O que é jornalismo?, pergunta a Verdade

Assim como Pilatos, o jornalismo lava as mãos, e entrega a verdade à opinião pública, acreditando que ela virá da multiplicidade de visões e versões. Vende-a por um consenso e, com isso, consente demais. 

Uma vez, em um curso de mestrado em Jornalismo, um professor questionou em sala de aula: por que os cursos de Letras, ao estudarem a literatura, estudam as melhores obras, ou seja, os sucessos da literatura, enquanto o jornalismo enfatiza os fracassos e maus exemplos da atividade para fins de estudo? A resposta que me ocorreu imediatamente foi esta: ora, para a literatura a forma artística tem papel imprescindível na excelência ou não da obra, já para o jornalismo, o conteúdo é mais importante porque a matéria prima é a verdade dos fatos e não a forma artística. Faz sentido então estudar os maus exemplos, isto é, a falta da verdade. Mas o questionamento do professor, que ele fez repetindo o de outros, diz muito sobre o que se busca fazer do bom jornalismo nas universidades: a procura da verdade vai sendo substituída por discussões de estilo.

Mas será mesmo que o jornalismo é estudado assim nas universidades? O que eu mais vi na faculdade de jornalismo foram elogios deslumbrados ao que se convencionou chamar de jornalismo literário, insistentes e aprofundados estudos sobre as reportagens criativas da revista Piauí e a sensibilidade de suas narrativas, dos parágrafos tão sensíveis da femi-jornalista Eliane Brum, da lindeza dos enquadramentos inclusivos, das narrativas caridosas destinadas aos oprimidos e etc, etc. A cabeça do estudante de jornalismo contemporâneo é um jardim positivista, onde floresce uma nova narrativa que descreve os espinhos da decadência com palavras floridas. Com isso, denuncia abusos e contradições do status quo. É o jornalismo de transformação.

Mas em que sentido é preciso ainda insistir para que o jornalismo se aproxime da literatura? Que parte da arte o jornalismo quer utilizar? Arrisco que, tendo como norte a transformação da sociedade, o elemento essencial deve ser o seu caráter ficcional, manifestado e disfarçado sob a moldura do estilo.

Que o texto jornalístico deva ser bem escrito e que o jornalista deva reunir os clássicos da literatura em seu repertório cultural não há dúvidas. Mas onde está este repertório? Os estudantes de jornalismo só leem Piauí e a odiosa Eliane Brum que, com seu feminismo militante disfarçado de sensibilidade, distorce a realidade para amoldar-se coincidentemente às propostas da Nomenklatura do regime.

Ora, tal como os articulistas do Vermelho.Org, que grasnam contra a grande mídia acusando-a de “direitista neo-liberal” e dizendo, com isso, que todo o elogio que fazem à esquerda não é suficiente, os acadêmicos afirmam que o estudo do jornalismo é mercadológico e reducionista, quando na verdade é ideológico e relativista. Não ideológico e relativista suficiente para eles, claro.

Então, o que mais faz o ensino do jornalismo que não perguntar “o que é a verdade?”, deixando no ar esta questão tão evidente?

Assim como Pilatos, o jornalismo faz a pergunta enquanto que a resposta está diante do seu nariz. Assim como Pilatos, o jornalismo lava as mãos, e entrega a verdade à opinião pública, acreditando que ela virá da multiplicidade de visões e versões. Vende-a por um consenso e, com isso, consente demais. Sem amor à verdade não há jornalismo. Sem humildade diante da verdade, o jornalista se torna um administrador de opiniões pretensamente neutro. Neutralidade é impossível, mas a objetividade é necessária. A pretensa neutralidade nada mais é do que ignorância disfarçada de imparcialidade, ou exatamente como dizia Chesterton: “a imparcialidade é um nome pomposo para a indiferença, que é um nome elegante para a ignorância”. O discurso da imparcialidade é a negação da verdade em nome do consenso. Sem saber nada sobre o que deve escrever, o jornalista se diz imparcial e com isso pensa ganhar credibilidade, este bem tão escasso.

A pergunta “o que é a verdade” é e sempre será cínica, pois oculta o desejo de suplantá-la. Mas em nome do que? A pergunta que se deve fazer é: quem é o jornalista para perguntar o que é a verdade? O jornalista de hoje perdeu todas as esperanças e por isso trabalha contra a esperança de todos.

Na mesma turma do professor questionador, havia uma aluna que, diante da frase de Tobias Peucer, de que o jornalista deve amar a verdade, estranhou que o critério de veracidade estivesse no jornalista, isto é, no sujeito cognoscente. Isso porque, para eles, é preciso encontrar a verdade indiretamente, por meio de uma técnica exata, um conjunto de critérios e um código de ética ferreamente fiscalizado por um conselho nacional.

O professor e a aluna representam o meio acadêmico que quer impor uma barreira entre o indivíduo e a Verdade. Mas a Verdade, ainda assim, os diz como disse a Pilatos: “meu Reino não é deste mundo”.

 

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
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