O mau gosto vem da degradação de comportamentos

A decadência cultural e artística é fruto de uma queda moral e comportamental. Enquanto uma ajuda a outra a perecer no fosso do niilismo estético travestido de sociologia, é dever de quem observa aprofundar a crítica com o fim de oferecer um remédio a tudo isso. Mas o remédio não é doce.

Experimente fazer uma crítica pública ao mau gosto ou falta de técnica artística de algum renomado artista ou grupo de sua cidade. É quase certo que será hostilizado, embora com algum embaraço e constrangimento, movidos pela imensa surpresa e ineditismo da sua manifestação. Provavelmente, a mídia de sua cidade, tal como em todo o Brasil, desaprendeu a fazer crítica e por esse motivo, os artistas esqueceram-se de que sua arte não está livre de críticas. Entre os motivos disso está o fato de que os artistas também desaprenderam a fazer arte e, em algum momento da história, começaram a apresentar coisas de tão baixa qualidade, primando apenas por um refinamento superficial na apresentação ou no visual, que as pessoas não percebiam a ausência de sensibilidade artística ou mesmo de bom gosto.

Isso se reflete em artistas e no público por reflexão de comportamentos. Afinal, a cultura mesmo erudita é hoje degradada mais e mais pelo assédio do popular. Mesmo em segmentos acadêmicos, nos quais substitui-se a beleza pelo social, pelo elogio da pseudo-expressividade marginal.

O senso artístico foi desaparecendo aos poucos, imperceptivelmente, substituído por aparências e imitações de sensibilidade. Uma certa cultura do relaxamento e da indisciplina, causada especialmente pela mesma atmosfera cultural de degradação sutil, tornou os artistas incapazes e inaptos ao entendimento profundo do seu ofício.

Não podendo reproduzir com profundidade a obra artística, contentaram-se com a aparência de profundidade, isto é, tornaram-se atentos mais a comportamentos artísticos, o que normalmente acaba se reduzindo à técnica. Mas como o foco é no comportamento e na imitação, até mesmo a técnica fica em segundo plano. Não tarda, portanto, para que tecnicamente não se possa mais reproduzir as grandes obras ou reconhecer o seu valor. Sobra a imitação tosca e sofrivelmente insuficiente. Os conceitos de beleza são relativizados precisamente devido a incapacidade de aproximar-se dos melhores exemplos.

A prática artística se torna, não mais uma devoção como o era para o artista clássico e amante da beleza, mas um estilo de vida que precisa ser repetido e reforçado como adereço à personalidade. Pouco a pouco, essa afirmação constante, que no seu íntimo é a justificativa para a perda da sensibilidade, vai sedimentando um comportamento excessivamente tolerante com novidades artísticas e teóricas. Acadêmicos aderem a modismos de acordo com a atribuição indireta da credibilidade do meio social acadêmico. Passa-se a fazer sociologia no lugar de arte.

Compreendemos, então, por que motivo o crítico é hostilizado. Ao criticar uma determinada linha artística, seja na música, na pintura, escultura ou arquitetura, critica um modo de vida específico e, com isso, atinge pessoas em um ponto sensível sobre o qual elas não possuem expressão para falar.

Mas é necessária a crítica exatamente por isso. O choque consigo mesmo é imprescindível para gerar um aprofundamento da noção artística, mesmo que seja por meio da indignação e do chilique. Percebendo a própria sensibilidade emocional devido o ataque direto às suas deficiências não professadas, devia aproveitar e observar o íntimo doloroso da tensão humana entre o expressivo e o inexpressivo. Quem sabe o susto o ensine a expressar-se.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.
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