Para pastor que orou por Bolsonaro, feminismo estimula mulher a matar filhos, praticar bruxaria, destruir o capitalismo e tornar-se lésbica

Pat Robertson e Bolsonaro

Despedida abençoada

Um dos últimos compromissos do Presidente Bolsonaro ontem foi um encontro com o missionário Pat Robertson na Blair House, em Washington. Espécie de RR Soares americano, Robertson, 88 anos, conduziu uma oração em que rogou a Deus protegesse Bolsonaro e fortalecesse os laços de união entre Brasil e Estados Unidos.

 

Um conservador visionário

Robertson é uma figura singular. Dono de uma rede de TV, de uma universidade e de várias instituições filantrópicas, foi colaborador próximo de Ronald Reagan. Tentou sair candidato à Presidência pelo Partido Republicano no fim dos anos 80. Não obteve êxito. Em 1991, lançou um best-seller intitulado The New World Order (“A Nova Ordem Mundial”), que foi um dos responsáveis por abrir os olhos da opinião pública americana para o problema que então se delineava.

O pastor divide com Bolsonaro a extraordinária franqueza com que manifesta seus pontos de vista. Em 2008, num programa de TV, incitou o governo americano a matar Hugo Chavez. Em palavras que hoje soam proféticas mas na época não passavam de “maluquice fundamentalista”, disparou: “Hugo Chavez está destruindo a economia venezuelana e vai transformar aquele país numa plataforma para a infiltração comunista no continente inteiro. […] É muito mais barato matá-lo do que termos de começar uma guerra.”

 

Ainda em outra ocasião, Robertson suscitou polêmica ao afirmar que o “Islã não é uma religião, mas sim um sistema político. Portanto, seus fiéis devem ser tratados da mesma forma como tratamos os membros do Partido Comunista ou de alguma organização fascista.”

Hebe Camargo, extremista de direita

Mas foi por conta de uma declaração relativa ao feminismo que o missionário apareceu pela última vez, ainda que de forma velada e um tanto pitoresca, no noticiário brasileiro. E, surpreendentemente, já em companhia de Bolsonaro.

Em meados de 2016, antes mesmo do impeachment de Dilma Roussef, um grupo de pândegos do Rio Grande do Sul que se autointitulava FODASCE (Frente de Opressão de Arrombados, Socialistas, Comunistas e Etc.) colou nas dependências dos cursos de Humanas da UFRGS alguns cartazes de apoio a Bolsonaro e ao Prof. Olavo de Carvalho. Um desses cartazes, que tinha como alvo a líder feminista Lola Aranovich, ostentava a palavra de ordem “Menos empoderamento, mais empauduramento”, acompanhada de uma citação atribuída à apresentadora Hebe Camargo:

“O feminismo não luta pela igualdade de direitos, mas é um movimento político socialista, inimigo da família, que estimula a mulher a largar seu marido, matar seus filhos, praticar bruxaria, destruir o capitalismo e tornar-se lésbica.”

 

Cartaz do grupo FODASCE pedindo Bolsonaro Presidente. Abril de 2016.
Cartaz contendo citação de Robertson galhofeiramente atribuída a Hebe Camargo 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como uma rápida consulta ao Google seria capaz de elucidar, contudo, o autor da citação na verdade era o Pastor Robertson – detalhe que escapou na época aos doutos jornalistas da Zero Hora, do Globo, do IHU e do Sul21, bem como ao Reitor da UFRGS, que mandou instaurar um Comitê contra a Intolerância na universidade em represália aos bolsonaristas. Foi assim que, nos meios acadêmicos do Rio Grande do Sul e até de outros Estados, Hebe Camargo passou a ser encarada por muitos como extremista de direita, fama que a acompanha injustamente até hoje. Foi assim também que a esquerda foi apeada do poder – mas essa é outra história.