Era Bolsonaro: mais um episódio da crise global do jornalismo

Foto Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Há mais de 30 anos vivemos uma mudança profunda nas comunicações. A Era Bolsonaro, que pode inaugurar o aparecimento visível de um conservadorismo político no Brasil, poderá dar um empurrão na transformação de um establishment que resistirá a essa nova era da política brasileira e mundial. A resistência, porém, não se dá de maneira clara ou evidente quanto ao caminho que o jornalismo pretende seguir e essa incerteza é o que caracteriza o momento atual.

Saber da distinção entre os dois tipos clássicos de jornalismo historicamente atuantes é essencial para entender o lento processo que estamos vivendo desde o advento da internet. Parece coisa ultrapassada falar em mudanças produzidas pela internet, afinal ela já está aí há tanto tempo! O seu dinamismo e velocidade das suas transformações nos faz crer, muitas vezes, que já entendemos a natureza das mudanças possíveis e do sentido para o qual caminha nossa relação com a tecnologia. Mas essa impressão é desfeita tão logo aprofundamos a relação que o jornalismo tem com a política desta nova era global.

Se de um lado há o establishment que deseja manter sua narrativa, de outro há uma tomada de consciência popular e política que resiste a essa narrativa. O primeiro aspecto que salta aos olhos, portanto, é a inversão do discurso de um estamento poderoso que se diz “resistente” às mudanças que vêm de baixo, como se elas fossem a força mais poderosa em jogo. Paralelamente ao debate liberal e conservador, há um jogo entre dois tipos básicos de jornalismo: a velha função informativa e a já não tão nova função transformadora da sociedade.

Dois tipos de jornalismo: sensacionalismo e a imprensa por assinatura

Joseph Pulitzer, 1909. Retrato, John Singer Sargent

O sensacionalismo

Os primeiros jornais de cunho informativo eram carregados de sensacionalismo porque precisavam vender jornal a jornal, concorrendo com outros jornais de leitor a leitor. A atenção precisava ser a todo custo captada, nem que fosse por manchetes totalmente inventadas. O objetivo era que o leitor comprasse o exemplar. Depois, sendo uma informação difícil de confirmar ou mesmo se confirmasse falsa, a primeira sensação ficava como se fosse um gostinho de adrenalina que viciava o leitor e o levava a buscar novos títulos impactantes. Por dependerem das moedas dos leitores, esse tipo de jornalismo foi chamado de “penny press” ou também “imprensa marrom”. Eles ofereciam a sensação de estar informado pelo preço da insegurança total. Uma liberdade caótica, mas despretensiosa. Joseph Pulitzer (foto), muito antes de seu nome ser a referência ao prêmio Pulitzer, deve sua carreira ao jornal sensacionalista World, fundado por ele. Dizia que seu objetivo “não era instruir, mas chocar”.

 

Imprensa estável por assinatura

Adolph S. Ochs, fundador do New York Times.

Uma segunda geração de jornais, iniciada pelo The New York Times, fundado por Adolph S. Ochs (foto), tentava dar um basta nessa orgia de sensações e acabar de vez com a briga dos concorrentes captando todos os seus leitores de uma só vez: era a vez do jornalismo por assinatura. Quando um leitor assina um jornal, pagando-o mensalmente para ter acesso ao seu conteúdo, ele precisa justificar o investimento concedendo um voto de confiança e uma credibilidade maior à empresa contratada. Além disso, muda-se o sujeito informador: de um caça fatos que perde-se em manchetes e capas avulsas pelas ruas em busca de orientação no mundo, torna-se um “cidadão esclarecido”, fazendo parte de um time de elite da informação. Surgem as colunas de opinião prestigiadas, que são oferecidas como um produto de qualidade. Ochs ficou famoso por fazer da credibilidade um negócio. “Decência significa dinheiro”, dizia ele. Os jornais por assinatura venceram e fizeram seus imitadores.

 

A assinatura era a marca do “jornalismo integrador”, que opôs-se ao sensacionalista, considerado “desintegrador” da sociedade. Com uma missão sagrada em mãos, os integradores se alinharam aos funcionalistas da psicologia social e da sociologia da ordem pública. Ambos os tipos fizeram dinheiro prometendo informação e nenhum deles entregou o que prometia, cada um, porém, por sua razão.

Não é preciso pensar muito para entender que este modelo deu origem ao atual establishment que agora perde terreno para o “sensacionalismo” da internet. Ao menos a propaganda anti-sensacionalista, nomeada agora de anti-fake news, traz as mesmas críticas que o jornalismo integrador dirigia aos jornais populares. A campanha de críticas foi o que estabeleceu a credibilidade do jornalismo profissional, já que a atividade cresceu em oposição à sua versão popular e pouco segura.

Quem é fake news?

Isso quer dizer que a internet, as redes sociais, são essencialmente sensacionalistas como no passado? Sim e não. Como uma ferramenta popular, ela carrega a falta de filtros técnicos e científicos que o jornalismo desenvolveu. Ao mesmo tempo, por ter o jornalismo profissional como modelo, consegue em muitos casos repetir a sua técnica, mas também simulá-la, dando maior credibilidade a uma mentira. Esse é o medo dos que temem a desintegração social ou o abalo da democracia, como sugeriu recentemente o milionário George Soros, que investe milhões de dólares todos os anos em “mídias independentes” como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), além da maioria das empresas de Fact-checking.

George Soros

A verdade é que os jornais populares dependiam do público leitor e o jornalismo profissional passou a depender financeiramente de grandes grupos para transformar as crenças e determinar as opiniões da massa dos leitores. Se antes não havia redes sociais, ao menos o leitor podia não comprar um jornal que publicasse o que ele não gostava ou que contrastasse com seus valores. Isso era uma forma de participação. Com a assinatura, foi dada ao público leitor a opção de aderir e ser bem visto ao se associar a empresas de grande credibilidade ou renegar a grande mídia e ser visto como esquisito, conservador ou fascista, isolado socialmente, em um processo de espiral do silêncio.

Ao se aliar aos grandes financiadores, como Soros, o jornalismo se vendeu e deu as costas ao público, que encontrou espaço para reclamar nas redes sociais. Mas os milionários de mídia já estão demasiado envolvidos com o poder para abrir mão dele e dar voz a quem nada sabe de suas necessidades utópicas. As utopias desses milionários passaram a determinar não apenas o viés, mas todo o conteúdo aberto das notícias, reportagens e artigos de opinião, que lutam aguerridamente contra o avanço da voz popular nas redes ou nas ruas.

Portanto, politicamente não estamos apenas falando de direita e esquerda, mas de um esquema milionário que depende da credibilidade emprestada de um meio profissional que paga milhares de funcionários em uma gigantesca estrutura. Esse estamento tem dinheiro para pagar sua campanha contra o que desejar rotular de “fake news”, mas já começa a perder credibilidade para reforçar a sua narrativa, que passa, ela mesma, a ser considerada pelo público como a fake.

A “resistência” financiada do jornalismo profissional

Resistir, resistir, dizem políticos de esquerda diante do governo Bolsonaro. Mas Bolsonaro é quem representa a resistência brasileira diante de um esquema global que conta com a manipulação dos meios de comunicação. Para isso, os grandes jornais acabam caindo na tentação de usar os métodos que condenaram.

Hoje, com a exigência das grandes empresas em estarem ligadas nas redes sociais, chamar a atenção por títulos nunca foi tão necessário. Na prática, o jornalismo profissional teve que ceder às técnicas sensacionalistas e alguns acabam de fato inventando fatos, da mesmíssima forma como os jornais populares faziam. Como vemos, a dualidade entre os dois tipos de jornalismo não é tão simples, mas eles não podem abandonar totalmente seus financiadores. Hoje qualquer blog pode “furar” a mídia, isto é, dar uma notícia em primeira mão, porque os jornalistas profissionais estão paralisados na tentativa de enquadrar os fatos à narrativa dos seus patrões, uma narrativa já tão previsível quanto indesejada por quem já conhece e despreza as utopias que a motivam.

A verdade é que os grandes jornais estão diante de um dilema insolúvel que poderá ser fatal: ou aderem às narrativas conservadoras e ganham cliques nas redes sociais, sustentando seus negócios, ou continuam insistindo na narrativa de seus financiadores para manter seus privilégios. Um fato que eles levam em conta é a atual insuficiência econômica das redes sociais para a manutenção de uma grande estrutura, pelo menos que funcione da maneira clássica do jornalismo profissional. Quem cresce a cada dia são os canais de mídia com poucos recursos, que conseguirem fazer um trabalho profissional sem grandes investimentos.


 
 

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