Diagnóstico da imprensa da direita e a relação com fake news

Diagnóstico da imprensa da direita e a relação com fake news

03/04/2018 0 Por Cristian Derosa

Sites de direita que se pretendem noticiosos têm sido responsáveis por grande parte da informação que circula pela internet, especificamente redes sociais, incluindo o whatsapp. Com o tema dos acontecimentos políticos mais relevantes e de maior interesse, como a Lava-Jato, prisão de Lula, ação dos ministros do STF e intervenção militar, esses sites possuem alguma coisa em comum e grande parte deles é considerada fake news pela grande mídia. Mas existe algo de verdadeiro nessa consideração?

O que a mídia chama de fake news pode, na verdade, representar diferentes tipos de comunicação, segundo sua estratégia política, as escolhas discursivas, objetivos e funções no jogo midiático.

De fato, constatamos em muitos desses sites um grande número de erros, imprecisões e (o mais comum) contradições entre o título e os textos. Como a maioria das pessoas hoje só lê os títulos, fica fácil fazer uma notícia ir longe somente por meio de um título apelativo e forte. Mas ele pode não ter nada a ver com a matéria, tampouco com a realidade. Este tipo de expediente tem lugar em um tipo de site que também é chamado fake news. Mas há outros tipo que correspondem ao rótulo fake news segundo a grande mídia.

No momento atual, para uma compreensão adequada da situação, urge estabelecer critérios muito claros sobre o nível de credibilidade das nossas fontes de informação política. Isso implica em uma análise criteriosa do discurso e função pretendida pelos sites mais usados para a informação.

As categorias e agrupamentos que sugiro aqui são meus e apenas ilustrativos, uma tentativa de clarificar nossa situação informativa.

Três tipos de sites

A recente lista feita pela Folha de São Paulo, embora os da direita não gostem, fornece um bom ponto de partida. Isso porque infelizmente ela não passa tão longe da realidade quanto gostariam os militantes mais aferrados aos slogans que infestam a “direitosfera”. O maior problema daquela lista é uma certa generalização. Na verdade, dentro da relação pode-se tirar dois tipos de sites diferentes, o que a grande mídia chama genericamente de fake news. Mas chamaremos apenas o primeiro grupo de fake news, que são os que deliberadamente mentem para ter curtidas. O terceiro tipo, como veremos, pertence à grande mídia quando consente em algum direitismo. E há entre eles um meio termo.

O primeiro grupo

De fato, muitos sites utilizam informações pouco confiáveis desde que apontem para soluções desejadas por seus redatores e leitores. A apelação para o desejo de gerar indignação no leitor é uma das marcas desse tipo de site, que tem como principais expoentes o Pensa Brasil, Brasil Atual, entre outros. Este tipo de site pode ser chamado de “imprensa marrom” oficial da direita, que difunde o que quer sem qualquer preocupação com a verdade, usando títulos bombásticos e mentindo descaradamente para gerar um efeito.

Função:

Um dos efeitos da existência deste grupo de site é a confirmação, por parte da grande mídia (esquerda), da sua tese de que a direita mente e manipula. O fake news, com base nesse grupo, fica associado à direita e a determinadas pautas preferidas por eles, como o desarmamento e a intervenção militar. Tem, portanto, a função mais característica do fenômeno fake news: descredibilizar um canal de informação mediante exemplos de erros grosseiros.

Segundo grupo

O segundo tipo é uma vertente do primeiro, mas com alguma responsabilidade a mais. É o caso do Crítica Nacional, que tem grande preocupação com a verdade e busca apurar as informações. No entanto, o site busca criar uma imagem noticiosa na sua apresentação apesar de seus textos e títulos serem opinativos. Isso confunde o leitor, apesar de agradar a muitos que compartilham da opinião. Seus títulos, portanto, só servem para circular entre os que concordam com a opinião manifestada. A Rádio Vox (da qual fui um dos fundadores) também está na lista da Folha. Assim como o Crítica Nacional, a sua presença na lista decorre de uma escolha do uso das palavras para seus títulos, o que facilmente é categorizado de “sensacionalismo” pelos critérios da grande mídia. O Mídia Sem Máscara poderia muito bem ser parte deste grupo, se não fosse assumidamente uma “revista eletrônica”, isto é, com uma linha editorial claramente opinativa e conservadora sem qualquer indício de disfarçar sua posição. O maior problema deste grupo está na sua “cara” noticiosa, que reflete a busca pelo mesmo tipo de credibilidade da grande mídia sem, no entanto, contar com o mesmo tipo de critério de veracidade adequado à percepção do leitor externo.

Função:

Assim como o primeiro grupo, as matérias divulgadas por estes sites também reforçam o discurso que tenta descredibilizar discursivamente a direita, já que apresenta em seus títulos e textos, afirmações que dificilmente o público geral leitor da grande mídia poderia confirmar sem o acompanhamento das discussões internas dos meios conservadores da internet. A função deste grupo, portanto, está ligada à estereotipagem sensacionalista e reducionista das suas afirmações pouco verossímeis para o público geral.

Terceiro tipo

O maior expoente do terceiro tipo é o site O Antagonista. Trata-se de um grupo que desempenha a clássica desinformação. É a direita consentida pela grande mídia, normalmente representada por segmentos ex-esquerdistas, tucanos e liberais, cuja principal finalidade é a denúncia da corrupção e falta de ética da política petista. O antipetismo é o viés mais claro das suas matérias e seus textos são, em geral, compartilhados e repercutidos pelo primeiro grupo, o das notícias falsas, sem citar a fonte. A relação deste terceiro grupo com o primeiro expõe e demonstra a sua função de desinformação e fortalecimento da imagem de combate informativo que muitas vezes serve à esquerda. Muitos sites tentam imitar O Antagonista, que se pauta pela credibilidade de seus colunistas, como Diogo Mainardi, para prescindir de indicações de fontes ou evidências. Confunde propositalmente opinião com informação, mas pode fazer isso porque pertence à estrutura da grande mídia.

Função desinformadora entre os grupos

A dobradinha entre os sites de “direita” da grande mídia, como o Antagonista, e os pertencentes a uma certa “imprensa marrom” da direita, o primeiro grupo, faz grandes estragos na direita brasileira. Enquanto o terceiro grupo informa a esquerda sobre o que a direita consentida está discutindo, o grupo “marrom” serve de exemplo de “fake news da direita” para a esquerda pintar e bordar em um território dominado por ela.

A função do terceiro grupo (O Antagonista) é mais ou menos a de ser usado pelo “efeito Arnaldo Jabor”, (aquele em que centenas de frases bonitas e “inteligentes” são espalhadas com a autoria de algum famoso). O canal que difunde é sempre o mais aproveitador da imagem e credibilidade de alguém.

Não foram os sites do primeiro grupo os “deletados” pela apuração de fake news sobre o caso da morte de Marielle. Foram os do segundo e terceiro grupo, mas por meio do estereótipo do primeiro. É para isso que eles servem. Não seria de todo absurdo supor que muitos desses sites pertencentes ao primeiro grupo seriam, na verdade, criações da própria mídia profissional com o intuito de atrair para si a credibilidade jornalística que se perde a cada dia.

O problema pode estar nos leitores

A verdade é que a maioria dos leitores brasileiros não está muito preocupada com os fatos reais, mas em determinar o curso dos acontecimentos. Por isso, a divulgação de matérias que soem verdadeiras tem muito mais apelo do que análises da realidade. A pequena parcela das pessoas interessadas no real, porém, acabam tragadas pela maré de factoides utilizáveis encarando-os como verdadeiros e ficando, assim, ainda mais perdidos. É mais ou menos essa situação informativa em que nos encontramos.