DEBATE POLÍTICO E INTERNET

DEBATE POLÍTICO E INTERNET

Havia uma regra muito difundida sobre debate e retórica, especialmente para a política, sobre não se perder muito tempo na defensiva. Numa discussão a regra era atacar, seja de forma ostensiva ou não, direta ou indiretamente, mas nunca ficar na defensiva. A razão disso era que quando alguém se coloca muito na defensiva se mostra fraco, na melhor das hipóteses, ou suspeito, na maioria dos casos.

Em um debate político, por exemplo, uma resposta à uma mentira requer mais tempo para ser respondida do que o tempo usado para fazer a pergunta que a suscitou. Considerando que seu tempo em um debate é limitado, e que você somente terá aquele espaço para tratar do assunto, fica evidente o uso da regra. Eram comuns meias verdades, insinuações e mesmo mentiras em perguntas que deixavam os candidatos com pouco espaço para manobra. Quando um ataque se baseava inteiramente numa verdade, o prejuízo eleitoral para o inimigo estava praticamente certo – a depender de outros fatores, principalmente, a mídia. Nos importa aqui menos os ataques baseados em verdades, e mais os outros, que sempre fizeram parte do arsenal de guerra político.

O caso de Bolsonaro aqui no Brasil e de Donald Trump nos EUA nos mostram que essa regra já não se aplica na era digital. Defender-se dá popularidade, angaria-se apoio e ganha-se defensores. O que mudou foi a internet possibilitando que cada situação seja explicada com o tempo e espaço necessários, mostrando justamente a malícia de quem fez o ataque e colocando o defensor na melhor das situações: de vítima. Nesse sentido, o melhor ataque é a defesa.

Com a internet o ataque pode ser respondido com mais tempo, mais informações e de forma mais didática, retirando dele quase todo seu potencial e tratando-o com a melhor perspectiva para quem se defende. É visível, no caso de Bolsonaro, que quanto mais investem contra ele contando as mais variadas mentiras, e mesmo insinuações plausíveis, ele tende a sair fortalecido. Defender-se, defender-se e defender-se, vasculhando os cinco cantos da mídia em busca de matérias que falem mal de si, parece ser uma arma que poucos entenderam como fundamental na guerra política digital.

É curioso que a própria mídia não tenha enxergado isso, talvez porque ainda pense ter aquele poder de outrora. As entrevistas de Bolsonaro no Roda Viva e na GloboNews atestam a miopia da classe jornalística.

Renato Emydio