Fake news x jornalismo profissional

Como gostaria, o repórter da Folha, de estar praguejando contra o capitalismo e chamando de nazista quem o contrariasse!

Recentemente, a página do Facebook do jornal Folha de São Paulo encerrou suas atividades na redes social afirmando que, na internet, “o fake news ganha espaço enquanto o jornalismo profissional perde”. Mas afinal, o que se quer dizer com “fake news”? E quem é o “jornalismo profissional” que o diz?

Na década de 1930, dois tipos de jornalismo se digladiavam pela confiança do público: um era o sensacionalismo, a chamada “imprensa marrom” e o outro, o transformador da sociedade, que ganhou a batalha e o título de “jornalismo profissional”. O sensacionalismo, porém, não tem nada de melhor. Enquanto o sensacionalismo vivia do pessimismo e da desconfiança (e por isso facilmente relacionado à direita política), o outro, com ares profissionais, era otimista em sua missão primeiro pela moral e os bons costumes e, hoje, pela cidadania, responsabilidade social, ambiental, engajamento político e a democracia. O sensacionalismo sempre foi acusado de querer vender jornais, enquanto o profissional era visto como se não quisesse dinheiro e vivesse de suas inquestionáveis utopias de mundo melhor.

Temos diante de nós um debate antigo e muito conhecido no meio jornalístico, mas que não tem uma solução fácil, já que ambos os lados se utilizam, vez por outra, dos mesmos instrumentos para descredibilizar o outro, conforme determinadas conveniências. Mesmo oferecendo apenas uma troca de insultos, é possível compreendermos o significado deste embate, os sentidos, e o campo de batalha em que ocorre.

A afirmação vinda de um dos maiores jornais do país deveria nos fazer perguntar imediatamente: afinal, o que se quer dizer com “fake news”? Em termos gerais, convencionou-se chamar de fake news as “notícias falsas ou sensacionalistas”, a velha imprensa marrom. Mas o sensacionalismo não é necessariamente uma notícia falsa e sim, dada em uma linguagem, digamos, não apropriada ou, segundo uma descrição mais etimológica, escolhida ou escrita com apelação para os sentidos mais imediatos (medo, surpresa, lucro etc). Então temos dois sentidos possíveis para a mesma expressão: a mentira pura e a linguagem “suja”.

Dois sentidos: a mentira e a linguagem imprópria

Uma coisa é a mera informação falsa, que engana em busca do que quer que seja, servindo a interesses variados. Quem espalha mentiras pela internet pode ser preso. Portanto, alegar isso injustamente é crime de difamação. Quem acusa de mentir precisa provar que é mentira, mostrar a verdade. Já a informação dada em linguagem imprópria ou apelativa, o velho sensacionalismo, não é necessariamente criminosa, mas apenas reprovável e pode-se, caso seja necessário, pedir direito de resposta para uma interpretação mais fiel à realidade ou apenas um contraponto.

Até agora estamos falando do que a expressão tenta dizer literalmente, indicar de modo mais direto, sem considerar as intenções de quem a usa. Fake News, segundo dizem, parece estar espalhada pela internet. Mas há uma dificuldade em identificar os dois sentidos possíveis. A dificuldade está na categorização política em que se encontram. Afinal, é pretensamente a esquerda que diz praticar o jornalismo profissional, enquanto à direita restam os rótulos de fake news. Mas considerando os dois sentidos mencionados, é possível que os papéis se invertam.

Parece fácil encontrar, de fato, alguns exemplos. Os blogs e sites que pedem a intervenção militar, por exemplo, utilizam-se de recursos que podemos chamar de sensacionalistas, como o uso de letras grandes (caixa-alta), pontos de exclamação, títulos forçados (muitas vezes contendo informações falsas apenas para chamar a atenção, pois são desmentidas no curso dos textos, categorização específica com o uso de jargões. Mas seus blogs costumam falar para um grupo muito específico, com vocabulário próprio e informações que exigem uma imensa confiança em fontes obscuras, o que é comum em sites de partidos ou sindicados de cunho marxista-leninista. A grande mídia não parece, porém, querer referir-se a estes.

Da mesma forma que a extrema-esquerda pratica o mesmo sentido de sensacionalismo, a imprensa profissional, ao estereotipar com rótulo odioso aquilo que quer denegrir, pratica a notícia falsa, a difamação pura e simples. Crimes de difamação, assim, podem ser cometidos desde que feitos em linguagem jornalística e tom imparcial, neutro. O historiador Marco Antônio Villa tem a permissão, como de fato fez, de chamar de nazistas todos os eleitores de Jair Bolsonaro, pelo simples fato de que esta palavra, dita em um grande órgão de mídia, nunca terá a conotação difamatória, mas de classificação óbvia.

Da mesma forma, sites de esquerda falam em “matança de fascistas”, obviamente referindo-se aos que classificam como eleitores de Jair Bolsonaro ou “coxinhas”. Considerando os dois sentidos mencionados, é possível encontrarmos a fake news, a pós-verdade, em qualquer lugar, independente da matiz político-ideológica. A verdade é que a direita comete deslizes e estes estão aí para quem quiser ver. Comete por falta de conhecimento ou por maldade, em alguns casos. Mas a esquerda o pratica apenas por maldade. Para matar o adversário e torná-lo um monstro, jogando toda a sociedade contra ele e tomar o poder para nunca mais sair.

Se eu não posso dizer o que penso, ninguém pode!

Como gostaria, o repórter da Folha, de estar praguejando contra o capitalismo e chamando de nazista quem o contrariasse!

A grande mídia, acostumada ao que chama de jornalismo profissional como única linguagem possível, esquece-se de que existe um mundo real em que as pessoas exclamam suas opiniões como quem está contando uma notícia. O velho tiozão revoltado contra a “bandalheira” da política, tem plena confiança de que Lula será preso a qualquer momento. Ele acha perfeitamente normal que comece a contar sobre algum detalhe da Operação Lava-Jato com a frase “Lula preso amanhã”. Afinal, busca chamar a atenção de quem está apenas aguardando o fato mais esperado dos últimos anos. É irrelevante, na leitura da sua mensagem, saber se aquelas palavras estão dizendo o que dizem. O jornalista profissional não só defende o diploma que o custou tantos estudos (cervejas e baseados da faculdade), mas confunde propositalmente a expressão pessoal, em blogs, sites, páginas de facebook, com uma tentativa deliberada de tomar o espaço do jornalismo profissional. Um espaço que com tanto custo mantiveram e veem morrer, dia após dia, graças a uma habilidade conquistada na universidade: a de distorcer a realidade em favor da “transformação social”, da fundação da nova sociedade, cujas maravilhas só são conhecidas pelo ditadorzinho portador de um diploma.

Como, porém, a imensa maioria dos jornalistas da grande mídia escreve de maneira imparcial e asséptica apenas por estar aguilhoada a um cativeiro de normas de redação, procura e caça o “tiozão” que fala como quer, na tentativa de comprovar a lei universal e obrigatória que o impede de falar, nas páginas do jornal em que trabalha, como quem está em um churrasco com os primos, como gostaria. A diferença é que o jornalista da grande mídia, via de regra, adoraria estar gritando “Lula 2018!”, em letras garrafais. Mas o jornal (não o tiozão-jornalista) precisa fingir que respeita o leitor para poder convencê-lo, lá na frente e comedidamente, de que Dilma foi a primeira “presidenta” com ar de quem informa o tempo.

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