Novembro Azul: o silêncio em torno dos riscos do exame de próstata

Assim como no caso do Outubro Rosa, a campanha do Novembro Azul ainda se baseia no silêncio a respeito dos mais recentes estudos sobre a eficácia dos exames. Além de estatisticamente inútil na prevenção, os exames, quando produzem diagnóstico de falso positivo, implicam em muitos riscos à saúde do homem, como incontinência urinária e impotência sexual. Por estas e outras razões que o Instituto Nacional de Câncer não recomenda os exames em pessoas saudáveis.

“Há chances de morte por infecção – cerca de uma pessoa a cada mil – e sangramentos. Ao passar pelo tratamento, cerca de 20% dos homens adquirem incontinência urinária e 60% ficam impotentes”

Nos primeiros dias do mês de novembro já começam as informações e alertas sobre a doença, considerada a segunda maior causa de morte por câncer em homens. A justificativa para a recomendação é clara: o exame de próstata previne o câncer, que pode ser tratado antes que seja “tarde demais”, fazendo-o por meio do mantra que diz: “a única forma de garantir a cura do câncer de próstata é o diagnóstico precoce”. O alerta, em tom amedrontador, não tem como não funcionar. As pessoas mais fragilizadas com questões de saúde correm aos hospitais e laboratórios para realizar os exames.

Pesquisadores da Universidade Case Western Reserve (Cleveland-EUA) avaliaram a eficácia do exame preventivo de câncer de próstata, o conhecido PSA (Antígeno Prostático Específico). A conclusão a que chegaram é que os riscos da triagem superam seus benefícios. Isso porque o agressivo tratamento posterior levaria à diminuição da qualidade de vida do paciente.

O problema é que, além dos riscos, o aumento no número de exames de rotina não tem feito diminuir o número de mortes pela doença, como mostra o quadro abaixo, publicado no British Medical Journal, em 2011:

Em uma nota à imprensa, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família & Comunidade, advertiu que a campanha Novembro Azul tem insistido em ir contra as recomendações dos estudos mais sérios do mundo. Um trecho da nota, diz:

Em 2012, o United States Preventive Services Task Force (USPSTF) passou a contraindicar o rastreamento de câncer de próstata baseado em PSA para homens estadunidenses de qualquer idade. Em 2013, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) passou a recomendar que não se organizassem programas de rastreamento para o câncer da próstata, e que homens que demandassem espontaneamente a realização de exames de rastreamento fossem informados por seus médicos sobre os riscos e benefícios associados a esta prática, “por existirem evidências científicas de boa qualidade de que o rastreamento do câncer de próstata produz mais dano do que benefício”. Na verdade, desde 2010, o Ministério da Saúde já duvidava da indicação desses exames, por não haver evidências científicas suficientes para justificá-lo.

Richard Ablin, pesquisador de patologia e imunologia da Universidade de Medicina do Arizona, responsável pela descoberta do PSA, em 1970, em um artigo para o New York Times, diz que “em alguns casos o exame de PSA é importante. Após tratamento, um aumento da substância pode indicar o retorno do tumor em outro órgão. Homens com histórico de câncer na família devem fazer esse exame regularmente – um aumento elevado pode significar câncer.  No entanto, o meio médico se apropriou dos exames que levaram a um gasto público desastroso causado pelo aumento de consultas, exames e tratamentos a medida que a população envelhece. Com o crescimento da expectativa de vida mundial, é esperado que o número de casos novos aumente cerca de 60% até o ano de 2015″.

Segundo o Dr. Ablin, os riscos já começam na biópsia. São feitas 15 perfurações na glândula através do reto, por onde também é feito o exame de toque. Há chances de morte por infecção – cerca de uma pessoa a cada mil – e sangramentos. Ao passar pelo tratamento, cerca de 20% dos homens adquirem incontinência urinária e 60% ficam impotentes.

 

Escritor, Jornalista e pesquisador de mídia, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro “A Transformação Social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda (Estudos Nacionais, 2016)” e colunista no site Estudos Nacionais e um dos fundadores da RádioVox. Colaborador do site Mídia Sem Máscara e aluno do filósofo Olavo de Carvalho desde 2009.

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