muita coisa mudou. A narrativa do “golpe” e de que estaríamos vivendo um “estado de exceção” dominou o horizonte de consciência de pesquisadores da área científica do jornalismo. A cosmovisão de esquerda, baseada na vitimização de raças, classes e toda estratificação social vista como símbolo da exploração capitalista, impõe a narrativa progressista através de suas pesquisas que, na verdade, terminam em enquadramentos altamente discriminatórios e autoritários.

 

Os dados da pesquisa de 2012, intitulada Quem é o jornalista brasileiro: perfil da profissão no país (2012),  mostram, por exemplo, a quantidade de brancos, negros e índios nas redações brasileiras, confirmando para a tristeza dos incentivadores do conflito social, que os profissionais não se preocupam tanto com essas questões. O trabalho de convencimento dos acadêmicos sobre os profissionais das redações é longo e difícil. Começa na graduação, evidentemente, mas não pára por aí. Ele precisa continuar e uma das principais ferramentas para isso é o sindicalismo, que ecoa reforçando a ideologia aos profissionais que abandonaram as salas de aula. Mas em 2012, apenas 25,5% dos profissionais eram sindicalizados, contra 74% não sindicalizados, o que significa apenas que carregam pressupostos ideológico um tanto defasados, embora sempre atuantes.

 

Um dos autores da pesquisa, o jornalista e professor da UFSC, Samuel Lima, é um entusiasta da narrativa do golpe e do estado de exceção. Em um artigo de 2017, para o site do sindicato, o jornalista afirma que a mídia brasileira, segundo ele representante de interesses hegemônicos, “de forma cirúrgica construiu as bases de um Estado de Exceção, cujos sinais estão muito evidentes”. Como evidência disso, o jornalista apresenta o tratamento jornalístico dado a fatos políticos como o Impeachment de Dilma e crimes violentos que ele categoriza como “feminicídio”, “misoginia” etc, tecendo entre as duas coisas relações íntimas e ideológicas da subserviência da grande mídia à narrativa ideológica do tal golpe. Trata-se da aplicação fiel da cartilha marxista para o jornalismo: aproveitar-se de todos os fatos possíveis para reforçar a narrativa da exploração de grandes grupos contra pequenos, gerar indignação, revolta e, por fim, o conflito social que será chamado de revolução proletária (com um conceito alargado e propositalmente relativo de proletariado). Só tem um detalhe: os grandes grupos de mídia a que ele se refere, como a Folha de São Paulo, por exemplo, representam as mesmíssimas pautas defendidas por ele e coincidentemente as mesmas de milionários como George Soros, um dos maiores doadores da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e Agência Pública, por exemplo.

A relação feita pelo professor sobre fenômenos aparentemente inconexos como a cobertura midiática do Impeachment e chacinas de menores na periferia era apenas o reforço de uma estratégia de construção narrativa que no ano seguinte ganhou exemplos que serviram como uma luva: o caso Marielle forneceu tudo o que a militância necessitava para, ao seu modo, tornar verossímil a ideia de que estaríamos vivendo sob uma espécie de “ditadura de direita”, que massacra o pobre, o negro, o índio e, por que não, o militante de esquerda. A realidade, porém, parece ser justamente o contrário: os poderosos neste caso são os financiadores maciçamente de esquerda que fizeram de Marielle uma campanha internacional (cujo aporte midiático foi bem aproveitado para as campanhas milionárias do Free Lula).

 

Ao criticar um jornal já submisso às pautas progressistas globais e nacionais, os jornalistas de esquerda perpetuam o sistema de pressão política que mantém constrangida a classe jornalística profissional no sentido de “não sair da linha”. Trata-se de uma crítica interna, um constrangimento dos professores para com os alunos.

 

Essa tendência, já consagrada como método do jornalismo revolucionário, demonstra o corporativismo da classe jornalística acadêmica, que deseja a criação de um conselho nacional para domesticar a opinião individual do jornalista e, por meio da “checagem de fatos”, retirar deliberadamente conteúdos que julgar inconveniente.