O monstro do isolamento social

Li em algum lugar que o maior temor humano não é a morte, mas a loucura. O caos e a confusão parecem ser bem mais atemorizadores do que a própria morte. Na verdade, a fragmentação total do ser pode ser nada mais que o próprio inferno, a condenação à morte eterna, muito pior do que a morte da vida. Isso porque sem identidade entre as coisas, há uma sensação profunda e dolorosa de solidão, de isolamento. Talvez se originem desse horror metafísico as mais variadas atitudes humanas e sociais, como um vínculo existencial que nos induz à sociabilidade e ao compartilhamento de sentimentos e ações por meio de fatos e relatos.

A maior parte dos comportamentos sociais pode ser explicada pelo medo de um monstro fundamental, que se apresenta, muitas vezes, sob a forma da sensação de estar isolado do corpo social, da vida humana, da normalidade. É o medo da não participação na essência do que é humano. O que pode levar a uma reflexão metafísica e até teológica, porém, pode ser melhor entendido por meio da psicologia social e da forma de recepção do fenômeno das notícias e do desejo pelos valores comuns.

O isolamento social é tema central do livro A Espiral do Silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann, que será lançado no Brasil pela editora Estudos Nacionais no próximo mês. O livro não busca conceituar o isolamento, mas trata dos efeitos sociais que o medo individual pode produzir na sociedade. O temor do ostracismo e da indiferença do entorno social é, sem dúvida, uma das maiores causas dos diversos fenômenos sociais, entre eles a geração de solidariedades grupais pesquisadas de perto por psicólogos sociais como Kurt Lewin, Lazarsfeld, Le Bon e a própria Neumann.

Não é difícil compreendermos algo dos efeitos de tal temor, bastando que leiamos com atenção A Espiral, sobre as nefastas consequências do aproveitamento desse fator para a manipulação coletiva. A busca por ser compreendido é uma busca por ordem. O objetivo da razão é um fetiche moderno, mas amparado no desejo de conhecer. Desejo pode confundir-se com sentimento.

Embora digamos, com certa razão, que o nosso mundo é dependente de um certo sentimentalismo, ele é fruto do racionalismo fanático da modernidade, para o qual a formação da opinião, que pelo menos pareça coerente, é requisito para a tão sonhada emancipação individual. Para se fazer algo é preciso justificar-se diante do mundo. O entendimento não basta. É preciso que a pessoa mais limitada a possa compreender, ou só será alguém para uma minoria irrelevante no somatório da massa, donde o indivíduo retirará sua auto imagem.

Os grupos diversos que se distribuem repetem as características mais comuns nos grupos humanos. Diferem, em geral, muito mais no marketing que fazem de si mesmos do que em alguma real característica em comum. Até porque, essas coisas em comum, quando existem, podem ser evidenciadas em detrimento daquelas menos associáveis ao grupo, menos generalizáveis. A verdade é que as pessoas se generalizam, se agrupam num mesmo saco, devido o medo do isolamento e ostracismo.

Deixemos de lado, por instantes, o isolamento existencial ou metafísico. Avancemos para o seu modo fenomênico mais superficial observando-o onde aparece em última instância: na política.

Quando se fala em isolamento social, fala-se do maior medo que tem o ser humano democrático. O isolamento é confusão, caos. Mais do que isso: um caos no qual se vaga solitário e confundido com os demais elementos difusos. Embora esse isolamento, em si mesmo, possa ser benéfico e libertador, para a maioria das pessoas que respira a massa, ele representa o fim da existência. Porque toda existência na sociedade de massa é uma existência social. Dado um risco dessa magnitude, é preferível estar contra todo o mundo do que estar isolado dele, do que suportar a indiferença dele.

O consumo da notícia produz sensação de coesão e de repertório em comum. A única forma de nos sentirmos unidos e coesos é partilharmos das mesmas informações, o que nos pode levar a coabitar o mesmo corpo valorativo. O tempo, por definição, nos induz a vivermos todos no mesmo presente, nos confina à mesma esfera de existência temporal. Não há maior decepção do que estar no mesmo lugar, com outras pessoas sem que elas nos possam ver. É a invisibilidade. Contra a invisibilidade social, estejamos todos unidos no mesmo assunto ou, se possível, no mesmo fato.

O desejo por atualidade é natural no homem. Ele pode aparecer sob diversas formas, mais ou menos intelectualizadas, mais ou menos refinadas ou simplórias, por meio de chavões, desejos miméticos ou efeitos de manada. Gabriel Tarde fez a distinção entre multidão e público, visando justamente essa gradação no fator de coesão. Do refinado público à simplória multidão, porém, impera uma única e obstinada raiz social: o medo. O medo de perder a humanidade. Esse medo pode se apresentar como o da cidadania, o do politicamente correto ou qualquer outro. Grupos coesos propõe, eles mesmos, os seus politicamente corretos, os seus códigos. Mas nenhum deles é livre para prescindir de algum sentimento de identidade.

O isolamento social, porém, sempre que ocorreu na história humana, foi libertador. Gênios foram isolados. Verdadeiros mestres passaram por longos períodos de isolamento para depois ensinar aos demais o que aprenderam. O talento se aprimora na solidão, dizia Goethe, e o caráter na agitação do mundo. Em períodos de densa coletividade e apelo sentimentalista, seja à razão ou à emoção, não pode ser mais fundamental isolar-se. O medo do isolamento, embora universal em certo sentido, é um apelo psíquico que se coaduna com o físico, o corporal, o instinto de sobrevivência.

Os valores realmente universais, porém, são os que apelam à humanidade presente em todos os homens e atrai, em nós, aquilo para o que existimos. No entanto, nosso sentido de busca pela coesão e participação ofusca um risco que nos devia ser ainda mais caro: o de nossa coabitação com o mundo nos distrair e nos apartar da realidade verdadeiramente universal, representada pelo anseio à verdade e ao que é superior. Afinal, antes da sociedade existe um eu que não é definido socialmente. E deve ser somente a este eu que prestaremos conta. O princípio da individualidade, Aquele que É, só pode ser acessado em nós quando nos separamos daquilo que muda, daquilo que nos promete alívio em nosso presente.

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
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