Homem-Massa

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Homem-Massa

É comum ouvir que vivemos no tempo da sociedade de massa para entender a sociedade de hoje. Só que isso ajuda menos do que parece, já que por sociedade de massa entende-se o esforço para organizar a massa e não o fenômeno mais essencial que é o império da massa. Imperam seu modo como vivem, seu modo como entendem e sentem-se no mundo.

A vida humana foi radicalmente modificada na modernidade. Os avanços na tecnologia e na ciência junto com a revolução industrial elevaram o patamar material do homem a níveis nunca antes imaginados. Basta olharmos a abundância de bens de consumo como roupas, comida, transporte, higiene e toda uma espetacular gama de serviços, como a medicina, psicologia, engenharia etc, que hoje estão disponíveis à imensa maioria das pessoas, e compararmos com toda a estrutura precária da vida humana na Idade Média, onde botas, casacos e outros produtos eram objetos de herança familiar, e as casas não tinham água encanada, eletricidade etc. É só visitarmos um shopping center ou um supermercado para que se tenha a dimensão dessa abundância material de hoje. Normalmente se dá a essa descrição o nome de sociedade de massa. Mas para entendermos nosso tempo, é necessário entendermos quem é esse homem que vive nessa sociedade, que é o homem-massa.

Não foi somente os bens materiais que cresceram, já que esse homem foi chamado a participar mais da vida social, seja através do acesso mais facilitado às instituições como universidades, órgãos públicos, etc, seja através de grupos de pressão social e política, da militância partidária e, numa palavra, da democracia. A modernidade não foi somente uma questão de abundância material, mas um conjunto imenso de estruturas sociais, políticas, culturais, técnicas, científicas e filosóficas que encarnam o conjunto ainda maior de ideias que são a substância mesma da modernidade.

Para entender o homem-massa é necessário entender melhor a modernidade, já que seus avanços intelectuais também modificaram radicalmente a maneira como o homem entende e se sente no mundo. Esse entendimento passa pelo rompimento com o passado e a aposta em um projeto novo de organização social que se condensa no cidadão, um tipo muito específico de ser humano dotado com algumas habilidades necessárias para esta nova organização social. Mas o que define mesmo a modernidade é como ela se sente no mundo, por assim dizer. Esse sentimento é que está na base do nosso tempo, e é a essência do homem-massa. Podemos dizer que o homem-massa encarna perfeitamente a modernidade, sendo mesmo o seu arquétipo.

Ainda não sei dizer se a sociedade de massa ou o homem-massa foram um objetivo da modernidade, mas não há dúvidas de que a condição de seu surgimento está em algumas consequências dos objetivos pretendidos. Esse surgimento não tem a ver com as teses, doutrinas e tudo o mais que fora elaborado intelectualmente pela modernidade, mas um sentimento, meio inconsciente, que está nela desde o início: sua vontade de não seguir regras morais.

Se num primeiro momento a modernidade não aceita a fé e somente a razão para lhe impor uma moral, ela o faz para poder decidir sobre suas próprias regras morais. Mas isso é o mesmo que não seguir regra moral nenhuma. Nos momentos posteriores a razão, agora desarraigada da fé, justifica qualquer ato, qualquer conduta, qualquer ideia como moral. O século XIX e XX foram prodigiosos em nos fornecer os dados que corroboram esta afirmação, como o grande embuste intelectual de Karl Marx, o Nazismo e o Socialismo.

Da metade do século XX e início do século XXI esses dados têm aparecido com outra feição, não menos simbólica, não menos perigosa. Os direitos humanos com uma frequência assustadora são utilizados para defender criminosos do mais alto grau como narcotraficantes e ditadores sanguinários. A ONU é transformada numa assembleia, não eleita, que julga, decide e impõe condutas imorais como se fossem a própria instituição divina. Tudo isso feito em nome do bem, da ética e da liberdade. A loucura de dar a cada escolha humana o caráter de direito político, não é outra coisa que o eco, tão profundo quanto silencioso, da vontade de não seguir nenhuma regra moral.

Pode parecer paradoxal que a proclamação de direitos seja uma fuga moral.  Mas é só olhar a profusão de direitos proclamados para entender que se está proclamando direitos que visam justamente a permitir condutas imorais. Esse é o nosso tempo. O tempo do império das massas onde todo o dever recai sobre uma coletividade, sem responsabilidades individuais. Ou, dito de outra forma, toda e qualquer vontade humana tende a ser eleita como um direito retirando de qualquer pessoa a responsabilidade pelos seus atos individuais.

A própria questão entre modernidade e pós-modernidade, vista por esse ângulo, que julgo ser a essência desses períodos, perde seu sentido já que nesses dois momentos históricos o sentimento é o mesmo. É a recusa de não seguir regra moral, esse sentimento que define por excelência o homem-massa, que é a cor dos nossos dias, o tom das nossas músicas, o enquadramento da grande mídia.

Estamos produzindo uma série de vídeos no canal Estudos Nacionais no youtube para deixar estas questões mais claras, dando condições de se entender melhor a atual organização social e as forças que nela interagem.

Renato Emydio