O INÍCIO E O FIM DA PÓS-MODERNIDADE – SEGUNDA PARTE

O INÍCIO E O FIM DA PÓS-MODERNIDADE – SEGUNDA PARTE

*ESTE ARTIGO COMPLEMENTA O ARTIGO COM MESMO TÍTULO QUE ESTÁ NA REVISTA ESTUDOS NACIONAIS Nº 4 ANO 01.

 

As discussões sobre modernidade nos anos 50 e 60 criaram as condições para que a expressão “pós-moderno” pudesse circular nos meios intelectuais entre cientistas sociais. Conforme Arnold Gehlen[1], “[…] as premissas do Aufklärung estão mortas, apenas suas conseqüências continuam em curso”. Os pressupostos que davam sustentação para a concepção humana de coerência, verdade, razão, objetividade, entre outras, existentes na Modernidade, são questionados na Pós-modernidade.

A Pós-modernidade pode ser entendida como a descontinuidade da modernidade e preconiza a ruína do mito do progresso humano. A “emancipação da razão” não foi atingida. O objeto da modernidade ou seu sujeito não se conformaram aos ideais prometidos e perseguidos. Para Lyotard, o que de fato inaugurou a pós-modernidade não foi uma nova idéia, “mas os fatos que se construíram na base da disputa pela ‘boa idéia’”[2] tendo Auschwtiz como marco emblemático e, acrescento eu, os Gulags de Stálin.

Estes fatos, ou Fato, como um arremedo das remotas e, até então, acanhadas disputas havidas sobre fronteiras territoriais, consistem na imensa e destrutiva disputa envolvendo fronteiras intelectuais. Realizam-se ainda de forma completa e suficientemente trágica em números, motivações, ilegalidade e ilegitimidade, de forma a não deixar quaisquer dúvidas sobre si e seus objetivos. Sobre o século XX, Willian Golding[3] (prêmio Nobel, escritor, Grã-Bretanha), diz: “Não posso deixar de pensar que este foi o século mais violento da história humana”.

Para Eagleton[4], Pós-modernidade se define, em linhas gerais, como oposto de modernidade:

[…] Pós-modernidade é uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação. […] vê o mundo como contingente, gratuito, diverso, instável, imprevisível, um conjunto de culturas ou interpretações desunificadas gerando um certo grau de ceticismo em relação à objetividade da verdade, da história e das normas, em relação às idiossincrasias e à coerência de identidades.

Caracterizam a existência[5] deste momento, talvez melhor fosse dizer “movimento”, fenômenos culturais e, a arte e a estética pós-moderna refletem incredulidade acerca das metanarrativas que sustentaram o “Projeto Moderno”. Além da ruptura com os ideais modernistas, a Pós-modernidade também mostra sua desconfiança absoluta na Tecnociência, na História e naquilo que ela categoriza como discursos totalizantes.

Um paralelo pode ser tentado entre postulados relativos aos dois períodos. A verdade deixa de ter caráter universal e absoluto e passa a ser local e relativo. O mundo regido pela razão está destruído pelas guerras universais. O progresso técnico-científico transmuta-se na destruição do homem e da natureza. A cultura judaico-cristã que permeou o modernismo cede espaço ao multiculturalismo.

Na Modernidade havia uma idéia universal como condutora para uma vida humana melhor e, necessariamente, compartilhada do pressuposto de uma essência humana também universal capaz de ser analisada, avaliada e julgada segundo critérios éticos e estéticos – os critérios da razão. Essa essência é questionada na pós-modernidade, de maneira que todo candidato à essência humana é dissecado até sua insuficiência, pois “suspeita, portanto, da idéia de natureza”.[6] O pós-modernismo é, de certa forma, uma crise de legitimação: a ausência de algo que possa se chamar de essência humana gera a impossibilidade de uma Idéia universalizante e, também, legitimadora.

A Pós-modernidade não trata de legitimar algo de forma diferente da Modernidade e propõe que pequenas narrativas continuem a existir na vida cotidiana legitimando, portanto, as soluções locais, desconsiderando-se as soluções universais totalizantes que são, em última análise, autoritárias – caráter totalitário.[7] A substituição das narrativas universais pelas particulares (pequenas narrativas) está na agenda pós-moderna porque “nossa tendência para sobrecarregar a narrativa como legitimação arcaica é interessante em si mesma na problemática que é aqui a nossa, a do totalitarismo moderno”[8]. Contrapondo-se à suposição de que a permissividade de tudo também seria uma legitimação totalitária, o mesmo autor[9] afirma que a soberania das pequenas narrativas “que lhes permitiria escapar à crise de deslegitimação […] não têm valor de legitimação” e, portanto não podem ser totalizantes.

Esta substituição comporta a possibilidade da ausência de legitimação instalar o “direito do mais forte” em detrimento “da força do direito”, a despeito de considerações sobre discursos e realidade. Hobsbawm[10] relata o retorno da barbárie, “ou seja, mais especificamente, a reversão do que poderíamos chamar de projeto do Iluminismo do século XVIII”. Entretanto, o Pós-Modernismo não aceita o retrocesso e discute a noção de “moderno” e “progresso”. Não aceita a realidade, social e individual, como objeto construído pela razão ou que esta detenha a propriedade autoral sobre o mundo em que vivemos. Frequentemente, podemos aduzir, na história das grandes civilizações, que o Estado tornou-se o Divino: “Faraó, César, L’État c’est moi”.

A noção de progresso é contestada no Pós-modernismo. Nega que os acontecimentos da vida humana caminhem, quase como numa orquestra, afinados na execução da mesma música. Parte dessa contestação irá atingir a História como ferramenta capaz de aglutinar acontecimentos e mostrar a coerência e objetividade do progresso humano. Desconsidera que o Historicismo possa elevar a História à condição de metanarrativa universal e legitimante. Essa história universal da humanidade[11] não contemplaria todas as pequenas narrativas e seria ela mesma uma narrativa incoerente e incompleta, incapaz de ordenar e dar lógica a enorme quantidade de acontecimentos do mundo.

Da mesma forma, Lyotard[12] retrata a tecnociência como instrumento da posse do homem sobre a natureza:

(Esta posse) […] desestabiliza-o profundamente: porque, sob o termo “a natureza”, é preciso contar com todos os constituintes do sujeito humano: o seu sistema nervoso, o seu código genético, o seu computador cortical, os seus captores visuais, auditivos, os seus sistemas de comunicação, nomeadamente lingüísticos, e as suas organizações de vida em grupo […]. O homem talvez seja apenas um nó muito sofisticado na interação geral das irradiações que constituem o universo.

As transformações ocorridas, especialmente após a década de 60, são imensas, podendo ser, em seu aspecto cultural, ilustradas estatisticamente com Hobsbawm[13]: Número de pessoas vivendo sós: Início do século, 6%, 1991, mais de 25% (UK); as famílias (clássicas) caíram de 44% de todas as casas para 29% entre 1960 e 1980 (EUA); quase metade dos partos na Suécia foi de mães solteiras na década de 80; o comparecimento à missa em Quebec na década de 60 caiu de 80% para 20%; na Inglaterra e País de Gales, em 1938, houve um divórcio para 58 casamentos – em meados da década de 80 houve 1 divórcio para 2,2 casamentos.

Antes que se estabelecesse um definitivo e incontestável reconhecimento da Pós-modernidade, com o conseqüente término da Modernidade, Terry Eagleton teoriza seu fim em seu livro Depois da Teoria de 2003. Afirma que a administração Bush com sua Guerra ao Terror deslanchou uma nova narrativa global do capitalismo para o qual os pós-modernos não possuem defesa. Implica nisso o fato de que a pós-modernidade é a recusa de se estabelecer teorias teleológicas (metanarrativas), daí o título de seu livro.

Hoje, em 2018, podemos perceber que, de fato, a pós-modernidade está ruindo, tanto menos pelo que afirmara Eagleton de que a guerra ao terror foi uma nova narrativa global do capitalismo. Transcorridos mais de 10 anos de seu livro, e tendo a pós-modernidade alcançado seus mais de 60 anos, podemos perceber que aquilo que de fato se opôs à pós-modernidade não foi o capitalismo e seu suposto neocolonialismo, mas uma guerra travada não com armas e canhões, mas com (meta)narrativas. Não as mesmas da modernidade que tanto a pós-modernidade festejou estarem mortas – e que Eagleton pede pelo seu retorno desesperadamente. Mas trata-se de um retorno à metanarrativa mais fundamental e que possibilitou o surgimento mesmo da civilização ocidental: o cristianismo.

A palavra retorno pode aí gerar um equívoco se entendemos que se está em curso um retorno ao passado, por assim dizer. Não há, pelo menos no que diz respeito à intenções políticas e culturais mais vigentes, uma tentativa de restabelecer a Idade Média. Mas não por acaso o nosso tempo está ouvindo o que o passado tem a dizer, uma vez que o que se busca é uma espécie de síntese dialética. Pode-se incorrer aqui numa tentativa de escrever sobre a história ainda em curso, mas me parece mais que plausível e visível que o mundo ocidental de hoje está sedento para ouvir o que os grandes homens do passado têm a dizer sobre nós, homens do futuro. E esse movimento é, a um só tempo, uma absorção da modernidade e pós-modernidade, e uma tentativa de transcender dialeticamente estes problemas.

O que a pós-modernidade fez, de fato, foi esgarçar o campo cultural da modernidade, não para a negá-la como esbocei na primeira parte deste artigo com o pensamento de seus promotores, mas justamente para fazê-la cumprir seu destino último: a emancipação radical de todo e qualquer homem. Explico, a modernidade foi a recusa de seguir regras morais, vindas da religião, sob justificativa da emancipação do homem e a construção do cidadão. A pós-modernidade foi a recusa de seguir regras morais impostas por qualquer meio ou fonte inspiradora. Aquela foi a emancipação pela razão, esta a emancipação pela subjetividade. Colocado nestes termos, a pós-modernidade difere da modernidade em alguns aspectos, mas não no seu essencial. Não naquilo que lhe é próprio e se consegue ver nas suas ações históricas como feminismo, multiculturalismo, sex lib, etc.

Eagleton estava certo de que a pós-modernidade chegava ao seu fim. Mas sua visão política não o deixou ver a realidade daquilo que se colocava ante seus olhos. Diante do discurso sobre o MAL que a guerra ao terror fazia para avançar contra seus inimigos, Eagleton, que foi um ferrenho opositor ao pós-modernismo, enxergou-o somente como um discurso moralista próprio do capitalismo, sem perceber, no entanto, que no fundo da alma ocidental agitava-se, agonizante, os valores tradicionais do ocidente que vinham há décadas sofrendo os ataques da pós-modernidade. Para Eagleton parece não haver alternativa à pós-modernidade que não seja a própria modernidade. Mas isso é sintomático para quem acredita que Karl Marx tenha sido o Aristóteles da modernidade.

O discurso de Donald Trump, na Polônia em 2017, foi a declaração de guerra contra a pós-modernidade e não o discurso de Bush com a Guerra ao Terror. Este discurso de Trump é a um só tempo a declaração guerra e o atestado de óbito da pós-modernidade. A pós-modernidade declarava com Nietzsche, numa angústia festeira, que Deus havia morrido. E com orgulho o ocidente declara com Donald Trump “Nós queremos Deus”.

 

 

[1]     GEHLEN apud HABERMAS, op. cit., 2002, p.6.

[2]     LYOTARD, op. cit., 1993, p.33.

[3]     GOLDING apud HOBSBAWM, idem, p.11.

[4]     EAGLETON, T. As ilusões do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p.7.

[5]    Muitos teóricos colocam em dúvida, ou negam terminantemente, a existência da Pós-modernidade. Connor, a este respeito diz que: “o debate sobre ele pode ser visto, em parte, como a prova de sua existência. Os debates críticos sobre o Pós-modernismo constituem o próprio pós-modernismo” (CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. 4.ed. São Paulo: Loyola, 2000, p.25). Dentre as várias características apontadas por aqueles que afirmam sua existência, destaca-se a crise das metanarrativas, conforme Lyotard.

[6]     EAGLETON, op. Cit., 2005.

[7]     LYOTARD, op. cit., 1993.

[8]     LYOTARD, op. cit., 1993, p.60.

[9]     Ibid., p.34.

[10]   HOBSBAWM, E. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.269.

[11]   LYOTARD, op. cit., 1993.

[12]   LYOTARD, op. cit., 1993, p.34.

[13]   HOBSBAWM, op. cit., 1995, p.315-330.

Renato Emydio